Há pessoas resistentes à COVID-19? Geneticistas procuram a resposta.

Há milhares de pessoas que foram expostas repetidamente ao vírus e nunca adoeceram. Os cientistas esperam que o seu ADN possa conter pistas para novos tipos de tratamentos.

Por Priyanka Runwal
Publicado 11/04/2022, 11:41
células de um paciente infetadas com Covid-19

Uma imagem colorida de micrografia eletrónica mostra as células de um paciente (a verde) fortemente infetadas com partículas do vírus SARS-CoV-2 (a roxo).

Fotografia por Niaid, NIH, Science Source

Depois de conseguir evitar a COVID-19 várias vezes durante a pandemia, a comissária de bordo Angeliki Kaoukaki começou a questionar se seria uma anomalia médica. Angeliki Kaoukaki provavelmente está entre um pequeno grupo de pessoas que podem ter resistência genética ao vírus. Os cientistas estão agora a tentar compreender como é que este tipo de resistência à COVID-19 pode funcionar – e se esta característica pode ser aproveitada para desenvolver novos medicamentos contra a doença.

Angeliki Kaoukaki trabalhou ao lado de outros membros de cabine que acusaram positivo, mas nunca adoeceu. Depois, em julho de 2021, o companheiro de Angeliki contraiu um caso grave de COVID-19 – teve febre alta e dores insuportáveis durante quase 10 dias. Angeliki não apresentou sintomas, apesar do casal ter ficado duas semanas em isolamento no seu apartamento em Atenas, na Grécia.

Angeliki Kaoukaki continuou a testar negativo em vários testes PCR e nos testes rápidos de antigénio – e não revelou anticorpos no sangue num teste que fez 23 dias após a infeção confirmada do seu companheiro.

“Ouvia todos os dias [os médicos a] dizer que eu devia ter COVID”, diz Angeliki, “mas acusei repetidamente negativo”.

Apesar de o casal estar vacinado, o seu companheiro contraiu novamente COVID-19 durante a vaga da variante Ómicron em janeiro. Angeliki isolou-se com o companheiro durante cinco dias e, novamente, não apresentou sintomas – sempre com testes negativos para o vírus. Foi neste momento que Angeliki começou a tentar encontrar uma explicação.

Um artigo online levou Angeliki até Evangelos Andreakos, imunologista da Fundação de Pesquisa Biomédica da Academia de Atenas. Evangelos Andreakos faz parte de um consórcio internacional chamado COVID Human Genetic Effort, que procura variações genéticas que possam revelar as razões pelas quais algumas pessoas nunca contraíram COVID-19.

Evangelos Andreakos e os seus colegas não esperavam encontrar muitos indivíduos para realizar o estudo, porém, viram-se sobrecarregados com emails de pelo menos 5 mil voluntários do mundo inteiro com histórias semelhantes às de Angeliki Kaoukaki. Através das amostras de saliva de 20% das pessoas que correspondem aos critérios do estudo, Envagelos Andreakos e a sua equipa vão scanear as regiões codificadoras de proteínas de genes no ADN destes individuos para detetar quaisquer mutações ausentes nas sequências genéticas de pacientes com casos moderados ou graves de COVID-19. A esperança é a de que algumas destas pessoas sejam portadoras do segredo para a resistência à COVID-19.

“Acreditamos que é uma população rara”, diz Evangelos Andreakos. “Mas há precedentes.”

Resistência a outras infeções virais

Durante muito tempo, a crença era a de que o resultado de qualquer infeção dependia das características genéticas do patógeno.

“Havia uma tendência para pensar mais sobre um patógeno em termos de gravidade – saber se era um patógeno grave ou ligeiro”, diz o virologista molecular Johan Nordgren, da Universidade de Linköping, na Suécia. Foi dada relativamente menos atenção ao hospedeiro e se os seus genes afetavam a sua capacidade de combater uma infeção, acrescenta Johan.

Contudo, nas últimas duas décadas, os cientistas têm conduzido os chamados estudos de associação de genoma para identificar determinados genes ou regiões do ADN que possam estar ligados a doenças específicas. Isto é feito através da comparação entre as sequências genéticas de indivíduos infetados com as de pessoas saudáveis, tentando encontrar correlações entre mutações e resistência.

Em 1996, este método permitiu ao biólogo molecular Stephen O'Brien e aos seus colegas descobrir uma mutação genética rara que protege contra o vírus da imunodeficiência humana, que provoca a SIDA.

A maioria das pessoas tem um recetor de proteína principalmente na superfície de determinadas células imunitárias, chamado recetor de quimiocinas tipo 5, ou CCR5. Este recetor permite ao HIV ligar-se e entrar nas células. Mas a equipa de Stephen O'Brien descobriu que algumas pessoas têm uma mutação que produz um recetor defeituoso.

