Fóssil de “gafanhoto” primitivo descoberto em São Pedro da Cova

Um fóssil de um "gafanhoto" primitivo com mais de 300 milhões de anos, descoberto no norte de Portugal, revelou um novo género e nova espécie.

Por Filipa Coutinho
Publicado 23/06/2022, 15:03
Fóssil de Lusitadischia sai

O fóssil encontrado na região de São Pedro da Cova, na Bacia Carbonífera do Douro, é um registo extremamente raro do Carbónico português e da Península Ibérica.

Fotografia por Pedro Correia

“Tenho novidades espetaculares!”, escrevia Pedro Correia no email que me endereçou. O artigo da equipa que o paleontólogo lidera tinha sido publicado na Historical Biology. Após várias descobertas na região, foram encontrados restos fossilizados de um "gafanhoto" pré-histórico com 300 milhões de anos na região de São Pedro da Cova.

Este novo fóssil recebeu o nome Lusitadischia sai, que deriva de 'Lusitania', a antiga palavra latina para a maior parte do Portugal moderno, e o sufixo 'dischia', frequentemente empregado para os ortópteros oedischiid, um grupo de insetos “saltadores” da família Oedischiidae a que Lusitadischia sai pertence.

O Lusitadischia sai, agora descrito para a ciência, corresponde a um grupo de insetos primitivos da Archaeorthoptera que existiram no final do Paleozóico.  

Jazida fossilífera da descoberta feita por Pedro Correia.

Fotografia por Pedro Correia

O fóssil deste gafanhoto primitivo foi encontrado em 2006 por Pedro Correia, investigador do Centro de Geociências (CGeo) da Universidade de Coimbra. A investigação contou com a colaboração de André Nel, um paleoentomólogo francês que trabalha no Museu Nacional de História Natural de Paris.

Pedro Correia explica que a “Archaeorthoptera é uma superordem difundida e diversificada, que compreende a atual ordem Orthoptera [um grupo coroa que contém diversos conjuntos de taxa compreendendo gafanhotos, grilos e outros insetos intimamente relacionados], as ordens extintas Caloneurodea, Titanoptera e Cnemidolestodea, além de uma série impressionante de géneros não colocados e espécies no seu grupo tronco”.

Durante o final do período Carbónico e o período Pérmico, o grupo teve uma diversidade notável, especialmente se for tido em consideração o baixo potencial de fossilização das suas partes do corpo. Na Europa, Archaeorthoptera está bem representado no Carbonífero de França e da Alemanha. No entanto, este clado (Grupo de organismos que têm um ancestral comum) permanece pouco conhecido na Península Ibérica, devido à raridade dos registos até à atualidade.

Imagem desenhada por um paleoartista, da projeção do “gafanhoto” Lusitadischia sai.

Ilustração de Vítor Silva

Apenas são conhecidos seis espécimes fósseis de arqueortópteros do Gzheliano do Pensilvánico Superior (com idades compreendidas entre os 303 e os 299 milhões de anos), em Espanha e Portugal. “A diversidade representada por tão poucos registos espelha bem a dificuldade de encontrar fósseis do grupo na Península Ibérica”, acrescenta Pedro Correia. Isso não significa necessariamente que este e outros insetos não fossem abundantes e diversificados no Carbónico nesta região, mas sim que a limitação do seu registo fóssil é um grande obstáculo para serem descobertos.

Pedro Correia conclui que “Lusitadischia sai é o segundo registo da familia Oedischiidae até agora conhecido na Península Ibérica, contribuindo para o aumento da baixa diversidade e demonstrando que está certamente subestimada, devido não só ao limitado potencial de fossilização deste tipo de fauna pré-histórica, mas também à dificuldade, nas condições tafonómicas (de preservação), de encontrar e reconhecer esses raros achados paleoentomológicos".

O nome específico sai é dado em homenagem a Artur Sá, paleontólogo e docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, pelo seu importante contributo na estratigrafia e paleontologia do Paleozóico inferior do sudoeste da Europa e norte de África e também na promoção e valorização do Património Geológico, Geoconservação e Geoparques.

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