Os casos de varíola dos macacos estão a aumentar – eis o que se sabe até agora

Um surto de varíola dos macacos, que está relacionado com a varíola, está a preocupar as autoridades de saúde pública. Mas este vírus pode ser contido com vacinas que já estão armazenadas e disponíveis em alguns países.

Por Priyanka Runwal
Publicado 2/06/2022, 12:41
varíola

Esta imagem de microscópio eletrónico mostra partículas do vírus da varíola dos macacos recolhidas de uma amostra de pele humana no surto de 2003. À esquerda estão as partículas de vírus maduras e ovais; à direita estão os vírus imaturos crescentes e esféricos.

Fotografia por CDC, Cynthia S. Goldsmith, Science Source

Quando os especialistas no Reino Unido confirmaram o primeiro caso de varíola dos macacos no dia 7 de maio deste ano, a epidemiologista Andrea McCollum e os seus colegas nos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos estavam atentos.

As infeções humanas por varíola dos macacos são raras, sobretudo fora de África Central e Ocidental, onde o vírus é endémico nos animais e circula maioritariamente em áreas densamente florestadas. Desde 2018, só foram confirmados oito casos em países onde o vírus não é endémico, incluindo Israel, Singapura, Reino Unido e EUA – todos associados a viagens, assim como o paciente identificado no dia 7 de maio, que fez uma viagem à Nigéria.

Contudo, à medida que foram surgindo mais casos em vários países sem ligações a viagens a África, os alarmes dispararam, diz Andrea McCollum. “Nunca tínhamos visto este tipo de observação com a varíola dos macacos, ou seja, isto é particularmente preocupante.”

Entre os dias 13 e 24 de maio, pelo menos 16 países na Europa e América do Norte, bem como Austrália e Israel, relataram mais de 250 casos confirmados de varíola dos macacos. A estirpe do vírus de África Ocidental parece ser a responsável por estas infeções. Este vírus desencadeia sintomas semelhantes aos da gripe, seguidos por uma erupção cutânea no rosto que se pode propagar para outras partes do corpo. Esta erupção cutânea passa de manchas vermelhas a borbulhas cheias de pus que eventualmente formam crostas e acabam por cair. Na maioria das vezes, estes sintomas desaparecem naturalmente no espaço de algumas semanas, mas são fatais em cerca de 3% dos casos. Por outro lado, a estirpe da varíola dos macacos da Bacia do Congo provoca uma doença mais grave e mata quase 10% dos infetados. O vírus da varíola, que foi erradicado em 1979 e é um parente próximo da varíola dos macacos, era muito mais mortal, matando 30% dos infetados.

“[A varíola dos macacos] é muito diferente da COVID”, disse Maria Van Kerkhove, epidemiologista de doenças infeciosas da Organização Mundial de Saúde, numa sessão online de perguntas e respostas no dia 23 de maio. “A transmissão está realmente a acontecer através do contacto físico de proximidade, do contacto pele a pele.” A varíola dos macacos, ao contrário da COVID-19, que circula através de pequenas gotículas transportadas pelo ar, não se propaga assim tão facilmente.

“Estamos perante uma situação passível de contenção”, disse Maria Van Kerkhove. Existem antivirais para os infetados e vacinas para as pessoas de maior risco – as pessoas que têm contacto de proximidade com os indivíduos infetados. “Esta [vacinação] não é necessária para todas as pessoas.”

Felizmente, até agora, ninguém morreu devido a este surto de varíola dos macacos, mas ainda não se sabe onde começou e o que está a provocar a sua propagação.

Neste momento, há muitas questões que permanecem em aberto, diz Andrea McCollum.

Eis o que se sabe até agora.

Casos confirmados

Desde a identificação do paciente vindo da Nigéria no dia 7 de maio, o número de casos de varíola dos macacos em países não endémicos tem vindo a aumentar.

As autoridades de saúde pública estão agora a fazer o rastreio de contactos e a procurar ligações entre os casos para encontrar pistas. Isto também pode ajudar a localizar casos não diagnosticados que podem estar assintomáticos ou apresentar sintomas ligeiros.

