Este homem é mordido por cobras venenosas em nome da ciência

Uma parceria entre um imunologista e um ex-mecânico de camiões proprietário de cobras está a tentar encontrar o Santo Graal da medicina: um antídoto universal. Mas é um empreendimento arriscado.

Por Dominic Bliss
Publicado 29/06/2022, 14:47
Tim Friede

    

Fotografia por CENTIVAX

Tim Friede já foi mordido por cobras venenosas mais de 200 vezes. Em quase todas as ocasiões, Tim encorajou ativamente estes atos. Cobras letais, incluindo mambas, víboras, taipans, cascavéis e serpentes – Tim ofereceu-se voluntariamente às presas de todas, expondo-se às dentadas potencialmente mortais de algumas das criaturas mais temidas do planeta.

Atualmente, Tim Friede, ex-mecânico de camiões de 53 anos, vive no Wisconsin e é diretor do departamento de herpetologia da empresa californiana de investigação em vacinação Centivax, companhia que está a tentar produzir um antídoto universal para as cobras mais venenosas do mundo. Contudo, quando começou o seu passatempo masoquista, Tim era apenas um colecionador amador de cobras. Quando era adolescente e frequentava o ensino secundário, Tim vasculhava os campos do Wisconsin à procura de cobras, que são apenas ligeiramente tóxicas. Isto fez com que Tim Friede começasse a manter mais cobras venenosas como animais de estimação em viveiros em casa. Incluindo cobras, mambas, taipans e cascavéis – para desgosto dos seus pais – a sua coleção foi crescendo cada vez mais.

Constantemente em risco de ser envenenado, Tim Friede percebeu que precisava de desenvolver imunidade de alguma forma. Em teoria, ao estimular o seu corpo para produzir anticorpos em resposta às toxinas, Tim podia ficar mais adaptado para lidar com uma dentada. Tim começou a extrair veneno das suas cobras de estimação antes de se injetar repetidamente com o mesmo, mas teve o cuidado de diluir o veneno, assim como os fabricantes comerciais o fazem quando extraem anticorpos de cavalos ou ovelhas para produzir antídotos. “Foi difícil porque não há livros sobre isto”, diz Tim Friede à National Geographic (Reino Unido). “Assim, fui descobrindo por mim enquanto fazia muitas anotações e tirava muitas fotografias.”

“Eu basicamente morri.”

Em 2001, Tim Friede sofreu a primeira dentada potencialmente letal – embora não intencionalmente. Em casa no Wisconsin, enquanto extraía veneno da sua cobra egípcia de estimação, o réptil contorceu-se e mordeu-lhe o dedo. Como já estava protegido com alguma imunidade, Tim Friede foi pouco afetado. Mas depois, passado menos de uma hora, Tim estava a lidar com uma cobra de monóculo que o atacou e afundou as suas presas no bíceps direito.

“Duas dentadas de cobras, uma a seguir à outra, em menos de uma hora”, diz Tim Friede. “Eu basicamente morri. Não foi divertido. Eu tinha imunidade suficiente para uma dentada, mas não para duas.”

Quando Tim era apenas um proprietário de cobras a explorar as respostas do seu corpo ao veneno, os seus vídeos controversos no YouTube provaram ser um motivo de interesse sombrio. Insistindo que as suas ações tinham como objetivo ajudar outros humanos, as suas experiências – e a sua sobrevivência contínua – chamaram a atenção do imunologista Jacob Glanville, que ajudou a concretizar as ambições de Tm Friede em se tornar num reservatório humano para a pesquisa de antídotos.

Fotografia por TIM FRIEDE

Levado rapidamente para o hospital pela sua esposa e por um vizinho, Tim Friede passou quatro dias em coma. Depois de recuperar, Tim percebeu que o ‘autoenvenenamento’ era um empreendimento do qual devia desistir ou aperfeiçoar. “Eu escolhi continuar.”

E de facto continuou. Ao longo dos 17 anos seguintes, Tim misturou regularmente os seus fluidos corporais com os de toda uma gama de serpentes exóticas. Para além das 200 dentadas de presas, outras 500 doses foram administradas através de uma agulha hipodérmica. Entre os venenos mais tóxicos estavam os das taipans costeiras, cobras de água, cobras egípcias, cascavéis diamante e do Mojave, todas as quatro espécies de mambas e várias krait. “Eu queria enfrentar as piores cobras do planeta e vencê-las.”

““Duas dentadas de cobras, uma a seguir à outra, em menos de uma hora... eu basicamente morri. Não foi divertido.””

por TIM FRIEDE

Dor com um propósito

Geralmente, quando uma cobra morde, o veneno líquido é espremido ao longo de sulcos nas presas, ou através de presas ocas, na carne da vítima. É um processo doloroso. “Quase todas as dentadas são dolorosas”, diz Tim Friede, que geralmente é mordido nos antebraços. “É como a picada de uma abelha multiplicada por cem.”

Contudo, Tim Friede faz questão de referir que nunca foi motivado por algum tipo de machismo. Fez sempre tudo parte de uma experiência científica para descobrir se Tim conseguiria, através dos processos do seu próprio sistema imunitário, derrotar alguns dos animais mais tóxicos da natureza e ajudar outros humanos ao longo do processo.

“Nunca fiz isto para ser um valentão ou para os vídeos no YouTube.” Porém, os vídeos nas redes sociais, onde Tim Friede permite que cobras o mordam, acumulam centenas de milhares de visualizações.

Uma víbora Echis no seu habitat de dunas de areia em Jaisalmer, no Rajastão, Índia.

Fotografia por AWE_SOM_ / ALAMY

Uma mamba-negra nos ramos de uma árvore na África do Sul. O nome “negra” deve-se à cor escura que estas cobras têm no interior da boca, e que exibem quando se sentem ameaçadas.

Fotografia por STU PORTER ALAMY

Esta cobra-egípcia em cativeiro foi fotografada no Texas por Joel Sartore, como parte do seu projeto National Geographic Photo Ark. Esta cobra enorme tem uma neurotoxina e citotoxina, e é indicada pelas fontes clássicas como a criatura usada no suicídio de Cleópatra.

Fotografia por JOËL SARTORE , NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Toda esta exposição chamou a atenção do imuno-engenheiro Jacob Glanville, o cérebro responsável pela Centivax. Jacob Glanville, também americano, cresceu na década de 1990 numa aldeia remota na Guatemala durante a guerra civil daquele país, onde testemunhou os habitantes locais, privados de medicamentos, a sofrer desnecessariamente de doenças e enfermidades. Mais tarde, Jacob Glanville estudou imunogenética e biologia computacional na Universidade da Califórnia em Berkeley, e imunologia computacional na Universidade de Stanford.

Agora, através do seu trabalho com a Centivax, Jacob Glanville espera eventualmente livrar o mundo dos efeitos dos patógenos. No topo da sua lista está o veneno de cobra. Juntamente com Tim Freide – e os preciosos anticorpos no seu sangue – Jacob Glanville está a trabalhar para produzir um antídoto universal.

Identificar com exatidão quais são as espécies de cobras mais venenosas do mundo é uma tarefa complicada. De acordo com a Unidade Australiana de Pesquisa em Veneno, em termos de veneno real, o mais tóxico de todos é o da taipan interior (Oxyuranus microlepidotus), ou cobra feroz, que habita na região centro-leste da Austrália. O veneno desta cobra contém uma poção de toxinas que afeta o sangue, os músculos e o sistema nervoso.

A Journal of Herpetology alerta que uma só dentada contém toxinas suficientes para matar pelo menos 100 humanos adultos. Felizmente, este animal é um pouco recluso e vive em regiões áridas onde os humanos raramente o encontram.

Há várias espécies de serpentes marinhas do Indo-Pacífico que são quase tão tóxicas como as referidas taipan, como por exemplo a serpente marinha de Dubois, a cobra-do-mar-pelágio e a serpente marinha de Perón. Mais uma vez, como estas cobras raramente se misturam com os humanos, raramente provocam mortes. Ainda assim, há outras espécies menos venenosas que, por várias razões, matam com mais frequência.

Aldeões na Guiné esperam no exterior de uma clínica rural que trata dentadas de cobra. O objetivo da investigação da empresa Centivax é produzir um antídoto de amplo espectro que possa ser armazenado facilmente – e, desta forma, distribuído nas áreas rurais que têm infraestruturas precárias e que recebem a maioria das vítimas de dentadas de cobras.

