A dor invisível da COVID-19: milhões de crianças órfãs

Estima-se que 10.4 milhões de crianças tenham perdido um dos pais ou cuidadores, colocando-as em maior risco de pobreza e de todas as principais causas de morte – mas este problema não necessita propriamente de terminar em catástrofe.

Publicado 10/05/2022, 10:54
Crianças e Covid-19

Quase 10.4 milhões de crianças em todo o mundo perderam um dos pais ou cuidadores devido à COVID-19. Yuni Folani é uma dessas crianças. O seu pai de 56 anos, Langlang Buana, morreu em junho de 2021 devido ao coronavírus e insuficiência renal em Pasaman, Sumatra Ocidental, na Indonésia.

Fotografia por Muhammad Fadli

Há sempre flores frescas no túmulo de Langlang Buana, na pequena cidade de Pasaman, na província indonésia de Sumatra Ocidental. A sua filha mais nova, Yuni Folani, conhecida por Ivo, passa pelo cemitério a caminho da escola. Yuni visita a sepultura do pai com tanta frequência que as pétalas que colhe das flores no seu quintal ainda estão perfumadas quando ela regressa novamente com um ramo fresco.

O pai de Yuni Folani morreu de insuficiência renal enquanto estava doente com COVID-19 no ano passado. Yuni, de 14 anos, é a mais nova de duas filhas e diz que estava constantemente na brincadeira com o pai – eram inseparáveis. Yuni quer ser polícia quando crescer, seguindo os passos do pai, que era segurança. “Sinto muitas saudades de quando ele se zangava comigo”, diz Yuni com as lágrimas a escorrer pelo rosto.

Várias vezes por semana, Yuni e a mãe, Nisma, fazem uma viagem de dois quilómetros de motorizada até ao túmulo de Langlang. O cemitério fica a caminho da escola de Yuni e da irmã Try.

Fotografia por Muhammad Fadli

Sem o pai, a família tem passado momentos difíceis. A mãe de Yuni, Nisma, é o único ganha-pão da família, mas tem dificuldade em conseguir esticar o salário a rondar os cem euros que ganha por mês na mercearia local.

Contudo, Yuni e a sua família estão longe de serem um caso isolado. A Organização Mundial de Saúde estima que, até ao dia 5 de maio de 2022, já tinham morrido quase 15 milhões de pessoas de causas relacionadas com a COVID-19 – desde que a pandemia global começou – quase três vezes mais o número oficial de mortes. Nos Estados Unidos, o país que registou mais mortes, morreram quase um milhão de americanos, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins.

Oculta nestas estatísticas está uma crise de orfandade sem precedentes na história moderna. Quase 10.4 milhões de crianças em todo o mundo perderam um pai ou cuidador devido à COVID-19, de acordo com as estimativas mais recentes do Imperial College de Londres. Nos EUA, mais de 214.000 crianças perderam um dos pais ou cuidadores. Porém, tal como acontece com o número real de mortos, estes valores provavelmente também são mais elevados.

O processo de luto altera a vida de qualquer pessoa, mas é particularmente devastador para as crianças. As décadas de investigação mostram que perder um cuidador aumenta a vulnerabilidade a situações de abuso, pobreza e problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e suicídio. Se as crianças não receberem o acompanhamento adequado – ou se as suas dificuldades forem particularmente graves – o stress pode até mudar a arquitetura dos seus cérebros e deixar as crianças mais vulneráveis a todas as principais causas de morte, diz Susan Hillis, copresidente do Grupo de Referência Global sobre Crianças Afetadas pela COVID-19, uma parceria entre a Universidade de Oxford e a Organização Mundial de Saúde.

A COVID-19 também tem fomentado condições mais propícias para o stress crónico, porque as crianças têm lidado com os confinamentos, com os encerramentos das escolas e a ameaça constante de perder mais entes queridos. Contudo, Susan Hillis e outros especialistas dizem que este problema não precisa de terminar em catástrofe: as lições aprendidas com as crises sanitárias do passado ensinaram-nos a ajudar as crianças a lidar com o impensável.

“Vamos ter de trabalhar todos em conjunto de uma forma que ainda não fizemos até agora”, diz Susan Hillis. O mais importante é agir rapidamente.

O trauma da orfandade

As pessoas costumam pensar num órfão como uma pessoa que perdeu ambos os pais. Mas as Nações Unidas definem um órfão como uma criança que, tal como Yuni, perdeu um dos pais – e, cada vez mais, este termo passou a incluir avós e outros cuidadores.