Uma grande proporção dos casos atualmente confirmados tem sido relatada na Europa, particularmente no Reino Unido, Espanha e Portugal. A maioria destas infeções ocorreu entre homens, muitos que se identificam como homens que se envolveram em relações sexuais com outros homens. Numa entrevista dada à Associated Press no dia 23 de maio, um consultor da OMS disse que a teoria principal para explicar este surto é a atividade sexual entre homens que aconteceu em duas raves realizadas recentemente em Espanha e na Bélgica.

Como se transmite a doença?

Embora a varíola dos macacos se possa propagar através do contacto sexual, não é uma infeção sexualmente transmissível, disse Andy Seale, consultor do programa de HIV, hepatite e infeções sexualmente transmissíveis da OMS, numa sessão online de perguntas e respostas no dia 23 de maio. Este tipo de transmissão normalmente exige que o vírus infecioso seja transportado via sémen ou fluidos vaginais, e atualmente não há evidências que sugiram isso.

Esta doença não se limita aos homens que têm relações com outros homens. “Qualquer pessoa pode contrair a varíola dos macacos através do contacto de proximidade”, disse Andy Seale.

A doença espalha-se através dos fluidos corporais de uma pessoa infetada – cuspo ou pus – que podem abrigar o vírus. Os lençóis ou roupas contaminadas com este fluido carregado de vírus também podem ser uma potencial fonte de infeção.

Dada a natureza generalizada do surto atual, epidemiologistas e virologistas estão a tentar compreender se existe uma transmissão aprimorada deste vírus de pessoa para pessoa. Alguns especialistas estão a estudar as sequências genéticas do vírus obtidas de pacientes infetados para perceber se existem mutações que possam tornar o vírus atualmente em circulação potencialmente mais transmissível do que as versões anteriores. Os investigadores também estão a verificar se o vírus da varíola dos macacos está presente no sémen ou nos fluidos vaginais e, caso seja infecioso, confirmar que não é uma doença sexualmente transmissível.

Existem vacinas ou tratamentos para a varíola dos macacos?

Nem todos os pacientes com varíola dos macacos necessitam de hospitalização; muitos melhoram sem tratamento enquanto ficam em isolamento em casa durante três semanas. Alguns países, incluindo o Reino Unido, aconselham as pessoas que tiveram contacto de proximidade com um indivíduo infetado a ficarem de quarentena durante 21 dias. Nos EUA, o presidente Joe Biden disse que este período de quarentena não é necessário, dado que há vacinas disponíveis para as pessoas expostas ao vírus.

Em 2019, a FDA, ou agência do medicamento dos EUA, aprovou a vacina contra a varíola dos macacos da farmacêutica Bavarian Nordic's, chamada Jynneos, que pode prevenir ou mitigar os efeitos da doença. Outra vacina, chamada ACAM2000, que foi aprovada para a varíola, também pode ser usada. Os EUA e o Reino Unido, por exemplo, estão a oferecer a vacina Jynneos aos profissionais de saúde que tratam ou podem estar expostos a pacientes infetados. Os CDC dos EUA sugerem uma vacinação de duas doses dentro de quatro dias após a exposição.

No entanto, não há qualquer medicamento aprovado para tratar a varíola dos macacos. Um medicamento antiviral oral chamado Tecovirimat foi aprovado pela FDA em 2018 para tratar a varíola, mas não há dados que mostrem que é eficaz em humanos para tratar qualquer uma destas infeções. Para os casos mais graves da doença da varíola dos macacos, existem outros dois tratamentos que também podem ser usados, um antiviral e um anticorpo monoclonal chamado imunoglobulina vaccinia.

Qual é a diferença entre a varíola dos macacos e o SARS-CoV-2?