Fotografia por THOMAS NICOLON, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Uma jovem vítima de dentada de cobra é tratada numa clínica rural na Guiné. Nas áreas agrícolas, onde as infraestruturas são precárias, levar uma vítima até um centro médico especializado como este pode ser difícil – assim como armazenar soros antiofídicos, a maioria dos quais requer refrigeração. Grande parte das vítimas de dentadas de cobra são trabalhadores agrícolas pobres que trabalham em zonas remotas.

Fotografia por THOMAS NICOLON, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Muitas das dentadas são na parte inferior da perna, desferidas quando uma pessoa descalça ou com os pés pouco protegidos pisa uma cobra camuflada na vegetação alta ou nas pastagens agrícolas.

Fotografia por THOMAS NICOLON, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que anualmente são mordidas por cobras cerca de 5.4 milhões de pessoas, e até 2.7 milhões são envenenadas. Entre 81.000 e 138.000 pessoas morrem devido às dentadas, ao passo que cerca de 400.000 têm membros amputados ou sofrem de outras deficiências permanentes. As regiões tropicais e subtropicais de África, Ásia e América Latina são as mais afetadas. As pessoas em maior risco são os trabalhadores agrícolas e, devido à sua massa corporal menor, as crianças mais pequenas. A falta de calçado adequado torna os pobres trabalhadores rurais particularmente vulneráveis.

É possível que muitas outras vítimas nem sequer sejam identificadas. A Organização de Saúde Africana explica que isto acontece “porque as vítimas procuram tratamentos em fontes que são não médicas, ou não têm acesso a cuidados de saúde”.

Serpentes venenosas em números

Existem cerca de 600 espécies de cobras venenosas a ziguezaguear pelo planeta. Contudo, só cerca de uma dúzia de grupos de espécies são responsáveis pela maioria das mortes e deficiências humanas. Tal como alerta a OMS, algumas destas espécies encontram-se perto de agricultores que não usam calçado adequado. Outras são mais agressivas ou envenenam as suas vítimas de forma mais eficiente, ou em quantidades suficientes para matar humanos.

Estatisticamente, levando em consideração todos estes fatores, entre as mais mortais de todas estão a mamba-negra, a taipan costeira, a cobra indiana, a krait comum, a víbora de Russel e uma víbora cujo nome científico é Echis carinatus. Esta última vive por todo o Médio Oriente e na Ásia Central, sobretudo no subcontinente indiano, e é considerada por muitos herpetologistas a maior assassina de humanos. Relativamente pequena – geralmente não ultrapassa os 60 cm – esta criatura é discreta, mas extremamente agressiva. Esta víbora repousa numa forma enrolada, com a cabeça ao centro, permitindo-lhe saltar como se fosse disparada por uma mola quando ataca.

Um estudo universitário feito em 2020 descobriu que na Índia morrem anualmente 58.000 pessoas devido a dentadas de cobras e, na maioria dos casos, a Echis carinatus é a culpada.

(Descubra porque é que os animais venenosos não se envenenam a si próprios.)

Um dos herpetologistas britânicos que sabe praticamente tudo sobre esta criatura mortífera é o professor Nicholas Casewell, diretor do Centro de Pesquisa e Intervenção em Dentada de Cobra da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido. Fundado originalmente no início da década de 1980, este centro abriga agora 200 cobras venenosas de cerca de 50 espécies diferentes, e é o maior herpetário do Reino Unido.

O professor Nicholas Casewell é fotografado com alguns dos instrumentos usados pela equipa no centro de investigação da Escola de Medicina Tropical de Liverpool. O herpetário deste centro contém inúmeras cobras venenosas, com destaque para as espécies africanas e indianas. Estas cobras incluem víboras hemotóxicas, como víboras Echis e serpentes biúta, e cobras e elapídeos neurotóxicos, como mambas verdes e negras.

Fotografia por BENJAMIN GILBERT / WELLCOME TRUST / ESCOLA DE MEDICINA TROPICAL DE LIVERPOOL

O herpetologista Paul Rowley coloca uma cobra egípcia (Naja annulifera) novamente no seu tanque no herpetário da Escola de Medicina Tropical de Liverpool. O trabalho de Paul Rowley inclui o manuseio e extração de veneno da coleção mais diversificada de cobras venenosas do Reino Unido. Esta instalação de investigação é credenciada e inspecionada pelo Ministério do Interior do Reino Unido.

Fotografia por BENJAMIN GILBERT / WELLCOME TRUST / ESCOLA DE MEDICINA TROPICAL DE LIVERPOOL

O professor Nicholas Casewell (à direita) e Paul Rowley extraem o veneno de uma víbora do Gabão (Bitis gabonica) na Escola de Medicina Tropical de Liverpool. Estas cobras são rotineiramente ‘ordenhadas’ pelo seu veneno, que é imediatamente congelado para ser usado em investigação de antídotos.

Fotografia por BENJAMIN GILBERT / WELLCOME TRUST / ESCOLA DE MEDICINA TROPICAL DE LIVERPOOL

“As serpentes Echis são pequenas e parecem bastante inofensivas”, diz Nicholas Casewell à National Geographic. “Enquanto grupo de cobras, matam mais pessoas no mundo inteiro do que qualquer outro. Não é tanto sobre a toxicidade do seu veneno, mas sim um problema socioeconómico, porque estas cobras vivem em regiões onde as pessoas trabalham na agricultura, geralmente sem calçado ou luvas de proteção, e mordem um grande número de pessoas.

Devido aos atrasos e problemas no acesso a cuidados de saúde e tratamentos eficazes nestas partes do mundo, um grande número de pessoas morre devido às dentadas. Muitas vezes, a vítima pode demorar várias horas ou até dias para chegar a um centro de saúde adequado. Por vezes, as vítimas também procuram primeiro a medicação tradicional. Os pacientes também podem ser transferidos para outra unidade de saúde porque não há funcionários ou medicamentos disponíveis para os tratar. E muitas vezes estas vítimas acabam por morrer nas viagens entre hospitais.

Por outro lado, no Reino Unido, a única cobra venenosa é a víbora europeia comum, para a qual há antídotos amplamente disponíveis. As potenciais complicações tornam a dentada desta cobra em algo a evitar a todo custo, ainda assim, o último britânico a morrer devido a uma dentada desta víbora foi um menino de cinco anos, em 1975.

(Qual a diferença entre animais tóxicos e venenosos?)

O primeiro antiveneno de cobra do mundo para humanos foi produzido pelo médico francês Albert Calmette em 1895, e a ciência médica avançou relativamente pouco desde então. Os antídotos continuam a ser produzidos através da imunização de animais doadores, como cavalos, ovelhas ou camelos, com o veneno de cobra a ser recolhido e purificado dos anticorpos no seu plasma para criar um soro.

Uma víbora europeia perto de pinheiros na região de Norfolk, Inglaterra. Estas víboras – que são venenosas e podem provocar uma reação grave em alguns casos – podem ser vistas a apanhar banhos de sol, particularmente no início da primavera, após o período de hibernação. No Reino Unido, não há registo de uma morte humana devido a uma dentada desta víbora desde 1975.

Fotografia por KYLE MOORE , ALAMY

Este método tradicional não está isento de falhas. Christiane Berger-Schaffitzel é professora de bioquímica na Universidade de Bristol e trabalha na terapia de dentadas de cobras. Christiane diz que os anticorpos de outros mamíferos apresentam o risco de doenças zoonóticas – e dado que os anticorpos para o veneno de cobra no seu sangue estão tão diluídos, os humanos geralmente exigem enormes quantidades de soro, correndo o risco de sofrer danos colaterais com potencial risco de vida. “Desenvolvemos uma reação imunitária contra estes anticorpos”, acrescenta Christiane Berger-Schaffitzel. “O soro é reconhecido pelo corpo como um anticorpo de cavalo. Não deve ser injetado em humanos.”

(Os caranguejos-ferradura são as vítimas silenciosas das vacinas COVID-19.)

Química em comum

De regresso à Centivax, com o seu Santo Graal sob a forma de antídoto universal, Jacob Glanville e Tim Friede querem revolucionar estes sistemas de tratamento ultrapassados. Com os anticorpos de Tim Friede, a equipa espera atingir os locais de ligação a proteínas partilhados entre as cobras mais mortíferas. Um dos anticorpos de Tim Friede, ao qual chamaram Centi-LNX-D9, é de particular interesse. Nas experiências feitas com ratos de laboratório, este anticorpo “forneceu proteção completa e amplamente neutralizante contra todos os venenos de cobras de monóculo, mambas-negras, kraits marinhas Laticauda colubrina, cobras egípcias, cobras do cabo, cobras indianas e cobras reais”.

Esquerda: Superior:

Antídoto tradicional específico para cobras (também chamado antiveneno) é armazenado em refrigeração no Hospital Real de Liverpool.

Fotografia por PA IMAGES / ALAMY
Direita: Fundo:

Jacob Glanville, o imunologista responsável pelo projeto da Centivax. Jacob Glanville e Tim Friede querem revolucionar os antiquados sistemas de tratamento.

Fotografia por CENTIVAX

Jacob Glanville estima que pode começar a testar o antídoto universal em humanos dentro de dois anos. Com otimismo, Jacob espera lançar um produto no mercado três anos depois. E este pode vir na forma de seringas prontas para administrar que podem ser armazenadas à temperatura ambiente em clínicas médicas no campo.

“Os hospitais podem estar distantes da vítima”, acrescenta Jacob. “Mas cada aldeia tem uma clínica médica, que muitas vezes é apenas uma divisão no quintal da casa de alguém. Se alguém for mordido, facilmente alguém pode ir buscar o medicamento e administrar o antídoto.”

(As aranhas comem cobras pelo mundo inteiro, revela estudo surpreendente.)

Existem muitos outros centros de pesquisa em todo o mundo que têm objetivos semelhantes. Uma das principais organizações de financiamento neste campo é o Wellcome Trust, com sede em Londres. A liderar a investigação sobre dentadas de cobras está o doutor português Diogo Martins, que refere dois centros britânicos que estão a avançar na produção de antivenenos. O primeiro é o já mencionado centro de pesquisa da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, o segundo trata-se de uma empresa sediada em Camarthenshire, chamada MicroPharm, que tem como alvo as cobras mais perigosas da África subsaariana e do Médio Oriente.

Os outros centros de pesquisa destacados por Diogo Martins incluem o Instituto Clodomiro Picado, parte da Universidade da Costa Rica; o Instituto Butantan, na cidade brasileira de São Paulo; a Ophirex, na Califórnia; e o Instituto Memorial da Rainha Saovabha, em Bangkok.

Amostras de antígeno para uma variedade de venenos de cobra repousam no gelo no laboratório da Centivax. Este laboratório espera que a experimentação contínua de Tim Friede com o seu próprio corpo possa fornecer informações sobre as respostas imunitárias humanas associadas às cobras – e, mais importante, criar um tratamento melhor para as vítimas que não têm acesso à medicina ocidental.

Fotografia por CENTIVAX

A tecnologia antiveneno atual já tem mais de 120 anos e anualmente morrem cerca de 138.000 pessoas – porque é que esta ameaça letal ainda não foi tratada?

“A maioria destas pessoas é pobre”, diz Jacob Glanville, salientando que as dentadas de cobra são predominantemente um problema do mundo em desenvolvimento. “É uma questão financeira. A maioria das doenças tropicais negligenciadas é vista como menos lucrativa do que as outras áreas, como o cancro ou a neurodegeneração, doenças das quais muitas pessoas ricas morrem e pagariam muito mais para se curarem das mesmas.”

Diogo Martins, do Wellcome Trust, concorda. “As cobras vão sempre existir. Não podemos, não vamos, eliminar as cobras.” Diogo sugere que os governos deviam financiar os tratamentos antiveneno de forma mais consistente, mas percebe que esta dificilmente será uma política angariadora de votos. Para além disso, as comunidades rurais que mais sofrem são muitas vezes as menos ouvidas pelos políticos.

Um grupo que os políticos ouvem são os militares, que também operam em regiões e situações onde prosperam cobras perigosas. Jacob Glanville acredita que, uma vez  desenvolvido o seu antídoto universal, as organizações militares podem ser as primeiras na fila para o comprar. Isto pode ser o impulso necessário para as farmacêuticas produzirem o produto em escala, reduzir os custos – e, eventualmente, entregá-lo de forma barata para as pessoas que mais precisam.

Dominic Bliss é um jornalista freelancer sediado em Londres. Pode encontrá-lo no Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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