A COVID-19 permanece no nosso corpo durante quanto tempo? Novo relatório oferece pistas.

Um estudo abrangente descobriu que os resíduos virais conseguem sobreviver durante meses após a infeção em algumas pessoas, podendo até provocar alguns sintomas da chamada COVID longa.

Por Sanjay Mishra
Publicado 24/05/2022, 11:00
tomografia

Uma paciente é submetida a uma tomografia computadorizada ao tórax na Policlínica Gemelli, em Roma, para verificar o seu estado pulmonar após contrair COVID-19.

Fotografia por Marco Carmignan

A maioria dos pacientes com COVID-19 recupera de uma infeção aguda em duas semanas, mas há pedaços do vírus que nem sempre desaparecem dos corpos dos pacientes. Agora, um novo estudo, um dos mais abrangentes com um foco em pacientes hospitalizados com COVID-19, mostra que algumas pessoas abrigam estes resíduos virais durante semanas ou meses após a resolução dos sintomas primários de COVID-19.

O estudo sugere que, quando o material genético do vírus, chamado RNA, permanece no corpo durante mais de 14 dias, os pacientes podem enfrentar casos mais graves de doença, sofrer de delírios, permanecer mais tempo hospitalizados e ter maior risco de morrer de COVID-19 em comparação com as pessoas que eliminam o vírus rapidamente. A persistência do vírus também pode desempenhar um papel na chamada COVID longa, uma série de sintomas debilitantes que pode persistir ao longo de meses. Só nos EUA, as estimativas sugerem que entre 7.7 e 23 milhões de pessoas são agora afetadas pela COVID longa.

Sem imunidade conferida pela vacinação ou por uma infeção anterior, o SARS-CoV-2 – o vírus que provoca a doença COVID-19 – replica-se e espalha-se por todo o corpo, e pode persistir no nariz, boca e intestinos. Contudo, para a maioria das pessoas infetadas, os níveis de vírus no corpo atingem o pico passados três a seis dias após a infeção original, e o sistema imunitário elimina o patógeno em cerca de dez dias. O vírus que permanece após este período geralmente não é infecioso.

“Mesmo depois de contabilizarmos a gravidade da doença e se os pacientes tinham necessitado de entubação ou sofriam de comorbidades médicas subjacentes, há algo aqui que assinala que os pacientes que acusam persistentemente positivo nos testes PCR têm piores resultados”, diz Ayush Batra, neurologista da Escola de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, que liderou o novo estudo.

O estudo de Ayush Batra mostra que os pacientes com persistência prolongada de vírus após uma infeção aguda correm mais riscos de complicações graves de COVID-19, diz Timothy Henrich, virologista e imunologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que não participou na nova investigação. No entanto, o estudo não analisa se este vírus persistente é diretamente responsável pela COVID longa.

“Existem várias hipóteses sobre as causas da COVID longa, incluindo a persistência viral, e pode haver vários fatores em jogo, talvez com algum grau de variabilidade de pessoa para pessoa”, diz Linda Geng, médica do Centro Médico de Stanford e codiretora de uma Clínica de Síndrome Pós-Aguda COVID-19 inaugurada recentemente para tratar pacientes com COVID longa.

Vírus persistente provoca casos mais graves de COVID-19

Ayush Batra e a sua equipa começaram por estudar as infeções persistentes de coronavírus depois de observarem que alguns pacientes que regressavam ao hospital continuavam a testar positivo para o vírus quatro ou cinco semanas depois do diagnóstico inicial de infeção.

Para o novo estudo, a equipa analisou 2518 pacientes com COVID-19 hospitalizados no sistema de Cuidados de Saúde Northwestern entre março e agosto de 2020. A equipa concentrou-se nos testes PCR, considerados o padrão de ouro, porque estes testes são altamente sensíveis e detetam o material genético do vírus, e também têm menos propensão para acusar falsos negativos.

A equipa descobriu que 42% dos pacientes continuavam a acusar positivo nos testes PCR duas semanas ou mais após o diagnóstico inicial. Passados mais de 90 dias, 12% dos pacientes continuavam a testar positivo; uma pessoa testou positivo 269 dias após a infeção inicial.

Esta persistência viral já tinha sido observada em estudos mais pequenos. Os investigadores já tinham demonstrado que mesmo os pacientes sem sintomas óbvios de COVID-19 continuavam a ser portadores de SARS-CoV-2 durante alguns meses ou mais. Em alguns pacientes imunocomprometidos, o vírus pode demorar mais de um ano a desaparecer. Num ensaio feito em Stanford sobre infeção crónica por COVID-19, cerca de 4% dos pacientes continuaram a expelir RNA viral nas suas fezes sete meses após o primeiro diagnóstico. Porém, o estudo de Ayush Batra revela que existe um número maior de pacientes que demora mais tempo a eliminar o vírus do que se pensava anteriormente.

“A persistência de RNA significa que ainda há um reservatório de vírus algures no corpo”, diz Michael VanElzakker, neurocientista que colabora com o Hospital Geral de Massachusetts, a Escola de Medicina de Harvard e a Universidade Tufts. Acredita-se que estes reservatórios permitem ao vírus persistir durante um longo período de tempo e podem fazer com que o sistema imunitário atue de forma errática, podendo até provocar a COVID longa.

