Vaga misteriosa de ‘dedos dos pés COVID’ continua a intrigar os cientistas

Dedos dos pés inchados, com um tom avermelhado e por vezes doridos foram um dos sintomas mais estranhos observados no início da pandemia. Mas os especialistas continuam a debater a sua causa – e se a COVID-19 é realmente a responsável.

Por Priyanka Runwal
Publicado 4/04/2022, 10:47
SARS-CoV-2 - frieiras

As chamadas frieiras são uma inflamação dolorosa de pequenos vasos sanguíneos na pele que acontece em resposta à exposição repetida ao frio. Durante o estágio inicial da pandemia, os médicos foram inundados com casos de frieiras, fazendo-os questionar se seriam provocadas pelo SARS-CoV-2, o vírus que provoca a doença COVID-19.

Fotografia por Science Source

Lisa Arkin viu mais dedos dos pés inchados e descoloridos durante os primeiros meses da pandemia do que durante toda a sua carreira.

Lisa Arkin, dermatologista pediátrica da Universidade de Wisconsin-Madison, costumava tratar anualmente alguns pacientes com lesões temporárias na pele, chamadas eritema pérnio, ou frieiras. Mas em abril de 2020, quando os casos de COVID-19 começaram a surgir, Lisa atendeu 30 pacientes com frieiras. “A minhas clínicas de urgência – quer seja de telemedicina ou presencialmente – ficaram de repente cheias de pacientes com dedos dos pés roxos, queixando-se de inchaços, bolhas, desconforto e dores”, diz Lisa Arkin. “Fiquei completamente chocada.”

Os dermatologistas noutras partes dos EUA e pelo mundo inteiro onde os casos de COVID-19 estavam a aumentar também relataram frequentemente casos de pessoas com lesões avermelhadas nos dedos dos pés. As chamadas frieiras geralmente começam com uma sensação de ardor nos dedos dos pés, seguida pela descoloração, mas é algo que geralmente desaparece sem tratamento dentro de algumas semanas. Em alguns casos invulgares, porém, esta condição arrasta-se durante meses e até um ano ou mais.

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“Nos casos mais ligeiros, as pessoas queixam-se de alguma comichão”, diz Esther Freeman, dermatologista e epidemiologista da Escola de Medicina de Harvard. “Mas na sua forma mais grave, é tão doloroso que alguns pacientes nem sequer conseguem calçar os sapatos durante semanas.”

Os médicos começaram assim a tentar perceber se as frieiras eram devido ao SARS-CoV-2, o vírus que provoca a COVID-19. Nos últimos dois anos, os cientistas estudaram milhares de frieiras durante a pandemia ou casos de ‘dedos dos pés COVID’ pelo mundo inteiro, analisando biopsias de sangue e pele para responder a esta questão. Eis o que sabemos até agora.

O que são dedos dos pés COVID?

Não é invulgar as infeções virais, incluindo o sarampo, a varicela e a mononucleose, provocarem uma erupção cutânea com bolhas, pequenos inchaços ou manchas em diferentes partes do corpo. Estes sintomas surgem à medida que o sistema imunitário do nosso corpo responde ao vírus ou às células da pele danificadas pelo mesmo.

Da mesma forma, os dermatologistas já identificaram uma série de condições da pele, incluindo frieiras, associadas à COVID-19. “Se perguntássemos, digamos, a 100 dermatologistas antes da pandemia quais eram as erupções cutâneas que esperariam ver com um vírus, as chamadas frieiras pérnio não estariam na lista – nem sequer estariam no top 50”, diz Esther Freeman. “As frieiras raramente estão associadas aos vírus.”

Muitos dos pacientes afetados – geralmente crianças e jovens adultos – nunca desenvolveram os sintomas típicos da COVID-19, como tosse, febre ou dores musculares. Se tiveram sintomas, foram muito ligeiros. As lesões – que normalmente se desenvolveram após a exposição repetida a condições frias e húmidas, e que também afetaram os dedos das mãos, os calcanhares, as orelhas e o nariz – geralmente apareceram entre uma e quatro semanas após um teste positivo para a COVID-19. No entanto, muitos dos pacientes com os chamados dedos dos pés COVID, incluindo vários dos pacientes mais jovens de Lisa Arkin, acusaram negativo nos testes PCR e não tinham anticorpos contra o SARS-CoV-2, sugerindo que provavelmente nunca tinham contraído COVID-19.

