Quão contagiosa é a varíola dos macacos – e devemos ser vacinados?

Esta doença é agora global e está a propagar-se rapidamente, mas existem formas simples de reduzir o risco de infeção. Eis o que precisa de saber.

Por Sharon Guynup
Publicado 12/07/2022, 11:33
células infetadas (verde)

Uma micrografia eletrónica colorida mostra o vírus da varíola dos macacos (laranja) na superfície de células infetadas (verde).

Fotografia por INSTITUTO NACIONAL DE ALERGIA E DOENÇAS INFECIOSAS DOS EUA

Num mundo desgastado por mais de dois anos de uma pandemia de coronavírus, agora há outra doença, a varíola dos macacos, que continua a propagar-se mais depressa do que nunca. Este vírus é muito diferente do que provoca a COVID-19 e é muito mais difícil de transmitir, mas pode obrigar à hospitalização e resultar em morte. A varíola dos macacos também pode deixar os infetados desfigurados: as lesões provocadas na pele pelas borbulhas repletas de pus – que podem ser meia dúzia ou milhares – podem deixar cicatrizes permanentes.

Até agora, 61 países em seis continentes registaram 7492 casos, com um aumento de 82% no número de novas infeções desde o dia 27 de junho. Nos Estados Unidos, a varíola dos macacos já se alastrou por 34 estados, e também no Distrito de Colúmbia e Porto Rico. Atualmente, há cerca de 700 casos e, embora a maioria tenha sido relativamente ligeira, houve três mortes confirmadas em África. Esta doença está a circular em grande parte de uma forma particular, através homens que têm relações sexuais com outros homens.

“Contudo, é provável que um número significativo de casos não esteja a ser detetado”, diz Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde. Para além da disponibilidade de testes ser limitada, alguns pacientes apresentam relativamente poucas lesões, complicando ainda mais a contagem de casos.

A transmissão desta doença entrou em território desconhecido, com casos de varíola dos macacos a surgir entre pessoas que não viajaram para África – onde o vírus é endémico – e infeções a surgir em novos lugares. “Simplesmente não há espaço para a complacência – sobretudo aqui na Europa onde um surto em rápida evolução está a estender o seu alcance para áreas previamente não afetadas”, disse em comunicado Hans Henri P. Kluge, Diretor Regional para a Europa da OMS.

O Comité de Emergência da OMS vai reconsiderar se este surto constitui uma emergência de saúde pública global na semana de 18 de julho. A OMS sublinha que o controlo da propagação de varíola dos macacos vai exigir “esforços intensos de resposta”.

O surto atual em vários países foi “uma surpresa”, mas “não é surpreendente”, diz Rosamund Lewis, conselheira técnica de varíola dos macacos na OMS. Em África, os casos têm vindo a aumentar há décadas. Um surto que começou em 2017 ainda decorre na Nigéria (e pode ser a origem desta disseminação atual) e outro em 2020 na República Democrática do Congo (RDC) revelou cerca de 6000 casos suspeitos.

Embora os casos de COVID-19 ofusquem completamente os da varíola dos macacos, os especialistas estão preocupados porque os humanos podem vir a infetar os animais selvagens, criando inadvertidamente novos reservatórios endémicos para esta doença, diz Andrea McCollum, epidemiologista do Grupo de Resposta ao Surto de Varíola dos Macacos dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Os animais podem depois retransmitir o vírus às pessoas, dificultando – ou impossibilitando – a sua erradicação.

Existem agora esforços globais para impedir a propagação de casos de varíola dos macacos e evitar outra pandemia. Com esse objetivo em mente, as autoridades de saúde pública estão a oferecer vacinação para as pessoas em maior risco. Nos EUA, o governo de Joe Biden está a aumentar a distribuição de vacinas, cuja procura tem sido elevada.

Eis o que precisa de saber sobre este vírus, os riscos, formas de prevenção e se precisa de ser vacinado contra a varíola dos macacos.

 

O que é a varíola dos macacos?

A varíola dos macacos é um parente muito menos grave e contagioso da varíola. Ambos são ortopoxvírus, um género de 12 vírus de ADN que também inclui a varíola bovina e dos camelos.

Existem dois clados genéticos distintos, ou variedades, explica Bernard Moss, virologista do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas (NIAID) dos EUA. Um deles, a varíola dos macacos da Bacia do Congo, mata 1 em cada 10 infetados. Está confirmado que o atual surto global envolve a segunda variedade, menos mortal, a varíola dos macacos de África Ocidental, que tem uma taxa de mortalidade inferior a 1%.

Esta é uma doença zoonótica, transmitida de animais para humanos, que foi descoberta pela primeira vez em 1958 entre macacos num laboratório de pesquisa dinamarquês, mas o nome do vírus pode estar equivocado. Acredita-se que este vírus é abrigado por pequenos mamíferos que vivem nas florestas tropicais africanas, onde o vírus é endémico, mas pode infetar muitos outros mamíferos e só foi isolado em animais selvagens duas vezes: num esquilo na RDC em 1985 e num macaco Cercocebus atys na Costa do Marfim em 2012. O verdadeiro reservatório – ou reservatórios – real da doença permanece desconhecido.

Desde que surgiu o primeiro caso humano de que há conhecimento, em 1970 – quando um rapaz foi diagnosticado na RDC – a maioria das infeções ocorria em África Ocidental e Central. Ao início, a maioria eram “eventos de transbordo”, contraídos pela caça e abate de animais selvagens infetados, diz Rosamund Lewis.

O contacto de proximidade pode depois espalhar o vírus entre as pessoas. As lesões são “pequenas fábricas virais” contagiosas, diz Andrea McCollum, dos CDC. Porém, até recentemente, o vírus raramente se propagava para além de algumas famílias no interior de uma comunidade.

Apesar de esta doença já ter sido caracterizada há pelo menos 52 anos, “na verdade, não sabemos tanto quanto gostaríamos sobre a mesma”, diz Rosamund Lewis.

 

É uma doença sexualmente transmissível?

Um dos casos iniciais afetou mãe, pai e filho no Reino Unido, mas o atual surto de varíola dos macacos tem afetado predominantemente homens que têm relações sexuais com outros homens – 99% entre os casos que indicaram género. Para as autoridades de saúde pública, tem sido um desafio educar o público sem estigmatizar esta comunidade.

Em entrevista à Associated Press, David Heymann, especialista em doenças infeciosas da OMS, disse que o atual surto provavelmente foi impulsionado pelo comportamento sexual em festas e raves realizadas em Espanha e na Bélgica. Estes eventos semearam a disseminação internacional, assim como as grandes concentrações de pessoas disseminaram a COVID-19 durante os primeiros dias da pandemia.

Mas as evidências sugerem que a varíola dos macacos não é uma doença sexualmente transmissível, diz Bernard Moss. Quando alguém está sintomático, é algo que se transmite pelo contacto pele a pele – incluindo os comportamentos sexuais – e também se pode transmitir através do contacto com lençóis, toalhas ou roupas infetadas.

Em África, os surtos anteriores infetaram mulheres, crianças e homens de todas as idades. “Não há barreiras. Este vírus não vai necessariamente cingir-se a um género ou a uma população”, alerta Anne Rimoin, epidemiologista de doenças infeciosas e professora na Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Isto já está a acontecer. A OMS já começou a ver casos em crianças, diz Rosamund Lewis.

“Estamos perante uma situação em desenvolvimento que deve ser cuidadosamente monitorizada. Creio que precisamos de ter os olhos bem abertos e estar prontos para reagir.”

“A educação pública é fundamental. Não queremos que as pessoas se preocupem, mas precisamos de estar cientes sobre o que está a acontecer para nos protegermos”, acrescenta Rosamund Lewis. “O que precisamos é que cada pessoa conheça os seus próprios riscos... e que faça essa gestão.”

 

Há testes e vacinas disponíveis nos EUA?

Existem testes disponíveis para a varíola dos macacos, que envolvem simplesmente esfregar uma zaragatoa numa lesão. Os testes são depois enviados para um laboratório no respetivo estado para confirmar a presença de ortopoxvírus e, de seguida, são enviados para os CDC para confirmar a varíola dos macacos. Os pacientes com um resultado positivo são tratados preventivamente.

Apesar de haver testes disponíveis para doenças infeciosas na Rede de Resposta Laboratorial dos EUA, há reclamações devido a atrasos nos testes e entrega de resultados; a procura está atualmente concentrada nas áreas urbanas. Até agora, os estados da Califórnia, Nova Iorque, Illinois e Flórida são os mais afetados, de acordo com os CDC. Para disponibilizar mais testes, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) vai enviar testes de ortopoxvírus para cinco laboratórios comerciais.

As vacinas têm sido difíceis de obter, mas isso está a mudar. Depois de o primeiro caso ter sido confirmado nos EUA a 18 de maio, os números começaram a aumentar e as vacinas contra a varíola dos macacos esgotaram rapidamente. A 28 de junho, o governo de Joe Biden anunciou que ia distribuir 56.000 doses adicionais, priorizando as áreas de maior transmissão. Cerca de 240.000 doses adicionais serão distribuídas nas próximas semanas, com um total de 1.6 milhões de vacinas disponíveis nos EUA até ao final do outono.

Não existe um tratamento aprovado especificamente para a varíola dos macacos, mas os antivirais desenvolvidos para a varíola podem ajudar, de acordo com os CDC.

 

Devemos ser vacinados contra a varíola dos macacos? Quem é prioritário na vacinação?