“Quando se perde um dos pais, de certa forma, perde-se os dois”, diz Carolyn Taverner, cofundadora e diretora do centro Emma’s Place, um centro de luto para crianças e famílias em Staten Island, Nova Iorque. Os pais sobreviventes também estão de luto, e muitos têm menos tempo para cuidar dos filhos enquanto tentam manter as contas em dia. As crianças também estão incrivelmente sintonizadas com as emoções dos pais – e muitas vezes tendem a proteger os pais escondendo os seus próprios sentimentos.

Este flagelo da orfandade ficou bem patente no início da pandemia de SIDA, que de acordo com um relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/SIDA deixou 903.000 crianças órfãs em todo o mundo em 1990, o primeiro ano em que as estimativas foram feitas. Nas décadas seguintes, os investigadores acumularam um corpo de evidências robusto sobre os riscos de perder um ou ambos os pais, ou cuidadores.

Tudo começa com a saúde mental. Carolyn Taverner diz que a perda de um dos pais é muitas vezes a primeira vez em que uma criança se apercebe que as coisas más podem acontecer a qualquer momento. As crianças mais novas, que ainda não aprenderam a lidar com as suas emoções, tendem a fazer mais birras e podem ter problemas na escola. As crianças mais velhas, cujos amigos podem não compreender a fundo a sua perda, começam a sentir-se isoladas no processo de luto.

(Como lidar com os efeitos da COVID-19 na saúde mental das crianças.)

As crianças também enfrentam outros perigos para a saúde. A perda de quem trabalha pode levar uma família à pobreza, levando à desnutrição ou forçando as crianças a abandonar a escola e a procurar emprego. As investigações feitas pela revista científica Vulnerable Children and Youth Studies, entre outras, mostram que as crianças que perderam um dos pais ficam mais vulneráveis aos abusos físicos, sexuais e emocionais.

“Ficamos com uma constelação de abusos ou adversidades a acumular-se individualmente sobre a criança”, diz Susan Hillis.

Este “acumular” pode resultar numa condição chamada stress tóxico. Normalmente, quando o corpo lida com uma situação stressante, o coração acelera e o corpo é inundado com hormonas do stress. Quando estas condições são prolongadas ou graves, o corpo pode passar por uma série de respostas biológicas nocivas – afetando também as sinapses neuronais no cérebro.

O stress tóxico pode vulnerabilizar uma criança a longo prazo, colocando-a em risco de desenvolver condições como diabetes e doença de Parkinson. Este processo também pode afetar a capacidade do sistema imunitário em combater doenças e aumentar o risco de morte devido a doenças cardíacas, HIV/SIDA e muito mais. As crianças órfãs também correm maior risco de suicídio.

Em janeiro, a UNICEF informou que mais de 616 milhões de estudantes em todo o mundo continuavam a ser afetados pelos encerramentos de escolas relacionados com a COVID, algo que os especialistas receiam poder empurrar as crianças mais vulneráveis do planeta para o trabalho infantil. Faltar à escola também é prejudicial para as crianças que estão a passar pelo processo de luto, porque encontram algum conforto nas rotinas diárias.

“Depois de surgir a pandemia, as coisas nunca mais foram as mesmas”, diz Carolyn Taverner. “Não existe um lugar para onde possamos fugir disto.”

Antes de visitar o túmulo do pai, Yuni colhe flores da árvore de buganvílias no quintal da casa da sua família. Seguindo a tradição, Yuni espalha as pétalas sobre o túmulo do pai e rega-as.

Fotografia por Muhammad Fadli

Uma catástrofe oculta

Na primavera de 2020, a pandemia ainda não tinha assolado a Zâmbia, mas Remmy Hamapande já estava preocupado porque estava a observar a COVID-19 a devastar o mundo. Enquanto diretor nacional da organização sem fins lucrativos Forgotten Voices, uma organização que trabalha em vários países do sul de África, Remmy Hamapande sabia que uma pandemia mortal seria devastadora para as crianças que já tinham perdido os pais devido à SIDA e viviam agora com os avós, que eram particularmente vulneráveis.

“Se a COVID chegar aqui e levar os avós, não temos mais ninguém para cuidar dos órfãos”, pensou Remmy na altura. “E depois estas crianças ficam duplamente órfãs.”

