Dente de parente humano misterioso revela mais sobre a sua história

Descoberto a milhares de quilómetros a sul do local onde foram encontrados os únicos fósseis de Denisovanos de que há conhecimento, este molar fornece novas evidências sobre a enigmática disseminação dos humanos pela antiga Ásia.

Por Maya Wei-Haas, Michael Greshko
Publicado 19/05/2022, 14:17
Caverna Cobra

O dente recém-descoberto vem da chamada Caverna Cobra no Laos – uma cavidade apertada embutida numa colina exuberante, como podemos ver na imagem. Os cientistas tiveram de usar um sistema de cordas para conseguir aceder à caverna.

Fotografia por Fabrice Demeter

Depois de escalar um declive íngreme e rochoso nas montanhas Annamite do Laos, Laura Shackelford ficou inicialmente desapontada. Esta paleoantropóloga da Universidade de Illinois Urbana-Champaign estava numa cavidade apertada conhecida por Caverna Cobra – e procurava ossos que um rapaz Hmong local tinha mencionado. Ao ligar a lanterna, Laura varreu o feixe de luz de uma parede aparentemente estéril até à outra.

Depois, olhou para cima.

“Só via praticamente ossos”, diz Laura Shackelford, que também é Exploradora da National Geographic. Embutidos no teto da caverna estavam os fósseis de animais há muito desaparecidos, “espalhados quase como se fossem estrelas”.

Há vários anos que Laura Shackelford e a sua equipa trabalham nos labirínticos sistemas de cavernas do Laos à procura de restos humanos antigos, e Laura sabia que esta passagem estreita era especial. Pouco antes da sua primeira visita à caverna, um colega de Laura tinha encontrado um fóssil particularmente interessante nas constelações de restos mortais presentes nas rochas – incluindo parte de um molar com mais de 130.000 anos de idade.

O trabalho desta paleoantropóloga e da sua equipa foi publicado num novo estudo, financiado em parte pela National Geographic Society, e revela que o dente provavelmente pertencia a uma menina que fazia parte de um misterioso grupo de humanos da antiguidade conhecidos por Denisovanos. Se for confirmado, este é o fóssil encontrado mais a sul deste grupo enigmático.

A forma geral e as estruturas internas do molar fazem lembrar os dentes dos Denisovanos previamente identificados num maxilar encontrado na extremidade do planalto tibetano. Os fósseis deste grupo enigmático são raros, dificultando assim a identificação de quaisquer ossos ou dentes recém-descobertos como pertencendo aos Denisovanos.

Fotografia por Fabrice Demeter e Clément Zanolli

Os Denisovanos separaram-se do seu grupo irmão, os neandertais, há cerca de 400.000 anos, quando os neandertais se espalharam pela Europa e os Denisovanos se mudaram para o Leste Asiático. Apesar de os cientistas já terem descoberto muitos restos humanos de neandertais, os fósseis de Denisovanos têm sido muito elusivos. Todos os ossos e dentes de Denisovanos confirmados até agora podiam caber facilmente num saco de plástico pequeno, e todos estes fósseis vêm de apenas dois locais, um na Sibéria e outro no Tibete.

Contudo, os cientistas já suspeitavam há muito tempo que os Denisovanos vaguearam muito mais para sul. E sempre que os Denisovanos se cruzaram com os primeiros humanos, parecem ter reproduzido, deixando as suas impressões genéticas na maioria dos povos modernos de ascendência asiática.

A descoberta feita recentemente no Laos, publicada na Nature Communications, revela o alcance impressionante dos Denisovanos, que ia desde as montanhas geladas e planaltos elevados até às planícies húmidas do Sudeste Asiático. “Isto leva-me a pensar nas semelhanças que tinham connosco”, diz Laura Shackelford. “Somos incrivelmente flexíveis – e essa é uma espécie de imagem de marca dos humanos da atualidade.”

O potencial dente de Denisovano é um dos muitos achados recentes que sugerem que há muito mais para descobrir na região. “Devo dizer que estamos muito orgulhosos”, diz Souliphane Boualaphane, coautor do estudo e arqueólogo do Ministério da Informação, Cultura e Turismo do Laos.

Desenterrar tesouros da antiguidade

Este dente é o fóssil encontrado mais recentemente nas montanhas Annamite, que se estendem ao longo de mais de 1100 quilómetros junto à fronteira entre o Laos e o Vietname. Ao longo de milénios, os rios esculpiram lentamente o calcário local – remanescente de um antigo leito marinho – num sistema de cavernas que agora serpenteia pela cordilheira montanhosa.

