Vacinas mais fortes, que visam as células T, são promissoras

Os ensaios preliminares sugerem que as vacinas que ativam estas células imunitárias funcionam melhor, atuam mais depressa e podem proteger as pessoas com sistemas imunitários enfraquecidos.

Por Priyanka Runwal
Publicado 27/04/2022, 14:47
micrografia eletrónica mostra uma célula T

Esta imagem colorida de micrografia eletrónica mostra uma célula T do sistema imunitário de um doador saudável. As células T pertencem a um grupo de glóbulos brancos que desempenham um papel vital na defesa do corpo contra vírus, incluindo o SARS-CoV-2, que provoca a doença COVID-19.

Fotografia por Science Source

As vacinas contra a COVID-19 fazem um ótimo trabalho na prevenção de casos graves de doença para a maioria das pessoas, mas já não funcionam assim tão bem para as pessoas que têm um sistema imunitário gravemente comprometido.

Nas pessoas saudáveis, as vacinas atuais funcionam ao desencadear a produção de anticorpos que se ligam ao vírus SARS-CoV-2, que provoca a COVID-19, impedindo-o de infetar células saudáveis. Mas para as pessoas que têm menos anticorpos – incluindo pacientes com cancro no sangue ou que tomam medicação que suprime a sua resposta imunitária – a resposta do corpo é menos eficaz.

Jonas Heitmann, hematologista e oncologista do Hospital Universitário de Tübingen, na Alemanha, reconhece que muitos dos seus pacientes com cancro apresentavam um risco elevado de contrair COVID-19 e sabiam que precisavam de um tipo diferente de vacina. Jonas Heitmann e outros investigadores mostraram que as chamadas células T, que aumentam a resposta imunitária do corpo e matam as células infetadas com SARS-CoV-2, conseguiam montar uma defesa quando o abastecimento de anticorpos era limitado.

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Agora, Jonas e os seus colegas desenvolveram uma vacina que ativa especificamente as células T, vacina que está a ser testada em ensaios clínicos na Alemanha.

A sua esperança, diz Jonas Heitmann, é “proteger aqueles que não podem beneficiar das vacinas aprovadas atualmente”.

Mas estes investigadores não são os únicos a trabalhar no desenvolvimento de vacinas focadas em células T. Os cientistas já suspeitam há muito tempo que as vacinas direcionadas para as células T podem eliminar infeções virais mais depressa do que as vacinas aprovadas atualmente e fornecer proteção a longo prazo contra casos graves de doença, uma vez que os anticorpos diminuem alguns meses depois da vacinação.

Outra vantagem das vacinas de células T é a de que, por reconhecerem características do SARS-CoV-2 que são comuns a muitas variantes e vírus irmãos intimamente relacionados, estes tipos de vacinas podem fornecer uma ampla proteção contra futuras infeções por coronavírus, diz Ramon Arens, imunologista na Universidade de Leiden, nos Países Baixos.

Qual é a diferença das vacinas de células T?

O lote atual de vacinas é projetado para ensinar os glóbulos brancos, ou células B, a produzir anticorpos que conseguem reconhecer e ligar-se às proteínas encontradas na superfície de um vírus, como a chamada proteína spike, a parte do vírus que o ajuda a ligar-se às células. Quando os anticorpos se ligam a um vírus, este já não consegue infetar a célula. O problema reside no facto de a proteína spike sofrer mutações com frequência, mudando a sua aparência e iludindo os anticorpos, que deixam de a reconhecer.

Ao contrário dos anticorpos, as células T “veem” muitas outras partes do vírus: partes que mudam, incluindo a proteína spike, e as partes que não mudam. Os cientistas estão a projetar vacinas de células T contra a COVID-19 que ajudam as células T a reconhecer muitas das proteínas escondidas no interior do SARS-CoV-2, bem como as proteínas expostas à superfície.

Como os cientistas não sabem ao certo quais são as proteínas virais mais bem-sucedidas na ativação das células T do corpo, usam um algoritmo para perscrutar a base genética do SARS-CoV-2, para procurar proteínas adequadas e, de seguida, testar em candidatos em laboratório para encontrar a combinação mais eficaz.

A vacina projetada por Jonas Heitmann e pela sua equipa, chamada CoVac-1, contém uma mistura de seis fragmentos sintéticos de proteínas virais. Esta mistura inclui um fragmento derivado da proteína spike, bem como de outras do envelope do vírus, da membrana que medeia a entrada nas células hospedeiras e da proteção que encapsula o material genético do vírus.

A Osivax, uma empresa francesa de biotecnologia, está a testar uma vacina de células T para a gripe e agora também está a desenvolver uma vacina contra o SARS-CoV-2 e coronavírus intimamente relacionados. Outras vacinas, como a vacina desenvolvida pela empresa de biotecnologia Vaxxinity, sediada no Texas, ativam as células B e as T usando uma mistura de fragmentos de proteínas sintéticas da chamada proteína spike, proteção e membrana do SARS-CoV-2.

As vacinas de células T são melhores para todos?

Muitas das vacinas de células T estão nos estágios iniciais de testagem, portanto, é demasiado cedo para perceber se serão melhores para proteger todas as pessoas contra a COVID-19 em comparação com as vacinas atualmente em circulação, que também provocam uma resposta por parte das células T. Contudo, cientistas como Jonas Heitmann acham muito provável que estas vacinas tenham melhor desempenho em pessoas gravemente imunocomprometidas do que as opções atualmente existentes.

Num ensaio combinado de fase um e dois, a equipa de Jonas Heitmann testou a vacina CoVAC-1 em pacientes incapazes de produzir anticorpos devido a uma doença subjacente. Os dados preliminares de 14 participantes – muitos dos quais receberam doses de uma vacina mRNA que não se mostraram eficazes – indicam que 13 pacientes tiveram uma resposta mensurável de células T.

Porém, ainda não se sabe se isto é suficiente para proteger contra a COVID-19, ou pelo menos para prevenir contra casos graves de doença. Mas as evidências preliminares do estudo de Ramon Arens, do laboratório da Universidade de Leiden, que ainda está em revisão por pares, mostram que os ratos vacinados com três doses de uma vacina de células T específica para roedores ficaram protegidos contra uma infeção letal por SARS-CoV-2.

Shane Crotty, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla, na Califórnia, argumenta que há uma desvantagem nas vacinas de células T. Muitas das células T ativadas por uma injeção intramuscular no braço tendem a circular na corrente sanguínea, em vez de se concentrarem no nariz ou na garganta, que é onde o corpo encontra pela primeira vez o vírus SARS-CoV-2. “Demora alguns dias até que as células T ativadas pela vacina atinjam estes locais e dominem o vírus.”

Shane Crotty sugere que as vacinas de células T podiam ter um impacto maior se gerassem células T locais que encontrassem o vírus no ponto de entrada. Isto significaria administrar a vacina pelo nariz, que é complicado.

Os cientistas também ainda não sabem qual o nível de células T necessário para proteger contra a COVID-19. Contudo, Shane Crotty suspeita que uma vacina de células T pode ajudar as pessoas que abrigam níveis quase indetetáveis de SARS-CoV-2 durante semanas ou anos, algo que alguns investigadores acreditam ser uma das causas dos sintomas persistentes conhecidos coletivamente por “COVID longa”.

Resumindo, o trabalho de determinadas células T é matar as células infetadas. “Portanto, se tivermos uma vacina que consiga fazer isto melhor”, especula Shane Crotty, “isso pode ​​ter um benefício adicional na redução de alguns aspetos da COVID longa”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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