Os suplementos e as vacinas que combatem as alterações climáticas

O setor agrícola é dos que mais emite metano, um poderoso gás com efeito de estufa. Os cientistas estão a estudar formas de diminuir estas emissões em animais através de suplementos e vacinas.

Por Bárbara Pinho
Publicado 11/07/2022, 15:25
Ovelhas nas câmaras de respiração

Ovelhas nas câmaras de respiração de circuito fechado no Centro de Medições de Metano da Nova Zelândia, AgResearch.

Fotografia por AgResearch

De acordo com o Relatório sobre o Estado do Clima Europeu de 2021, as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera estão mais altas que nunca. Ainda que o aumento se verifique para vários gases, o metano apresenta um crescimento mais exacerbado do que se esperava: as concentrações deste gás na atmosfera em 2021 foram as mais altas desde há 800.000 anos.

Numa escala de tempo de 20 anos, o metano é 80 vezes mais poderoso no aquecimento do planeta do que o dióxido de carbono, porque a sua estrutura molecular retém o calor com mais eficiência. Aliás, pelo menos 25% do aquecimento global que experienciamos de momento no planeta é causado por emissões deste gás.

A importância do metano para as alterações climáticas tem sido reconhecida um pouco por todo mundo. No final do ano passado, na COP 26, os líderes mundiais lançaram a Global Methane Pledge, uma iniciativa para reduzir as emissões de metano nos próximos anos com o objetivo de limitar o aquecimento a um grau e meio. Mais de 100 países aderiram ao compromisso, incluindo Portugal. No entanto, até ver, as concentrações de metano continuam a aumentar. De acordo com Vincent-Henry Peuch, diretor do Serviço de Monitorização da Atmosfera Copernicus, o aumento reportado no relatório acima referido é ainda uma incógnita e não se sabe o que o poderá ter causado. Outros estudos têm demonstrado que certas regiões do planeta emitem quantidades massivas de metano sem que essas emissões sejam facilmente visíveis a olho nu, como foi o caso de medidas de satélite sob minas de carvão na Polónia e lixeiras em Madrid.

Mas para lá das lixeiras e da energia, há um setor que mais metano emite para a atmosfera: o setor da agricultura.

A digestão que impacta o aquecimento global

Alguns animais como ovelhas e vacas, também designados por ruminantes, têm um processo digestivo longo e complexo. O seu estômago está dividido em quatro compartimentos: no primeiro compartimento, chamado rúmen, um ambiente vasto de microorganismos, incluindo fungos e bactérias, digere os alimentos. “Há um sistema ecológico muito complexo no rúmen, desenhado para digerir fibras e para libertar energia que o animal pode usar para crescer e se reproduzir”, explica Neil Wedlock, investigador no Centro de Investigação de Grasslands, na Nova Zelândia.

No rúmen ocorre a metanogénese, um processo no qual bactérias metanogénicas transformam o dióxido de carbono existente no estômago de ruminantes em metano. Depois, os animais libertam este gás e a quantidade é significativa: num só dia, uma vaca emite cerca de 200 litros de metano. Sendo que no planeta, de momento, estima-se que existam 1.4 biliões de vacas, as contas rapidamente apontam para emissões de metano altas. Estas e outras emissões fazem com que o setor da agricultura seja dos setores que mais gases com efeito de estufa emite. Estudos demonstram que reduzir o consumo alimentar de produtos de origem animal, como o leite ou a carne, pode levar a uma redução destas emissões. No entanto, para Ermias Kebreab, professor de agricultura animal sustentável e investigador na Universidade da Califórnia, Davis, abdicar do consumo de produtos com origem animal é um compromisso que nem todos podem fazer. “Olhando para vários locais, particularmente países mais pobres, vemos várias doenças que seriam preveníveis se houvesse acesso a alimentos de origem animal”, explica. “Penso que temos que encontrar formas de produzir estes alimentos de forma mais sustentável.”

Os suplementos

Ermias Kebreab está de momento a desenvolver com a sua equipa um suplemento  que tem por base um ingrediente marinho: a alga vermelha Asparagopsis taxiformis. Em estudos laboratoriais prévios, evidência mostra que este tipo de algas diminui a ação de bactérias metanogénicas em percentagens significativas dentro de tubos de ensaio. Por isso, os cientistas estadunidenses levaram a alga do laboratório à quinta.

De acordo com o investigador, quando adicionados à alimentação de bovinos, os suplementos levaram a uma redução de quase 80% das emissões de metano destes animais. Em alguns casos, chegou mesmo aos 98%. “Se conseguirmos reduzir o metano nestas quantidades, penso que temos uma solução muito boa para produzir comida de forma sustentável”, explica. Os suplementos estão agora a ser implementados em certas quintas nos Estados Unidos.

Já deste lado do Atlântico, investigadores da empresa holandesa DSM já têm um suplemento no mercado. O composto Bovaer, que funciona de forma semelhante aos suplementos provenientes de algas, já foi aprovado para comercialização no Brasil e no Chile e, no final de 2021, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos fez uma avaliação positiva do produto, sendo este um passo em frente para levar o suplemento aos mercados europeus.

Para além dos suplementos, há ainda cientistas que estão a trabalhar em formas de diminuir emissões sem interferir com a alimentação dos animais, como é o caso de Neil Wedlock, na Nova Zelândia.

As vacinas

Neil Wedlock e a sua equipa têm explorado vacinas para impedir que o processo digestivo de ovelhas emita metano, sem causar dano nem desconforto ao animal. Ainda que não tenham um produto finalizado, têm trabalhado para tal. O objetivo será finalizar uma vacina que faça com que o sistema imunitário do animal crie e liberte anticorpos que atacam as bactérias responsáveis por produzir metano.

“Nós não esperamos reduzir a ação das bactérias metanogénicas a 100%, mas sabemos que podemos diminuir em 50% e isso não causaria dano ao animal”, explica. 

Para testar o protótipo da vacina, a equipa vacinou um grupo de animais e colocou-os em câmaras que medem as emissões de gases. Paralelamente, os cientistas colocaram animais não vacinados nas câmaras para depois compararem as emissões dos animais vacinados e não vacinados. Até agora, ainda não viram alterações significativas, mas ainda este ano vão testar outra fórmula. “Vamos conduzir mais uma experiência e colocá-las [as ovelhas] em câmaras de novo. Em junho esperamos ter resultados. Esta pode ser a grande descoberta, mas não consigo prever isso, só mesmo esperar que o seja”, conclui.

Dos suplementos às vacinas, há várias soluções em teste para diminuir as emissões de metano no setor da agricultura. Ainda que poucas já estejam no mercado, para Neil Wedlock, o trabalho não pode parar. “Sabemos que as alterações climáticas são reais, sabemos que temos que fazer algo rapidamente”, diz o investigador. “Se conseguirmos reduzir [emissões de] metano, podemos ter um impacto considerável neste problema.”

Bárbara Pinho é comunicadora de ciência e trabalha para clientes e cientistas um pouco por todo o mundo. Para além de desenvolver conteúdos digitais, escreve artigos para várias revistas nacionais e internacionais sobre ciência, alterações climáticas, ambiente e saúde.

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