Para ser resistente, um indivíduo precisa de duas cópias da chamada mutação Delta-32 – uma do pai e uma da mãe. Uma cópia continua a permitir ao vírus infetar as células, embora abrande a trajetória no desenvolvimento de SIDA.

“A Delta-32 foi um exemplo brutal para convencer as pessoas de que a genética era importante, que era possível ter resistência genética”, diz Stephen O’Brien.

Os cientistas também rastrearam uma mutação num gene diferente que confere resistência a determinadas estirpes de norovírus, que são uma das principais causas de gastroenterite aguda em todo o mundo. Esta mutação impede que os norovírus entrem nas células que revestem o trato digestivo humano.

“Por outras palavras, ou fazemos a porta que o vírus usa para entrar nas células, ou não”, diz Lisa Lindesmith, investigadora de norovírus da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. “Se o corpo não abrir essa porta, não importa a quantidade de vírus a que possamos expor uma pessoa, a pessoa não fica infetada.”

Embora a resistência genética a infeções virais não seja generalizada, o simples facto de existir despertou o interesse em mutações semelhantes em indivíduos expostos à COVID.

Princípios genéticos da resistência à COVID-19

O referido COVID Human Genetic Effort começou a recrutar voluntários no ano passado com um foco em profissionais de saúde que foram expostos ao vírus, mas que não ficaram infetados, e em adultos saudáveis que vivem numa casa cujo cônjuge ou companheiro adoeceu e sofreu sintomas moderados ou graves de COVID-19, como é o caso de Angeliki Kaoukaki.

Os cientistas especulam que, se estes indivíduos são expostos repetidamente ao vírus e ainda assim escapam da infeção, provavelmente têm mais propensão para serem portadores de uma mutação que confere resistência ao vírus.

Um dos alvos promissores é o gene que codifica o recetor ACE2 humano e regula a sua expressão nas superfícies celulares. O vírus SARS-CoV-2, que provoca a doença COVID-19, precisa de se ligar ao ACE2 para entrar e infetar as células. Uma mutação que consiga alterar a sua estrutura e expressão pode bloquear a ligação do vírus e prevenir a infeção.

Até agora, o recetor ACE2 parece ser a nossa melhor aposta, diz Jean-Laurent Casanova, geneticista da Universidade Rockefeller, que integra o COVID Human Genetic Effort. As variações genéticas que permitem ao ACE2 funcionar normalmente, mas que interrompem a sua interação com o vírus – “esses genes seriam bons candidatos”, diz Jean-Laurent.

É possível, porém, que existam outros fatores biológicos para além do recetor ACE2 que consigam explicar porque é que algumas pessoas não ficam infetadas com SARS-CoV-2.

Algumas pessoas podem ter um sistema imunitário robusto que produz proteínas antivirais chamadas interferões do tipo I, que limitam a replicação do vírus nas células humanas. Estas proteínas são a primeira linha de defesa do corpo e aparecem antes mesmo da formação de anticorpos contra um vírus.

Outra hipótese é a de que as células imunitárias chamadas células de memória T, que se podem ter formado durante uma exposição anterior a coronavírus como os que provocam constipações comuns, ajudam a limitar a infeção por SARS-CoV-2 em alguns pacientes.

Em 2020, antes da distribuição das vacinas, um estudo encontrou uma presença maior de células T nos profissionais de saúde expostos ao vírus que não desenvolveram COVID-19.

As células T podem ter eliminado o vírus muito rapidamente em algumas pessoas. Mas isso não é uma garantia de que estas pessoas estejam protegidas de futuras infeções. “Na verdade, sabemos que algumas destas pessoas acabaram por ficar infetadas com variantes mais infeciosas e/ou com uma carga viral mais elevada”, diz Mala Maini, imunologista viral da Universidade College de Londres e uma das autoras do estudo.

Se a investigação levada agora a cabo revelar indícios de resistência genética, Jean-Laurent Casanova espera que as informações possam ser usadas para desenvolver tratamentos contra a COVID-19 – semelhantes aos inibidores de CCR5 projetados para tratar infeções por HIV. Mas as decisões para desenvolver estes tratamentos, diz Jean-Laurent, vão depender da natureza dos genes descobertos com mutações.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
Quem Infetou o Presidente Trump? Esta Ferramenta Genética Consegue Identificar Facilmente a Fonte.
Ciência
Por que Motivo Existem Sequer Casos Assintomáticos de COVID-19?
Ciência
Por Que Razão as Mutações Deste Coronavírus Não São Motivo Para Alarme
Ciência
Quanto Tempo Dura o Coronavírus no Nosso Corpo?
Ciência
A COVID-19 permanece no nosso corpo durante quanto tempo? Novo relatório oferece pistas.

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados