A bactéria responsável pela retirada do mercado de uma fórmula infantil pode ser benigna – ou mortal

A Cronobacter sakazakii, uma bactéria pouco conhecida, desenvolveu características que dificultam a sua destruição, representando uma ameaça para a nossa segurança alimentar.

Por CONNIE CHANG
Publicado 22/06/2022, 10:31
bactéria Cronobacter sakazakii

Esta micrografia colorida de microscópio eletrónico mostra a bactéria Cronobacter sakazakii – uma bactéria encontrada em muitos ambientes, desde o solo aos intestinos humanos – que tem sido associada à meningite infantil e enterocolite necrosante, provavelmente devido a contaminação através de uma fórmula infantil à base de leite. Esta bactéria também pode provocar infeções na corrente sanguínea e no sistema nervoso central, com convulsões associadas, abscessos cerebrais e hidrocefalia.

Fotografia por Dennis Kunkel Microscopy, Science Source

A Cronobacter sakazakii, a bactéria responsável pela retirada do mercado de uma fórmula infantil, é menos conhecida do que os outros patógenos de origem alimentar, como a E. coli ou a Salmonella, mas pode afetar populações vulneráveis, como os recém-nascidos ou pessoas com um sistema imunitário comprometido.

No início deste ano, quando dois bebés morreram nos EUA depois de beberem uma fórmula infantil produzida pela empresa Abbot Nutrition que estava contaminada com esta bactéria, a tragédia provocou uma recolha abrangente do produto no mercado, acabando eventualmente por resultar no encerramento da fábrica desta empresa no Michigan. Nos EUA, tanto pais como cuidadores – que já estão pressionados pelos problemas na cadeia de abastecimento relacionados com a pandemia – têm enfrentado dificuldades para alimentar os seus bebés. As mortes e a escassez que se seguiu tem colocado a descoberto as fragilidades do sistema de segurança alimentar nos Estados Unidos, sobretudo quando este sistema é confrontado com uma bactéria como a Cronobacter sakazakii.

Felizmente, os casos de infeção provocados por este “pequeno verme desagradável” – que mata entre 50 a 80 por cento dos recém-nascidos infetados – são relativamente raros, com poucos casos identificados anualmente nos EUA, segundo Amy Edwards, pediatra e diretora médica do departamento de controlo de infeções do Hospital Rainbow Babies & Children's UH em Ohio. Amy Edwards trabalha há 12 anos em unidades de cuidados intensivos neonatais e encontrou esta bactéria cerca de uma dezena vezes. “Mas se me ligar e disser que o seu filho de dois meses está a desenvolver uma cultura de Cronobacter sakazakii, fico um bocado assustada. Assusta-me mais do que a E. coli”, diz Amy.

Batizada em homenagem a Cronos – o deus titã da mitologia grega que consumiu os próprios filhos – e ao microbiologista japonês Riichi Sakazaki, que caracterizou a espécie, a Cronobacter sakazakii é uma bactéria astuta que desenvolveu alguns truques que a ajudam a prosperar em condições sob as quais a maioria das suas congéneres não consegue sobreviver.

Isto obriga-nos a ficar atentos a esta bactéria, diz Benjamin Chapman, microbiologista e especialista em segurança alimentar da Universidade da Carolina do Norte.

O que é a Cronobacter sakazakii?

Apesar de ter um perfil mais discreto e taxas de infeção relativamente baixas, a C. sakazakii é uma bactéria comum. “Está no solo e no ambiente”, diz Benjamin Chapman. E também já foi detetada em lares de habitação, inclusive nas bancadas de cozinha, nos filtros de ar e noutras superfícies. E apesar de agora estar tragicamente associada a uma fórmula infantil em pó, esta bactéria tem aparecido em tudo – tanto agora como no passado – em produtos frescos, chás de ervas e em águas residuais.

“A bactéria C. sakazakii também faz parte da flora humana normal, que reside no intestino em pequenas quantidades e é controlada por outras bactérias”, diz Amy Edwards. O microbioma intestinal envolve uma comunidade de micróbios (na sua maioria) benéficos que asseguram que o corpo funciona da maneira ideal. Para as crianças ou adultos saudáveis, as pequenas quantidades de bactérias patogénicas “não provocam realmente problemas”.