Embora estes locais escarpados se tenham revelado um terreno fértil para descobertas, não são um lugar fácil para trabalhar. O clima quente e húmido da região faz com que os ossos se desfaçam rapidamente, e o terreno acidentado significa que os restos que sobrevivem são difíceis de encontrar. Apesar de todos estes desafios, as descobertas feitas no Laos têm documentado dezenas de milhares de anos de atividade humana na região, incluindo alguns dos restos humanos modernos mais antigos no Sudeste Asiático.

Grande parte do interesse da investigação moderna no Laos remonta a Thongsa Sayavongkhamdy, um influente arqueólogo laosiano que cuidou meticulosamente dos locais estudados e abandonados na década de 1930, incluindo a área que contém a Caverna Cobra. Thongsa Sayavongkhamdy, também coautor do novo estudo, morreu em abril; o estudo é dedicado à sua memória. “Foi realmente graças a ele que a nossa equipa conseguiu trabalhar no Laos”, diz Fabrice Demeter, coautor do estudo e paleoantropólogo do Centro de GeoGenética da Fundação Lundbeck em Copenhaga, na Dinamarca.

Fabrice Demeter e Laura Shackelford passaram mais de uma década a trabalhar no Laos, e encontraram-se recentemente com espeleólogos para navegar pelas rochas íngremes. Em 2018, os investigadores descobriram a Caverna Cobra, cuja entrada fica no topo de uma rocha a mais de 335 metros acima da planície circundante. A caverna é tão apertada que uma pessoa de estatura média consegue tocar nas paredes e no teto ao mesmo tempo.

Recuperar os fósseis da caverna também é complicado, pois estão embutidos em rocha brecha, um tipo de rocha semelhante a um bolo por camadas que se forma a partir de fragmentos pedregosos. “Para cinzelar é como tentar escavar betão”, diz Laura Shackelford.

Ainda assim, a Caverna Cobra tem produzido descobertas incríveis desde o início. No dia 3 de dezembro de 2018, o geólogo e espeleólogo Eric Suzzoni dirigiu-se até este vale numa viagem de reconhecimento antes da primeira visita de Laura Shackelford ao interior da caverna, e recolheu pedaços de rocha e osso para mostrar à equipa. Eric Suzzoni saiu da caverna pouco antes do almoço para mostrar os inúmeros fósseis que tinha encontrado. “Chegou a um certo ponto em que o Eric disse que tinha algo para mostrar”, diz Patrice Demeter. Do bolso da frente da camisa, Eric Suzzoni tirou o invulgar molar.

“Quase de imediato, percebemos que pertencia a algum tipo de hominídeo”, diz Laura Shackelford. “Mas não era de um humano moderno.”

Caixa negra de vida

Durante quase uma década, os únicos restos mortais conhecidos dos Denisovanos eram alguns dentes, um osso mindinho e um fragmento craniano descoberto na caverna de Denisova, no sul da Sibéria. Depois, em 2019, uma descoberta surpreendente revelou um maxilar Denisovano – conhecido por maxilar de Xiahe – na caverna Baishiya, na extremidade do planalto tibetano.

O molar recém-descoberto no Laos pode ser apenas um dente, mas continua a poder adicionar muito à compreensão dos cientistas sobre os Denisovanos. “Os dentes são como uma pequena caixa negra sobre a vida de um indivíduo”, diz Clément Zanolli, coautor do estudo e paleoantropólogo da Universidade de Bordéus, em França. Tanto na sua forma, como na estrutura interna, química e padrões de desgaste, os dentes podem preservar indícios sobre a idade de um animal, dieta e até mesmo o clima do seu habitat.

As formas dos dentes também podem ajudar os cientistas a discernir entre espécies de humanos e parentes extintos. A superfície de mastigação do molar encontrado na Caverna Cobra é muito mais enrugada do que a dos molares humanos modernos, e tem uma crista que é comum no interior dos dentes dos neandertais. Mas a forma geral do dente e a sua estrutura interna assemelham-se mais à dos dentes de Denisovanos presentes no maxilar de Xiahe.

A ausência de raízes ou de desgaste na superfície do molar sugerem que este pertencia a uma criança que morreu antes de os dentes adultos estarem completamente formados, provavelmente entre os 3.5 e os 8.5 anos de idade. O molar provavelmente acabou na caverna juntamente com os restos de outros grandes animais, incluindo rinocerontes, porcos, macacos e bovídeos da antiguidade. Com base na média de idades dos restos mortais dos animais, o dente provavelmente tem entre 131.000 e 164.000 anos.