Ao contrário do vírus SARS-CoV-2 – o vírus RNA que provoca a COVID-19 – o vírus da varíola dos macacos é um vírus de ADN. O seu genoma é codificado com cerca de 200.000 unidades genéticas, ao passo que o genoma do SARS-CoV-2 é muito mais pequeno – tem aproximadamente 30.000 unidades. Os vírus de ADN geralmente não sofrem mutações, disse Rosamund Lewis, chefe do Secretariado para a Varíola da OMS, numa sessão online de perguntas e respostas no dia 23 de maio, e tendem a ser bastante estáveis e menos propensos para gerar variantes.

Os dois vírus também se transmitem de forma um pouco diferente. O SARS-CoV-2 espalha-se rapidamente pelo ar através de minúsculas gotículas quando as pessoas infetadas falam, espirram ou tossem. A varíola dos macacos não se espalha assim tão facilmente pelo ar e muitas vezes requer contacto físico de proximidade com uma pessoa infetada, ou com as suas roupas infetadas.

Uma breve história da varíola dos macacos

Este vírus foi descoberto pela primeira vez em 1958 na Dinamarca, quando os investigadores repararam em erupções cutâneas semelhantes às provocadas pela varíola em macacos cynomolgus vindos de Singapura e alojados num centro de investigação animal – daí o nome varíola dos macacos. Na década seguinte, foram relatados mais surtos nos EUA em macacos em cativeiro importados da Ásia, onde a varíola dos macacos ainda não tinha sido identificada. Estes primatas foram considerados hospedeiros acidentais do vírus.

O primeiro caso humano de varíola dos macacos foi documentado em 1970 na província de Equateur, no Congo, num bebé de nove meses que inicialmente se pensava ter varíola – uma doença que estava perto da erradicação e que era semelhante à varíola dos macacos. Em 1985, a Organização Mundial de Saúde já tinha registado 310 casos de varíola dos macacos nas zonas rurais de África Ocidental e Central, a maioria no Congo.

Este aumento de casos levou a uma investigação sobre a origem do vírus da varíola dos macacos. Um levantamento feito em 1985 com 383 animais selvagens, incluindo macacos, roedores e morcegos no norte do Congo, revelou anticorpos específicos para a varíola dos macacos nas amostras de sangue de dois esquilos Funisciurus anerythrus – roedores diurnos que provavelmente são caçados para consumo da sua carne. Um dos esquilos tinha erupções cutâneas e os investigadores conseguiram isolar um vírus da varíola dos macacos idêntico ao observado nos humanos a partir do tecido animal.

Em março de 2012, outra equipa de investigadores isolou o vírus de uma espécie de macaco chamada Cercocebus atys no Parque Nacional Tai da Costa do Marfim, e em chimpanzés ocidentais em 2020. Mais recentemente, outro estudo, que ainda não foi revisto por pares, encontrou evidências do vírus em musaranhos e alguns roedores que vivem na Bacia do Congo

Apesar de os roedores serem os principais suspeitos de abrigar reservatórios da varíola dos macacos, não há evidências diretas que mostrem que estes animais, que são caçados pela sua carne ou mantidos como animais de estimação, transmitam o vírus aos humanos, diz Joachim Mariën, ecologista de doenças da Universidade de Antuérpia, na Bélgica.

Ainda assim, o infame surto de varíola dos macacos em 2003 nos EUA – o primeiro fora de África – oferece um vislumbre de como acontece a transmissão deste vírus de animal para humano. Pelo menos 37 pessoas de seis estados: Illinois, Indiana, Kansas, Missouri, Ohio e Wisconsin ficaram doentes depois de manusearem ou acariciarem cães da pradaria infetados. Todos estes roedores provavelmente apanharam o vírus da varíola dos macacos quando estavam alojados ao lado de ratos gigantes da Gâmbia que um distribuidor de animais do estado de Illinois tinha importado do Gana.

Porque é que os casos estão a aumentar?

Em partes de África Central e Ocidental, onde o vírus é endémico, os casos humanos de varíola dos macacos têm vindo a aumentar desde a década de 1970. Um estudo feito este ano estima um aumento mínimo de 10% no número global de casos confirmados, prováveis ou possíveis nas últimas cinco décadas. Este aumento de casos é mais dramático no Congo, que registou mais de 28.000 casos entre 2000 e 2019, e na Nigéria, onde a doença ressurgiu em 2017 passados 40 anos.