Remmy Hamapande entrou em contacto com Susan Hillis para soar o alarme. Durante a sua carreira de décadas enquanto investigadora nos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, Susan Hillis tem estudado a orfandade provocada pelas crises sanitárias. Em agosto de 2020, Susan já tinha convocado uma equipa de investigadores para avaliar a quantidade de crianças afetadas, começando pelos Estados Unidos e Brasil.

“Em apenas duas semanas, os dados preliminares que recebemos eram chocantes e dolorosos”, diz Susan Hillis. Nestes países, por cada duas mortes relacionadas com a COVID-19, as estimativas sugerem que pelo menos uma criança ficou órfã. Contudo, à medida que a variante Delta ia gerando surtos pelo mundo inteiro, este valor subiu para um órfão por cada morte por COVID-19 – e dois órfãos por cada morte em África no final de outubro de 2021.

Apesar das perdas impressionantes, a crise dos órfãos devido à COVID-19 tem recebido relativamente pouca atenção; é uma pandemia oculta dentro de uma pandemia. Rachel Kidman, epidemiologista social da Universidade Stony Brook, cujo trabalho se concentra nas adversidades na infância, diz que a COVID-19 é encarada como uma doença que afeta sobretudo as pessoas mais velhas, ou seja, o número de crianças que ficam órfãs é ignorado.

No entanto, cerca de 38% das crianças em todo o mundo são criadas em lares multigeracionais, de acordo com o Centro de Pesquisa Pew. Na Zâmbia e em grande parte do resto da África Subsaariana, mais de 30% das crianças vivem em lares de “geração passada” – o que significa que vivem com os avós, não com os pais.

Para além disso, Rachel Kidman sublinha que a COVID-19 não está apenas a matar os avós. A distribuição desigual das vacinas COVID-19 tem deixado as pessoas de todas as idades mais vulneráveis em algumas partes do mundo, e é desproporcionalmente fatal para as pessoas com acessos precários a cuidados de saúde.

(Para milhões de pessoas vulneráveis, a COVID-19 está longe de ter terminado.)

“Há agora um número substancial de pessoas com menos de 65 anos de idade que faleceram devido à COVID. Trata-se de pessoas que estão em idade de serem pais”, diz Rachel Kidman.

Na Zâmbia, Remmy Hamapande viu irmãos ficarem separados e aldeões em dificuldades para alimentar as suas próprias famílias que, apesar disso, acolheram os filhos de vizinhos. O aconselhamento é praticamente inexistente e Remmy tem visto sinais de trauma que vão desde urinar na cama a uma vaga de suicídios.

“Imagine uma criança que perde o seu cuidador e basicamente fica sem ter para onde ir”, diz Remmy, acrescentando que é desesperadamente necessário um acompanhamento à saúde mental.

Como proteger as crianças órfãs

As crises do passado têm ensinado aos cientistas o que pode funcionar e o que não funciona quando se trata de tentar mitigar os traumas.

O que é que nunca se deve fazer? Colocar as crianças em orfanatos – ou pelo menos em instalações onde as crianças são negligenciadas e vivem em espaços sobrelotados. Os estudos de referência feitos em orfanatos romenos – instituições que se tornaram infames na década de 1990 devido às suas condições deploráveis – descobriram que a institucionalização alterava significativamente a estrutura cerebral dos bebés. Cada ano passado num orfanato resultava em atrasos cognitivos e no desenvolvimento em comparação com as crianças criadas em famílias adotivas.

Felizmente, estes efeitos podem ser mitigados se uma criança for transferida para um lar carinhoso. Em 2012, um estudo revelava que as crianças que se mudaram de orfanatos para casas de famílias adotivas conseguiram recuperar e acompanhar o desenvolvimento das outras crianças.

As crianças precisam de uma família – de qualquer tipo – que lhes forneça uma estrutura para as suas vidas, diz Lucie Cluver, professora na Universidade de Oxford e da Universidade da Cidade do Cabo. Garantir que uma criança pode ir à escola, que tem o suficiente para comer e se sente amada é o que “determina o impacto da morte, não a morte em si”.

Ainda assim, os órfãos que são bem cuidados continuam a precisar de uma ajuda adicional. Lucie Cluver, que fez parte da equipa reunida por Susan Hillis para determinar as estimativas globais para os órfãos da COVID-19, diz que as três intervenções principais que fazem a diferença são o apoio económico, o apoio parental e a permanência na escola.

