Dinossauro recém-descoberto tinha braços minúsculos como o T. Rex.

O Meraxes gigas, um predador do Cretáceo, sugere que os carnívoros gigantes podiam ter mais usos para os seus membros estranhamente reduzidos do que se pensava anteriormente.

Por Annie Roth
Publicado 11/07/2022, 10:46
Meraxes gigas

O Meraxes gigas, um dinossauro terópode gigante que viveu na Argentina há cerca de 100 milhões de anos, tinha braços pequenos em comparação com o seu corpo e crânio gigantes. O plano corporal deste dinossauro é semelhante ao do T. rex, que só iria aparecer dezenas de milhões de anos mais tarde.

Fotografia por Illustration by Carlos Papolio

Há cerca de 100 milhões de anos, um dinossauro predador gigante rondava aquela que atualmente é a região da Patagónia argentina. Pesando mais de quatro toneladas e com cerca de 11 metros de comprimento, este carnívoro recém-descoberto partilhava várias características físicas com o Tyrannosaurus rex, incluindo uma cabeça enorme e pequenos braços frontais.

Contudo, esta nova espécie, descrita num estudo publicado na revista Current Biology, não está intimamente relacionada com os tiranossauros – pertencia a uma família completamente diferente de dinossauros conhecida por carcharodontosauridae, que ficou extinta milhões de anos antes de o T. rex aparecer no registo fóssil. Portanto, este dinossauro evoluiu os seus braços minúsculos de forma independente, sugerindo que ter estes membros reduzidos pode ter tido mais vantagens evolutivas do que se pensava anteriormente.

“Estou convencido de que estes braços proporcionalmente minúsculos tinham algum tipo de função”, disse em comunicado de imprensa o autor principal do novo estudo, o paleontólogo Juan Canale, da Universidade Nacional de Río Negro, na Argentina. “Estes animais podem ter usado os braços num comportamento reprodutivo, como por exemplo para segurar a fêmea durante o acasalamento ou como forma de apoio para se levantar depois de uma queda.”

O local de escavações na Argentina onde o M. gigas foi descoberto.

Fotografia por Juan I. Canale

Descoberto em 2012 durante trabalhos de campo financiados em parte pela National Geographic Society, o animal recém-descrito foi nomeado Meraxes gigas numa alusão a Meraxes, o dragão fêmea da série de ficção As Crónicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin.

Esta descoberta já está a ajudar os paleontólogos a compreender melhor os carcharodontosauridae. Este grupo de dinossauros, cujo nome significa “lagartos com dentes de tubarão”, também contém o Giganotosaurus, um dos maiores carnívoros que alguma vez existiram e estrela do novo filme Mundo Jurássico: Domínio.

“Esta descoberta ajuda a preencher a diversidade deste grupo de dinossauros e dá-nos uma imagem mais exata sobre a evolução e ecologia da época”, diz Thomas Carr, paleontólogo do Carthage College, em Wisconsin, que não esteve envolvido no estudo. “O número real de dinossauros e outros animais extintos provavelmente é muito superior ao estimado, portanto é bom adicionar uma nova espécie à árvore genealógica.”

Características familiares

Há cerca de dez anos, uma equipa internacional de paleontólogos que investigava a região norte da Patagónia encontrou um tesouro na forma de fósseis de dinossauros. No primeiro dia de busca, a equipa desenterrou os restos fossilizados do referido Meraxes gigas, incluindo um crânio, braço e parte inferior do corpo quase completos. Este esqueleto é agora um dos carcharodontosauridae mais completos alguma vez encontrados.

“É simplesmente um dinossauro espetacular com uma cabeça enorme parecida com a de uma gárgula.”

por PETER MAKOVICKY PALEONTÓLOGO DA UNIVERSIDADE DO MINNESOTA E EXPLORADOR DA NATIONAL GEOGRAPHIC

Alguns especialistas chegaram a acreditar que o T. rex e outros dinossauros carnívoros de braços pequenos não tinham qualquer uso para os seus antebraços, e era por isso que estes alegados apêndices encolheram com o passar do tempo. Mas os autores do estudo dizem que a sua descoberta sugere que as coisas são um pouco mais complexas.

De acordo com o coautor do estudo, Peter Makovicky, paleontólogo da Universidade do Minnesota e Explorador da National Geographic, ambas as espécies passaram por uma mudança evolutiva semelhante devido à forma como caçavam. “À medida que os seus braços ficavam mais pequenos, as suas cabeças ficavam maiores”, diz Peter. “Houve uma transferência de funções, sobretudo relacionadas com a captura de presas, do membro anterior para o crânio.”

Peter Makovicky acredita que, conforme estes dinossauros começaram a usar mais a cabeça e menos os braços, os membros encolheram. No entanto, Peter também refere que os braços destes dinossauros continuavam a ser musculados, sugerindo que continuavam a ter alguma função.

Os braços pequenos não são a única característica intrigante do M. gigas. As patas também tinham garras em forma de foice, semelhantes às dos Velociraptor. Os investigadores também descobriram que o crânio do M. gigas estava adornado com cristas e saliências, que o dinossauro pode ter usado para atrair parceiros.

As verdadeiras funções destes membros podem nunca vir a ser conhecidas. Os fósseis revelam informações limitadas sobre a forma como os dinossauros se comportavam, obrigando os paleontólogos a desenvolver teorias ao comparar a anatomia dos dinossauros com a de animais vivos. Sem informações adicionais, resta aos especialistas especular sobre as razões pelas quais o M. gigas tinha esta aparência.

Cavar mais fundo

Apesar de permanecerem muitos mistérios por desvendar, a descoberta de fósseis como o de M. gigas ajuda a aprofundar a nossa compreensão sobre o mundo pré-histórico.

“Este fóssil de M. gigas revela regiões inéditas do seu esqueleto, como os braços e pernas, que nos ajudam a compreender algumas tendências evolutivas e a anatomia dos carcharodontosauridae”, disse Juan Canale no comunicado de imprensa.

Através dos exames de imagiologia ao crânio do dinossauro e de uma observação mais detalhada ao braço, os cientistas esperam aprender mais sobre a forma como o corpo desta espécie se compara ao de outros carcharodontosauridae. Durante este processo, em que cada osso de M. gigas é examinado ao pormenor, os cientistas também param para apreciar a maravilha que é este gigante pré-histórico.

“Já faço isto há quase 30 anos. Já escavei muitas coisas diferentes pelo mundo inteiro, mas isto é definitivamente outra coisa”, diz Peter Makovicky. “Para além do valor científico, é simplesmente um dinossauro espetacular com uma cabeça enorme parecida com a de uma gárgula.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas naturais do nosso mundo, financiou o trabalho dos exploradores Peter Makovicky e Pablo Gallina.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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