“Alguns pacientes, por uma variedade de razões, não conseguem eliminar este reservatório, ou o seu sistema imunitário reage de uma forma anormal que resulta nos sintomas persistentes que passaram a ser conhecidos por COVID longa”, diz Ayush Batra.

Ainda assim, para muitos cientistas não há evidências suficientes para vincular a persistência do RNA viral à COVID longa.

Vírus adormecidos

A lista de tecidos humanos onde o SARS-CoV-2 se esconde durante muito tempo após a infeção inicial continua a aumentar. Os estudos já identificaram o vírus, ou material genético do mesmo, nos intestinos de pacientes quatro meses após a infeção inicial e no interior do pulmão de um doador falecido mais de cem dias após este ter recuperado da COVID-19. Outro estudo, que ainda não foi revisto por pares, também detetou o vírus no apêndice e tecidos peitorais – 175 e 462 dias, respetivamente – após infeções por coronavírus. As investigações feitas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, que ainda não foram revistas por pares, detetaram a persistência de RNA do SARS-CoV-2 com níveis baixos em vários tecidos durante mais de sete meses, mesmo quando este era indetetável no sangue.

“Não é surpreendente encontrarmos vírus nos tecidos de um paciente, vírus com o qual o paciente teve contacto durante a vida”, diz Kei Sato, virologista da Universidade de Tóquio. De facto, o trabalho de Kei Sato mostra que os humanos acumulam frequentemente vírus como o vírus Epstein-Barr, o vírus varicela-zóster (que provoca a varicela) e muitos vírus do herpes em formas dormentes. Estes vírus persistentes geralmente estão presentes em níveis baixos, ou seja, a sua identificação só é possível através de um sequenciamento genético extenso.

Tudo isto revela o quão complicado é provar ou refutar a associação entre a persistência do SARS-CoV-2 e a COVID longa. A infeção herpes-zóster, por exemplo, ocorre décadas após uma infeção por varicela, quando o vírus latente é reativado durante um stress imunitário.

Da mesma forma, a persistência do SARS-CoV-2 também provocar problemas de saúde a longo prazo. Timothy Henrich acredita que, quando o vírus fica profundamente enraizado nos tecidos, pode fazer com que o sistema imunitário mude para um estado inflamatório desregulado. “Este estado é provavelmente uma evidência de que o vírus consegue persistir e talvez até entrar numa espécie de paz podre com o corpo”, diz Michael VanElzakker.

De qualquer forma, a associação de quaisquer vírus persistentes à COVID longa vai exigir estudos mais extensivos. “Ainda não sabemos o suficiente para tirar conclusões sólidas sobre qualquer um dos mecanismos propostos atualmente, mas há investigações a decorrer para responder a estas perguntas”, acrescenta Linda Geng.

Eliminar os vírus persistentes pode curar a COVID longa

Tanto a equipa de Linda Geng como a de Timothy Henrich apresentaram estudos de caso preliminares que mostram uma melhoria nos sintomas de COVID longa depois de os pacientes terem sido tratados com o antiviral oral Paxlovid da Pfizer. O Paxlovid impede a replicação do vírus, e é por isso que alguns especialistas acreditam que este antiviral pode eliminar qualquer vírus remanescente. Mas ambos os autores pedem cautela antes de assumir que o Paxlovid é seguro, eficaz ou suficiente, porque não está provado que se trata de um tratamento seguro para a COVID longa.

“Existem algumas teorias interessantes sobre a forma como o Paxlovid pode ser útil no tratamento da COVID longa, mas precisamos de mais investigações e ensaios clínicos antes de chegarmos a qualquer conclusão”, diz Linda Geng.

A agência do medicamento dos EUA tem alertado contra o uso livre do Paxlovid, que não foi aprovado para o tratamento de casos de COVID longa. A agência atribuiu ao Paxlovid uma autorização de uso de emergência para tratar casos ligeiros ou moderados de COVID-19 em pessoas com perigo de desenvolver complicações graves – duas vezes por dia, durante cinco dias, após um teste positivo.

“Seria importante considerar a duração ideal do tratamento [com Paxlovid] para garantir resultados sustentados e duradouros”, diz Linda Geng.

O presidente dos EUA, Joe Biden, pediu ao secretário do departamento de Saúde e Serviços Humanos para criar um plano de ação nacional que atue sobre a COVID longa, e os Institutos Nacionais de Saúde lançaram um estudo plurianual chamado RECOVER para compreender, prevenir e tratar os efeitos de saúde a longo prazo relacionados com a COVID-19.

Enquanto isso, parece que as vacinas não se limitam a proteger contra os casos graves de doença, porque também estão a surgir evidências de que podem prevenir muitos dos sintomas da COVID longa. Um estudo feito recentemente comparou 1.5 milhões de pacientes não vacinados contra a COVID-19 com 25.225 pacientes vacinados e posteriormente infetados e descobriu que as vacinas reduziram significativamente o risco de desenvolvimento de sintomas da COVID longa até 28 dias após uma infeção. O efeito protetor da vacinação fica ainda maior passados 90 dias pós-infeção.

“Apesar de a maioria das pessoas não desenvolver COVID longa, existe certamente esse risco, e a COVID não termina após os primeiros dez dias de infeção” diz Timothy Henrich. “Para as pessoas que não levam a COVID a sério, isto pode ser um grande alerta.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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