Uma das razões para o aumento no número de casos da varíola dos macacos é a erradicação da varíola. Em 1980, a Organização Mundial de Saúde declarou a erradicação da varíola e a vacinação contra o vírus terminou. Mas os investigadores têm demonstrado que a vacina descontinuada contra a varíola, que pode ter efeitos secundários, fornece uma proteção de 85% contra a varíola dos macacos. Um estudo feito em 2010 na região central do Congo descobriu que as pessoas vacinadas tinham um risco quase cinco vezes inferior de contrair a varíola dos macacos do que as pessoas não vacinadas.

A desflorestação desgovernada também pode expor mais pessoas ao vírus. O abate de florestas para dar lugar a plantações e agricultura provavelmente vai aproximar ainda mais os humanos dos animais selvagens infetados, aumentando as oportunidades para o vírus saltar entre espécies, como é sugerido para o Ébola.

Para além disso, um estudo feito em 2014 documentou uma versão da estirpe do vírus da varíola dos macacos da Bacia do Congo com um gene apagado, algo que pode estar associado a uma adaptação para a transmissão de humano para humano.

“Já sabíamos que a varíola dos macacos, devido ao seu potencial epidémico, era uma doença à qual devíamos estar atentos”, diz Laurens Liesenborghs, especialista em doenças infeciosas que estuda este vírus no Instituto de Medicina Tropical da Bélgica. “No entanto, o que está a acontecer agora é uma coisa bastante peculiar.”

Este surto da varíola dos macacos é provocado por um vírus mais transmissível?

Há outra questão pendente, que passa por saber se o vírus evoluiu para se espalhar mais facilmente entre humanos. Para os vírus da varíola, que são vírus de ADN, isto normalmente significa perder ou ganhar genes que os tornam mais transmissíveis, diz Gustavo Palacios, virologista da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, em Nova Iorque.

Com base nas sequências do genoma do vírus retiradas de três pacientes infetados recentemente com varíola dos macacos em Portugal, na Bélgica e nos EUA, não há evidências deste tipo de exclusão ou adição de genes, diz Gustavo Palacios. De facto, a sequência do genoma do paciente português apresenta uma correspondência próxima com a do vírus exportado da Nigéria para Israel, Singapura e Reino Unido em 2018 e 2019. A sequência preliminar do gene analisado no paciente belga é muito semelhante à obtida do paciente português, o que faz sentido, diz Philippe Selhorst, virologista do Instituto de Medicina Tropical da Bélgica, dado que o paciente belga viajou recentemente para Portugal.

Porém, para identificar alterações subtis na composição genética da varíola dos macacos, os investigadores precisam de sequenciar o ADN viral de mais pacientes e comparar as regiões do genoma que podem ser diferentes das sequências verificadas nos surtos anteriores. A questão passa por saber se estas variações, caso sejam encontradas, afetam a forma como o vírus infeta os humanos.

Philippe Selhorst está preocupado porque, mesmo que o vírus ainda não tenha mudado, quanto mais tempo permanecer em circulação, mais oportunidades pode ter para sofrer mutações.

Apesar de a varíola dos macacos não ser tão contagiosa quanto a COVID-19, Philippe Selhorst diz que “nunca é bom quando um vírus que estava num reservatório animal começa a circular cada vez mais entre as pessoas”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
A COVID-19 pode afetar o desempenho sexual masculino
Ciência
O mundo precisa rapidamente de mais vacinas. Um tubo minúsculo pode fazer toda a diferença.
Ciência
É altamente improvável que as vacinas provoquem efeitos secundários muito tempo depois da injeção
Ciência
Uma inalação em vez de injeção? As futuras vacinas COVID-19 poderão ser intranasais.
Ciência
A invulgar variante Lambda está rapidamente a propagar-se na América do Sul. Eis o que sabemos.

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados