Formigas que encontram fósseis reúnem enorme quantidade de criaturas antigas

Os paleontólogos acabaram de descobrir 10 novas espécies de mamíferos antigos graças a insetos minúsculos que constroem montes.

Por Michael Greshko
Publicado 5/07/2022, 11:54
 montes de areia e cascalho

À medida que constroem os seus montes de areia e cascalho, as formigas colhedoras encontram e acumulam regularmente fósseis com meros milímetros de diâmetro, uma dádiva para os paleontólogos.

Fotografia por MICHAEL FORSBERG, Nat Geo Image Collection

Por toda a região oeste dos Estados Unidos, os insetos engenhosos conhecidos por formigas colhedoras são frequentemente descritos como pragas. Estas formigas recolhem sementes e vivem em enormes montes de sedimentos; e podem desferir picadas desagradáveis às criaturas que sentem como uma ameaça. Um destes montes pode sobreviver durante décadas e, para desgosto de alguns proprietários, o terreno circundante até cerca de 9 metros de distância fica desprovido de vegetação.

Porém, conforme estas formigas constroem os seus montes, também fazem algo notável: são os coletores de fósseis mais pequenos do mundo.

As colónias de formigas revestem os montes com uma camada – com pouco mais de um centímetro de espessura – composta por pedras minúsculas, provavelmente para proteger as estruturas dos efeitos da erosão do vento e da água. Para encontrar material para este revestimento, as formigas aventuram-se a distâncias superiores a trinta metros do monte. Para além de pedaços de cascalho, estes insetos recolhem todos os tipos minúsculos de fósseis e artefactos arqueológicos que encontram.

As informações científicas que estas formigas podem revelar é impressionante. Recentemente, os investigadores que examinaram 19 montes formigueiros numa propriedade no Nebrasca descobriram mais de 6.000 microfósseis – cada um com poucos milímetros de largura – de mamíferos antigos. Estes espécimes incluem pequenos dentes e fragmentos de maxilar que representam nove espécies novas de roedores e uma nova espécie de animal parecido com um musaranho que comia insetos.

Estes dentes minúsculos – cada um com cerca de um milímetro de largura – pertencem à Oligoryctes tenutalonidus, uma nova espécie fóssil de mamífero que comia insetos e era parecido com um musaranho.

Fotografia por Clint A. Boyd

Estes fósseis, descritos recentemente na revista científica Paludicola, também incluem dentes de primatas, vestígios de parentes antigos de coelhos e uma espécie não identificada de morcego. Por mais pequenos que os dentes possam ser, as suas formas fornecem uma variedade de informações – incluindo o lugar dos dentes na árvore da vida dos mamíferos.

“Isto oferece-nos uma fonte concentrada de fósseis que, de outra forma, exigiria muito do nosso esforço na escavação de rocha… ou anos e anos de joelhos a rastejar na esperança de encontrar alguma coisa solta”, diz Clint Boyd, coautor do estudo e paleontólogo do Serviço Geológico de Dakota do Norte, em Bismarck.

Graças aos esforços das formigas, os investigadores podem usar os fósseis para compreender melhor o que estava a acontecer na América do Norte há cerca de 34 milhões de anos, um período evolutivamente importante que marcou o fim da época do Eoceno e o início do Oligoceno. Durante este período, o planeta entrou num período de arrefecimento prolongado, levando à extinção de algumas espécies e reorganizando os ecossistemas da Terra antiga.

“É como se os montes de formigas colhedoras fossem os melhores amigos dos arqueólogos e paleontólogos”, diz Benjamin Schoville, Explorador da National Geographic e arqueólogo da Universidade de Queensland, na Austrália, que não esteve envolvido no estudo.

Caçadores minúsculos de fósseis

O talento espontâneo das formigas para caçar fósseis já é conhecido pelos cientistas há mais de um século. Numa publicação de 1896 sobre os sítios fósseis na região oeste dos Estados Unidos, o paleontólogo John Bell Hatcher aconselhou os interessados a frequentar os formigueiros locais, “porque revelam quase sempre um bom número de dentes de mamíferos”. O método preferido de John Hatcher para descobrir dentes – peneirar os sedimentos com uma peneira de farinha – parecia funcionar bem. John Hatcher gabava-se de encontrar regularmente entre 200 a 300 dentes individuais e fragmentos de maxilares em apenas uma colina.

Contudo, apesar de o comportamento das formigas estar bem documentado, muitas das informações derivam do conhecimento popular – são amplamente compreendidas, mas não foram estudadas sistematicamente. Os poucos estudos feitos até agora, no entanto, mostram que as formigas colhedoras podem recolher alguns espécimes notáveis.

Em 2009, uma equipa liderada por Benjamin Schoville publicou os resultados das observações feitas em 812 formigueiros no Nebrasca. Entre estes, quase 20% tinham pequenos flocos lascados de pedra, talvez detritos deixados pelos nativos americanos que afiavam pedras para construir ferramentas ou pontas de projéteis. “Alguns detritos da ocupação humana são representados apenas por estes pequenos artefactos”, diz Benjamin Schoville.