Depois de feita uma leitura de raios-x ao fóssil para estudar a sua forma, os investigadores recolheram amostras do esmalte do dente para procurar proteínas preservadas. Ao contrário dos delicados filamentos de ADN, as proteínas têm mais probabilidades de sobreviver ao clima quente e húmido do Laos. Os blocos de construção de aminoácidos destas proteínas podem depois sugerir evidências sobre o código genético subjacente, ajudando os cientistas a desvendar a identidade de um espécime.

Estas análises revelaram que o dente pertencia a um indivíduo do género Homo, e não a um orangotango ou a outro grande símio. As proteínas também mostram que o dente pertencia a uma menina. Porém, os investigadores não encontraram as proteínas necessárias para colocar o dente num ramo específico da árvore genealógica dos hominídeos.

Apesar de as análises não conseguirem confirmar a identidade Denisovana, “não há nada que nos impeça de procurar outras proteínas presentes no esmalte”, diz Frido Welker, coautor do estudo e paleogeneticista do Instituto Globo da Universidade de Copenhaga. Conforme os métodos de extração e análise de ADN e proteínas associadas vão evoluindo, Frido Welker e os seus colegas esperam que o dente forneça ainda mais detalhes.

Ao minimizar a quantidade de amostra retirada do dente, a equipa do estudo também deixa a porta aberta para investigações futuras que ainda nem sequer conseguimos imaginar. “As pessoas que forem trabalhar neste campo daqui a 30, 40, ou 50 anos, vão ter tecnologias completamente novas e vão apreciar este gesto”, diz a Exploradora da National Geographic Kendra Sirak, investigadora-adjunta da Escola de Medicina de Harvard e especialista em ADN antigo, que não participou no novo estudo.

A montanha seguinte

Por enquanto, os laços mais fortes do dente encontrado na Caverna Cobra com os Denisovanos vêm da sua localização e semelhança com o molar no maxilar de Xiahe. Embora o molar encontrado no Laos seja um pouco semelhante ao dos neandertais, os neandertais nunca foram encontrados no leste do Laos, e os dados genéticos mostram que os Denisovanos provavelmente viveram no Sudeste Asiático.

“Encaixa naquilo que esperamos para um molar inferior de Denisovano”, diz Bence Viola, paleoantropólogo da Universidade de Toronto, no Canadá, que não esteve envolvido no estudo.

Juntar as peças da anatomia destes misteriosos hominídeos tem sido um desafio constante porque, pelo menos por enquanto, os fósseis de Denisova são muito escassos. O facto de o dente recém-descoberto ser um molar inferior torna a sua identificação ainda mais difícil, dado que só o maxilar de Xiahe é que contém molares inferiores identificados como pertencendo aos Denisovanos. Sem o suporte de ADN ou de proteínas adicionais, “é muito difícil dizer algo conclusivo”, diz Aida Gomez-Robles, paleoantropóloga da Universidade College de Londres, que não faz parte da equipa do estudo.

No entanto, muitos mais Denisovanos podem estar escondidos debaixo do nariz dos cientistas – ou nos tetos das cavernas por cima das suas cabeças. Uma variedade impressionante de fósseis de hominídeos tem sido encontrada por toda a Ásia, muitos dos quais têm sido atribuídos a um grupo vago conhecido por “Homo arcaico”. Nos últimos anos, os estudos têm sugerido que alguns destes hominídeos podem ter sido Denisovanos, ou pelo menos parentes próximos.

“O mais provável é termos estado a olhar para os Denisovanos nos museus e… nas instituições de fósseis há muito tempo, mas não sabíamos que nome lhes dar”, diz Laura Shackelford.

Os investigadores também têm mais estudos agendados. De acordo com Clément Zanolli, a equipa está a analisar a química do oxigénio e do carbono no esmalte do dente. Estes estudos podem indicar o clima onde a menina Denisovana viveu, bem como o que o comia enquanto o molar se formava.

Para Laura Shackelford, uma das implicações mais interessantes do estudo é o enorme número de descobertas que permanecem à espreita nas cordilheiras repletas de cavernas no Laos. “Já trabalhamos na região há mais de 10 anos, e ainda não conseguimos sair da primeira montanha.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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