Da mesma forma, um estudo realizado no norte da Califórnia descobriu que apenas 17 dos 456 pacientes diagnosticados com frieiras entre abril e dezembro de 2020 acusaram positivo para a COVID-19 nos testes PCR, e apenas 1 dos 97 pacientes cujo sangue foi analisado para a presença de anticorpos específicos para o SARS-CoV-2 testou positivo. Isto apesar de um aumento nos casos de frieiras em 2020, em comparação com os casos registados na região entre 2016 e 2019.

“É por tudo isto que tem sido difícil confirmar se está associado à COVID”, diz Lisa Arkin.

O que provoca os dedos dos pés COVID?

Em alguns estudos, os investigadores detetaram a presença de partículas de vírus nas biopsias cutâneas de pacientes com COVID, sugerindo um papel desempenhado pelo SARS-CoV-2, mas os especialistas não estão convencidos.

Um estudo publicado em outubro do ano passado na British Journal of Dermatology está entre os trabalhos que sugerem que uma resposta imunitária agressiva a uma exposição ao SARS-CoV-2 pode ser responsável pelos dedos dos pés COVID. Os investigadores estudaram as amostras de sangue e pele de 50 pacientes – muitos dos quais apresentaram sintomas de COVID-19, como tosse, fadiga e febre – que tiveram frieiras pela primeira vez em abril de 2020 e acusaram negativo nos testes PCR.

Este estudo mostrava que, em comparação com os indivíduos saudáveis, os pacientes com dedos dos pés COVID tinham níveis elevados de proteínas imunitárias chamadas autoanticorpos no sangue, que danificavam erradamente os próprios tecidos saudáveis. E também tinham altos níveis de proteínas chamadas interferões do tipo I, que são uma das primeiras linhas de defesa contra infeções virais.

“A forma como eu expliquei aos meus pacientes foi que os dedos dos pés COVID eram quase uma coisa boa demais”, diz Esther Freeman. “Os corpos deles fizeram um bom trabalho a combater o vírus e, de facto, tiveram uma resposta imunitária bastante apropriada, pois tinham muitos interferões. E um dos efeitos secundários de ter todos estes interferões por perto é os dedos dos pés ficarem avermelhados.”

Esta produção acentuada de interferões pode estar a ajudar os pacientes com COVID-19 a eliminar a infeção por SARS-CoV-2, antes de os anticorpos específicos para a COVID se formarem, algo que poderia explicar porque é que muitos destes pacientes acusam negativo nos testes de anticorpos. Para além disso, a produção de determinados interferões do tipo I é maior nas crianças e jovens adultos e vai diminuindo com a idade, podendo explicar porque é que os dedos dos pés COVID são mais comuns neste grupo demográfico.

“Temos conhecimento de pessoas que têm interferonopatia, ou doenças genéticas onde há muita produção de interferões, e que apresentam lesões semelhantes às frieiras”, diz Lindy Fox, dermatologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

No ano passado, algumas pessoas também desenvolveram lesões semelhantes a frieiras logo depois receberem uma vacina mRNA contra a COVID-19. “Felizmente, não é muito comum”, diz Esther Freeman. “Mas parece possível que alguns pacientes estejam a criar uma resposta semelhante de interferões após a vacinação, como acontece com a reação ao próprio vírus.”

Contudo, o aumento dos níveis de interferões do tipo I por si só não explica completamente os casos de frieiras durante a pandemia. Por exemplo, os pacientes com hepatite viral e cancro são tratados com interferões para eliminar o vírus ou interromper e destruir o crescimento de células cancerígenas, mas os interferões não induzem condições cutâneas semelhantes às frieiras.

Alguns especialistas sugerem que podem haver casos de COVID que não têm nada que ver com o vírus, mas sim com um comportamento pandémico. As pessoas já não usavam tanto os sapatos e as meias quando estavam de confinamento em casa, o que pode ter induzido “frieiras pandémicas” em algumas pessoas, diz Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale. “Mas esta perspetiva iria necessitar de mais análise”, diz Akiko. Até que os especialistas consigam rastrear a pegada definitiva do SARS-CoV-2 em pacientes com dedos dos pés COVID, esta associação irá continuar sujeita a especulação. “Há muitas questões em aberto”, diz Lisa Arkin, “e podem levar a mais perguntas do que respostas”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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