A NASA tem ignorado Urano. Mas isso pode estar prestes a mudar.

Este gigante de gelo pode representar o tipo de planeta mais comum da galáxia, mas sabemos muito pouco sobre o mesmo. Agora, os cientistas afirmam que é prioritário observar Urano de perto.

Publicado 28/04/2022, 12:51
Urano

Urano, o sétimo planeta a contar do sol, só foi visitado uma vez durante uma passagem orbital realizada pela sonda Voyager 2 em 1986. Agora, os cientistas querem regressar para estudar o planeta e as suas luas em pormenor.

Fotografia por NASA / JPL

Urano é provavelmente o planeta mais estranho do sistema solar. Algures na sua história, este gigante de gelo sofreu uma colisão, deixando-o a rodopiar de lado. Urano está rodeado por uma dúzia de anéis e cerca de 27 luas. A sua atmosfera é uma mistura de hidrogénio, hélio e compostos mais pesados que existem sob a forma de gelo nas profundezas das nuvens gélidas do planeta.

Porém, para além de alguns factos intrigantes, os cientistas sabem muito pouco sobre este mundo azul, que foi visitado pela primeira e única vez pela sonda Voyager 2 em 1986. Mas isso pode estar prestes a mudar.

Um relatório preparado por cientistas planetários e divulgado este mês recomenda que a NASA deve considerar uma missão a Urano como prioritária para a próxima década, talvez enviando uma sonda para o sétimo planeta a contar do sol até 2031.

“Acredito que vamos encontrar surpresas verdadeiramente extraordinárias e aprender muito sobre a formação dos planetas em geral, e podemos até descobrir alguns novos mundos oceânicos”, diz Jonathan Lunine, da Universidade Cornell, que presidiu o painel do relatório dedicado aos planetas gigantes.

Esta imagem dupla de Urano, captada pelo telescópio Keck II no Havai, revela detalhes sobre a atmosfera enigmática do planeta. O polo norte de Urano (à direita na imagem) é caracterizado por uma miríade de características semelhantes a tempestades, e por um padrão invulgar de nuvens recortadas a circundar o equador do planeta.

Fotografia por LAWRENCE SROMOVSKY, PAT FRY, HEIDI HAMMEL, IMKE DE PATER / UNIVERSIDADE WISCONSIN-MADISON

Um dos grandes atrativos de Urano – e Neptuno, o outro gigante de gelo do sistema solar – reside no facto de este mundo poder ser representativo do tipo mais comum de planeta na galáxia. Os cientistas acreditam que decifrar os enigmas de Urano, bem como compreender o seu estranho campo magnético, estrutura interior e temperaturas surpreendentemente geladas, pode ser crucial não apenas para compreender os gigantes de gelo da Via Láctea, como para desvendar informações sobre a história do nosso sistema solar.

A missão proposta, chamada Orbitador e Sonda Urano, visa lançar uma pequena sonda para analisar a atmosfera do planeta enquanto um orbitador percorre o sistema de Urano durante anos. É um plano semelhante ao da missão Cassini da NASA que teve muito sucesso e explorou o sistema de Saturno entre 2004 e 2017.

“As informações desta missão serão tão ricas que irão afetar quase todos os campos da ciência planetária”, diz a astrónoma planetária Heidi Hammel, da Associação de Universidades para Pesquisa em Astronomia. Heidi Hammel tem um brinquedo de peluche a representar Urano atrás de si durante a nossa videochamada e, antes de desligarmos, o planeta azul felpudo despede-se de mim. “Estou muito feliz”, diz Heidi Hammel.

Nave interplanetária do futuro

De dez em dez anos, a comunidade científica planetária apresenta um conjunto de recomendações sobre o que se deve priorizar durante os próximos 10 anos de exploração e pesquisa. O documento resultante, conhecido por levantamento decenal planetário, é usado como um guia pela NASA e pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA para decidir os projetos onde investir.

A último levantamento decenal, publicado em 2011, recomendava que a comunidade priorizasse uma missão multifacetada de envio de amostras de Marte. O rover Perseverance da NASA está atualmente a concluir a primeira fase desta missão enquanto atravessa a superfície do planeta vermelho, recolhendo e armazenando rochas e poeira marcianas para um eventual envio à Terra. O levantamento de 2011 também recomendava uma missão a Europa, a lua gelada de Júpiter, que é um dos lugares mais promissores do sistema solar para procurar vida – levando à criação da sonda Europa Clipper, que tem lançamento previsto para 2024.

O levantamento da década passada classificava uma missão a Urano como a terceira maior prioridade.

“Ter dois levantamentos decenais consecutivos a sugerir uma missão a Urano – é uma coisa boa”, diz Heidi Hammel. “Isto revela consistência e mostra o desejo da comunidade científica em regressar a esse sistema.”

O levantamento decenal de 2022 enfatiza a importância de procurarmos vida para além da Terra no nosso sistema solar, particularmente vida no subsolo, ou seja, organismos que consigam sobreviver sob a superfície marciana ou nos oceanos no interior de luas alienígenas. “A NASA deve acelerar o desenvolvimento e a validação de tecnologias de deteção de vida para as missões”, disse a copresidente do painel responsável pelo levantamento decenal, Robin Canup, do Instituto de Pesquisa Southwest, durante uma conferência sobre o relatório. Uma visita a Encélado, uma lua gelada de Saturno que pode abrigar uma biosfera próspera no seu oceano subterrâneo, é a segunda missão principal mais bem classificada, embora só possa ser executada a partir de 2050, quando as condições forem mais favoráveis para explorar o polo sul eruptivo desta lua.