“A vacinação da população em geral não está assegurada”, diz Bernard Moss, do NIAID. Atualmente, o vírus está a propagar-se apenas num pequeno grupo demográfico.

Porém, dada a evolução do atual surto, já não é possível fazer o rastreio de contactos. Alguns países, incluindo os EUA, tiveram de mudar os seus planos e expandir a vacinação para englobar não só aqueles que tiveram contactos conhecidos de proximidade, como também qualquer pessoa de alto risco.

“A vacinação resulta melhor se a vacina for administrada antes de alguém estar infetado”, diz Bernard Moss. Após a exposição ao vírus, a janela alvo é de quatro dias, mas as pessoas podem ser vacinadas até duas semanas depois.

 

Qual a diferença entre as duas vacinas contra varíola dos macacos – e quando é que foram desenvolvidas?

Em 1796, Edward Jenner, considerado o fundador da vacinologia no Ocidente, inoculou com sucesso um rapaz de oito anos contra a varíola usando o vírus Vaccinia – da varíola bovina. Dois anos depois, os investigadores desenvolveram a primeira vacina contra a varíola. Como os ortopoxvírus partilham 90% ou mais da sua genética, “uma vacina feita contra qualquer um destes vírus protege contra todos”, diz Bernard.

Ao contrário do que aconteceu em 2020 com a pandemia de COVID-19, a boa notícia é a de que há vacinas que devem funcionar contra a varíola dos macacos, diz Rosamund Lewis. Há duas vacinas disponíveis nos EUA, com a agência do medicamento norte-americana a aprovar a primeira, chamada ACAM2000, em 2007, para prevenir a varíola. Esta vacina é semelhante às primeiras vacinas, também usa uma forma viva e ligeira do vírus Vaccinia e têm sido usada por militares, trabalhadores de laboratório e outros grupos há décadas. As pessoas que foram vacinadas contra a varíola antes de os EUA encerrarem o seu programa de vacinação em 1972 ainda devem ter alguma imunidade.

As vacinas atuais contra a varíola nunca foram testadas em ensaios clínicos de fase III contra a varíola ou varíola dos macacos. Apesar de os profissionais de saúde acreditarem que as vacinas contra a varíola funcionam contra a varíola dos macacos, “isso ainda não foi demonstrado através de estudos rigorosos”, diz Rosamund Lewis, “ou sequer na ‘vida real’ até este momento”.

Determinados grupos devem evitar esta vacina – incluindo mulheres grávidas, dado que pode colocar o feto em risco. Os imunocomprometidos ou pessoas com problemas cutâneos também devem evitar esta vacina: o vírus pode propagar-se descontroladamente. A vacina também pode ser perigosa para as pessoas com problemas cardíacos, dado que pode desencadear inflamação cardíaca.

A segunda vacina, chamada Jynneos, tem muito menos efeitos secundários e é a única vacina aprovada especificamente para a varíola dos macacos.

Ainda assim, juntamente com a sensibilização e cuidados apropriados, “[a vacinação é] fundamental para manter a doença sob controlo”, diz Andrea McCollum.

 

Este surto internacional é inesperado?

Os especialistas não antecipavam que a varíola dos macacos “se movesse através de redes de contactos intimamente relacionados, e que isso acontecesse além fronteiras com os números que estamos a ver agora”, diz Andrea McCollum.

Mas havia sinais de alerta.

Em África, os casos de varíola dos macacos começaram a aumentar depois de a varíola ter sido erradicada globalmente em 1980 e as campanhas de vacinação terem terminado: as vacinas conferiam uma proteção cruzada contra todos os ortopoxvírus. À medida que a imunidade restante ia diminuindo, as infeções por varíola dos macacos começaram a surgir na RDC, aumentando cerca de 20 vezes entre 1986 e 2007.

O primeiro surto no Hemisfério Ocidental ocorreu em 2003, quando um carregamento de animais de estimação exóticos vindos de África Ocidental – ratazanas, arganazes e esquilos da Gâmbia – provocou 47 infeções humanas nos EUA.

Depois, em 2018, as autoridades registaram casos crescentes relacionados com viagens. “Isso levantou algumas suspeitas”, diz Andrea McCollum. “Estávamos a ficar bastante preocupados de que fosse apenas a ponta do icebergue.”

As condições ambientais subjacentes estavam prontas para que isto acontecesse, diz Rosamund Lewis, listando os fatores que aumentam o risco de doenças zoonóticas – as alterações climáticas e a desflorestação, que abrem os acessos às florestas, e a necessidade de procurar proteínas e a venda de carne de caça nos mercados.

“Partilhamos todos um planeta, precisamos de pesquisas que nos ajudem a proteger a humanidade e a natureza. Enquanto não tivermos estes dois objetivos em mente, vamos continuar a enfrentar problemas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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