Erika Claud – neonatologista da Universidade de Chicago, que estuda os efeitos de uma doença intestinal que é frequentemente provocada pela C. sakazakii – concorda com as palavras de Amy. “Pense no seu microbioma como se fosse um ecossistema, uma floresta ou um lago: todos os elementos mantêm tudo o resto sob controlo.” Quando este sistema está em equilíbrio, as bactérias boas podem impedir que as más adiram às células humanas. E também competem pelos nutrientes disponíveis, impedindo o florescimento de micróbios nocivos.

Quando é que a Cronobacter sakazakii é perigosa?

Os recém-nascidos, porém, com sistemas imunitários ainda em desenvolvimento e microbiomas intestinais imaturos, podem ficar rapidamente sobrecarregados por patógenos como a C. sakazakii, que geralmente são introduzidos no seu corpo através de fórmulas em pó ou pelo canal de parto durante o nascimento.

Uma das rotas típicas de ataque desta bactéria, diz John Swartzberg, professor emérito de doenças infeciosas da Universidade da Califórnia em Berkeley, é o trato gastrointestinal. Normalmente, os patógenos ficam presos na camada de muco que separa o que está no interior dos intestinos do resto do corpo. “Contudo, nos recém-nascidos ou nos adultos imunocomprometidos, a Cronobacter sakazakii pode penetrar na parede da mucosa, entrar na corrente sanguínea e viajar para o resto do corpo.”

Amy Edwards acrescenta que esta bactéria pode depois provocar sépsis, uma resposta inflamatória generalizada do organismo, fazendo com que vários órgãos, como o coração e os rins, começam a falhar.

Outro dos alvos preferidos da C. sakazakii é o cérebro. “Esta bactéria tem uma predileção pelo revestimento do cérebro, ou as meninges, provocando meningite bacteriana”, explica John Swartzberg. Caso a criança consiga sobreviver à infeção, as consequências são geralmente terríveis – incluindo convulsões, comprometimento cognitivo e atrasos no desenvolvimento.

Ciência da Cronobacter sakazakii

Estas bactérias, que fazem parte da família Enterobacteriaceae, são organismos em forma de bastão com apêndices semelhantes a chicotes que as ajudam a mover em direção aos nutrientes e a outros alvos.

Para além de esta bactéria ser móvel, a C. sakazakii também é particularmente resistente; foram descobertas bactérias viáveis em fórmulas em pó armazenadas durante dois anos. “O facto de sobreviver em ambientes áridos durante muito tempo é importante”, diz Benjamin Chapman. Esta característica faz com que as estratégias tradicionais usadas na segurança alimentar, como a desidratação de alimentos para inibir o crescimento bacteriano, sejam inúteis na luta contra a C. sakazakii.

O segredo da bactéria está no seu genoma, de acordo com Roy Sleater, biólogo molecular da Universidade Tecnológica de Munster, na Irlanda. Roy Sleater e a sua equipa descobriram que a C. sakazakii contém sete cópias de um gene osmotolerante – que codifica uma proteína que ajuda a proteger as bactérias em ambientes de baixa humidade – enquanto outras bactérias têm apenas uma cópia. Isto permite à C. sakazakii produzir muito mais quantidade desta proteína protetora em comparação com as outras bactérias menos resistentes à desidratação. “E esta proteção estende-se a outras formas de stress, como altas temperaturas e altas pressões”, diz Roy Sleater, referindo-se a investigações anteriores que descobriram que as bactérias que conseguem sobreviver em condições de baixa humidade também se tornam mais resistentes ao calor.

A C. sakazakii também consegue formar um biofilme, uma comunidade de bactérias que convivem numa matriz açucarada produzida pelos seus membros, diz Erika Claud. Este biofilme pode aderir a superfícies como bancadas ou equipamentos hospitalares, incluindo matéria orgânica, como as células intestinais de um bebé. “É um caso onde a união faz a força, porque um biofilme é muito mais do que a soma das suas partes – as bactérias no seu interior comunicam umas com as outras e adaptam-se às alterações no ambiente.” Esta flexibilidade torna as camadas de biofilme particularmente difíceis de destruir.

Benjamin Chapman espera que os eventos ocorridos nos últimos meses nos EUA coloquem a C. sakazakii no centro das atenções. “Até agora, ainda não chegou à lista de coisas que estamos a rastrear – como a E. coli ou a Salmonella. Mas o impacto sobre os bebés que dependem de fórmulas em pó como a única fonte de nutrição pode ser enorme. Gostava de ver a Cronobacter sakazakii elevada a algo que monitorizamos, e que seja considerada uma doença de notificação obrigatória.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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