Os montes de formigas no Nebrasca também revelaram um fragmento parcial de maxilar e um dente de morcego, mas este fóssil está demasiado fragmentário para ser atribuído a uma espécie em específico.

Fotografia por Clint A. Boyd

O estudo também demonstra o quão longe as formigas se podem aventurar. Numa experiência, a equipa de Benjamon Schoville organizou missangas em anéis concêntricos em torno de vários montes. O mais distante destes anéis estava a 50 metros dos cumes dos formigueiros. Para surpresa de Benjamin Schoville, as formigas num dos montes foram buscar missangas àquela distância – aproximadamente o equivalente a um humano procurar comida a mais de 10 quilómetros de casa.

Peneirar as planícies

O novo estudo, também realizado no Nebrasca, surgiu dos esforços obstinados da família Gulotta, proprietária do rancho onde ficam os montes estudados.

Marco Gulotta Sr., um ávido colecionador amador de fósseis, sabia que os montes das formigas colhedoras podiam produzir pequenos dentes e ossos. Juntamente com os seus filhos Marco Jr. e Mel, Marco Gulotta recolheu quilos de cascalho das camadas mais exteriores dos montes, usou uma peneira para separar o material e examinou os seixos à procura de restos mortais antigos. Marco Gulotta começou depois a publicar fotografias das suas descobertas no The Fossil Forum, uma comunidade online de entusiastas da paleontologia.

Clint Boyd e a sua colega Deborah Anderson, paleontóloga da Faculdade St. Norbert em De Pere, no Wisconsin, viram as publicações e entraram em contacto com Marco Gulotta, persuadindo-o a enviar alguns dos microfósseis a Deborah Anderson. A partir daí, o projeto transformou-se numa bola de neve, com Deborah Anderson, Clint Boyd e Bill Korth, do Instituto Rochester de Paleontologia de Vertebrados, em Nova Iorque, a fazerem parceria para rever milhares de fósseis minúsculos.

Durante todo este processo, os investigadores trabalharam em estreita colaboração com a família Gulotta. No outono de 2020, Clint Boyd visitou o rancho para catalogar a localização dos formigueiros com referenciação GPS. A família Gulotta doou os milhares de microfósseis analisados no estudo à Escola de Minas e Tecnologia de Dakota do Sul, onde irão ficar disponíveis aos investigadores.

“Às vezes, quando se trata de fósseis, algumas pessoas pensam que existe um pouco de antagonismo entre os paleontólogos académicos e os proprietários de terrenos”, diz Clint Boyd. “Mas este é um bom exemplo de como podemos trabalhar juntos e realizar investigações científicas importantes.”

A região centro-oeste pré-histórica dos EUA

Quando estes fósseis se formaram originalmente – entre há 37 e 32 milhões de anos – as Grandes Planícies, onde fica atualmente a região centro dos EUA, eram mais quentes, mais húmidas e mais florestadas, diz Bill Korth, autor principal do novo estudo. Os fósseis, portanto, captam uma pequena fatia da vida mamífera nestes ambientes mais abafados.

Muitos destes restos mortais provavelmente derivam das fezes de um predador, depois de os pequenos animais terem sido comidos e digeridos. Uma vez enterrados, os dentes e fragmentos ósseos fossilizaram – e estão notavelmente bem preservados.

Os fósseis, cada um com apenas milímetros de diâmetro, para além de incluírem 10 novas espécies de pequenos mamíferos, também oferecem informações sobre a biologia de criaturas conhecidas e revelam tipos nunca antes vistos de dentes de vários roedores extintos. “Havia algumas espécies que só eram conhecidas por dois ou três espécimes, mas agora temos trinta ou quarenta espécimes para essas espécies”, diz Bill Korth.

As formigas colhedoras recolhem pedaços de cascalho de um determinado tamanho, ou seja, só os fósseis desse tamanho é que irão parar aos montes. “As formigas não vão construir uma coisa digna de museu com uma curadoria perfeita”, diz Benjamin Schoville.

Ainda assim, graças às coordenadas de GPS e ao conhecimento topográfico do local, a equipa de Bill Korth e Clint Boyd conseguiu atribuir as camadas específicas de pedra a cada monte estudado. Ao rastrear os tipos de fósseis encontrados em cada monte, os investigadores conseguiram estimar quando é que espécies diferentes surgiram e desapareceram nas camadas rochosas do local. As informações permitiram à equipa inferir quais são as camadas de rocha nesta zona do Nebrasca que registam o final do Eoceno e o início da época do Oligoceno, há cerca de 34 milhões de anos.

Para deleite dos investigadores, a sua estimativa baseada nos comportamentos das formigas corresponde a uma estimativa feita 13 anos antes com um método diferente – o que significa que os formigueiros podem fornecer uma forma independente para refinar os limites do tempo geológico. Esta é mais uma razão para olharmos para as formigas colhedoras como parceiras dos humanos na paleontologia.

“Quem andar pelas paisagens à procura de fósseis”, diz Benjamin Schoville, “também deve procurar os formigueiros ao longo do caminho”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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