Contudo, Urano, que é um mundo que dificilmente poderá abrigar vida como a conhecemos, foi selecionado como a missão de maior prioridade no relatório de 2022.

“Ficou claro para nós que Urano está no ponto certo em termos de coisas por explorar e descobrir”, diz Jonathan Lunine. “Creio que o planeta se vende a si próprio para merecer uma missão.”

Encélado, uma das luas de Saturno, foi identificada como o segundo alvo de maior prioridade para uma nova missão. Esta imagem da pequena lua gelada de Saturno foi captada pela sonda Cassini. Se os cientistas enviarem uma nova sonda para Urano, as luas desse planeta poderão ser reveladas com detalhes semelhantes.

Fotografia por NASA / JPL / INSTITUTO DE CIÊNCIA ESPACIAL

Os reinos gelados de Urano

Batizado em homenagem ao deus grego do céu noturno, Urano pode ser vital para compreendermos os milhares de planetas que orbitam estrelas distantes, muitos dos quais são aproximadamente do mesmo tamanho do referido gigante de gelo.

“Urano pode ser representativo do tipo mais comum de exoplaneta que existe, e sabemos muito pouco sobre o mesmo, ou seja, qualquer ciência que consigamos  obter do sistema de Urano é inestimável”, escreve por email o cientista planetário Paul Byrne, da Universidade de Washington, em St. Louis. “Mal posso esperar para ver esta missão nos céus!”

Não sabemos como ou quando é que ocorreu a rotação de Urano, ou como é que um planeta tão desequilibrado se manteve com um sistema tão ordenado de luas. Os cientistas não sabem muito sobre a estrutura interior de Urano, ou as razões pelas quais o planeta é muito mais frio do que Neptuno. E as observações da sonda Voyager sobre o campo magnético de Urano mostram que este é “realmente estranho, está deslocado e inclinado”, diz Heidi Hammel.

Ao longo das décadas, o Telescópio Espacial Hubble e os observatórios terrestres têm observado assinaturas térmicas estranhas entre os anéis de Urano, incluindo uma erupção de nuvens brilhantes na superfície, auroras brilhantes e ventos poderosos. Em 2003 os cientistas continuavam a descobrir luas adicionais.

A missão agora proposta, que pode custar até 4.2 mil milhões de dólares, pode avançar de forma dramática a nossa compreensão sobre o sistema de Urano. De acordo com os planos, uma sonda irá descer pela atmosfera do planeta e fazer medições detalhadas sobre a sua composição. Um orbitador maior, equipado com vários instrumentos científicos, irá passar anos a examinar o planeta e os seus anéis e luas.

“Muitas destas luas são incríveis de observar e mostram sinais de atividade nas suas superfícies”, diz Robin Canup.

Entre as luas deste planeta, que têm nomes de personagens das obras de William Shakespeare e Alexander Pope, a mais excêntrica é Miranda. Esta lua é de longe uma das mais estranhas do sistema solar e parece ter sido projetada por encomenda, com paisagens que parecem remendadas ao acaso. E nem sequer sabemos como é a aparência desta lua Frankenstein – as imagens granuladas da sonda Voyager só revelam metade deste pequeno mundo.

Talvez ainda mais importante seja descobrir se algumas das luas geladas que orbitam Urano, como Titânia ou Oberon, têm oceanos escondidos sob as suas crostas, como Europa e Encélado. Estes oceanos podem ter fundos rochosos, diz Jonathan Lunine, e talvez um abastecimento mais rico dos materiais orgânicos necessários para a vida como a conhecemos do que as luas que estão mais próximas do sol.

“Não seria espetacular se uma ou mais luas de Urano tivessem um oceano?” diz Jonathan Lunine.

À espera de Urano

Os cientistas planetários vão ter de esperar um pouco mais por um retrato aproximado de Urano, porque vai demorar anos, senão décadas, até que as sondas cheguem ao sistema solar externo.

Segundo os planos da missão, o Orbitador e Sonda Urano poderão ser lançados a bordo de um foguetão Falcon Heavy da SpaceX entre 2031 e 2038, ou mais tarde, para aproveitar um alinhamento mais favorável dos planetas. No espaço, a viagem mais rápida disponível atualmente demora cerca de 13 anos, o que significa que a sonda só entraria na órbita de Urano em meados da década de 2040.

Contudo, Heidi Hammel e outros investigadores que passaram anos a estudar os gigantes de gelo através de simples fragmentos de dados não estão chateados porque a missão pode chegar num momento em que estes cientistas já pararam de estudar planetas profissionalmente – ou como Heidi Hammel o coloca, quando ela já estiver a deambular num lar de idosos.

“Esta missão não é para mim. É para a geração seguinte”, diz Heidi Hammel. “Há vinte anos atrás, eu podia ter dito que queria realmente fazer isto, que queria chegar lá antes de me reformar. Mas isso mudou. Tornou-se em algo que quero ver antes de me aposentar, porque assim saberei que é real.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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