É fundamental garantir que as famílias têm dinheiro e comida suficientes. Se os pais não forem obrigados a ter vários empregos para sustentar a família, têm tempo para ouvir e acompanhar os filhos. Quando as crianças têm comida suficiente e podem permanecer na escola, ficam menos vulneráveis a outros fatores de risco. Os estudos confirmam que os apoios financeiros dados às famílias empobrecidas também têm tem diminuído significativamente o risco de mulheres jovens serem forçadas a recorrer a trabalhos sexuais.

Os abusos são outros dos riscos. O stress parental pode levar à violência nas famílias mais vulneráveis, e capacitar os cuidadores com aptidões práticas para lidar com estas situações é fundamental, sobretudo quando o processo de luto faz com que um cuidador ou uma criança se comportem de maneira diferente. Os estudos também demonstram que os programas parentais podem reduzir significativamente a violência física, sexual e emocional no seio familiar.

Por fim, é igualmente importante garantir que as crianças órfãs continuam a ir à escola. Frequentar a escola ajuda as crianças traumatizadas a recuperar a noção de normalidade – e também está comprovado que reduz a pobreza, atrasa o primeiro ato sexual de uma criança e integra-a na sociedade.

Há ajuda no horizonte?

No final de setembro de 2021, Calandra Cook tinha acabado de começar o último ano do curso na Universidade da Geórgia, quando de repente teve de se ausentar para planear o funeral da mãe. Sem qualquer familiar próximo para a ajudar, esta jovem de 21 anos ficou repentinamente responsável por tudo, processo pelo qual passou como se estivesse dormente.

Os médicos informaram Calandra Cook que os pulmões da mãe estavam a ficar mais fracos, a frequência cardíaca estava muito elevada e os níveis de oxigénio demasiado baixos. Ainda assim, a morte de Yolanda Meshae Powell foi um choque para Calandra e os seus três irmãos mais novos, que não puderam falar ou sequer abraçar a mãe antes de esta morrer. “Eu tive de me despedir da minha mãe através de uma janela de vidro”, diz Calandra.

Depois, faltava encarar o grande desafio que era terminar a universidade. O gabinete de ajuda financeira do estado da Geórgia informou Calandra que esta tinha esgotado os seus empréstimos estudantis e tinha de pagar as propinas do próprio bolso – e Calandra não podia ir viver para casa para economizar dinheiro.

 “Quando a minha mãe morreu, a minha rede de segurança morreu com ela”, diz Calandra.

No início deste ano, a iniciativa COVID Collaborative – um grupo composto pelos principais especialistas dos EUA em saúde pública, educação e economia – criou a Hidden Pain, uma plataforma online que faz a ligação entre famílias em luto e recursos de ajuda, incluindo assistência funerária, serviços de internet com descontos e grupos de acompanhamento e orientação. Na Califórnia, os legisladores estão a considerar a criação de um fundo financiado pelo estado para os órfãos da COVID. Contudo, ao nível nacional, tem sido dada pouca atenção a este flagelo.

Ainda não se fez nada à escala do que foi feito com o PEPFAR nos EUA, o Plano de Emergência para o Alívio da SIDA. Depois de os investigadores terem alertado pela primeira vez para a situação dos órfãos da SIDA, foram necessários 13 anos para promulgar o PEPFAR – contudo, por essa altura, os 903.000 órfãos da SIDA já chegavam aos 15 milhões.

“Espero e rezo para que não tenhamos de esperar 13 anos”, diz Susan Hillis. “Este tsunami vai engolir-nos à medida que surgem variantes após variantes.”

Calandra Cook está frustrada porque o mundo parece ter esquecido a pandemia e seguido em frente – incluindo as pessoas que a confortaram quando a mãe morreu. “Com o passar do tempo, as pessoas afastam-se”, diz Calandra. “O luto é algo com o qual acabamos por lidar sozinhos.”

Calandra ainda está a terminar o curso, mas vai caminhar ao lado das colegas na cerimónia de formatura em maio – no fim de semana do Dia da Mãe, como não podia deixar de ser. É um marco agridoce porque Yolanda, a mãe, estava tão entusiasmada com a formatura da filha que lhe costumava ligar três vezes por dia só para falar sobre isso.

Calandra sabe que vai ser difícil atravessar aquele palco no dia da formatura sem ter a mãe na plateia. “As pessoas dizem que ela vai estar lá em espírito, mas isso não faz com que eu me sinta melhor”, diz Calandra. Apesar disso, Calandra vai seguir alguns dos conselhos dados pela mãe. “Eu consigo ouvi-la a dizer para eu vestir as minhas calças de mulher crescida. A minha mãe ensinou-me tudo.”

Com colaboração adicional de Muhammad Fadli


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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