A ciência explica por que temos grandes ideias no chuveiro

Não tem que ver com limpeza – mas sim com o nosso estado de espírito.

Por Stacey Colino
Publicado 23/08/2022, 10:54
banho

Quando estamos no chuveiro, “não temos muito para fazer, não conseguimos ver bem e há muito ruído branco”, diz John Kounios, neurocientista cognitivo e diretor do Laboratório de Pesquisa em Criatividade da Universidade Drexel, em Filadélfia. “O nosso cérebro pensa de uma forma mais caótica. Os nossos processos executivos diminuem e os processos associativos aumentam. As ideias surgem e pensamentos diferentes podem colidir e entrar em união.”

Fotografia por Elizabeth Cecil, The New York Times via Redux

Se já saiu do banho ou regressou de um passeio com o seu cão com uma ideia inteligente ou uma solução para um problema para o qual não tinha solução, pode não ser um acaso.

Em vez de estarmos constantemente a remoer um problema ou a procurar desesperadamente um vislumbre de inspiração, as investigações feitas nos últimos 15 anos sugerem que as pessoas podem ter mais propensão para as descobertas criativas ou epifanias quando estão a executar uma tarefa habitual que não requer muito pensamento — uma atividade em que basicamente estamos em piloto automático. Isto permite à nossa mente vaguear ou envolver-se numa cognição espontânea, ou numa forma de pensar chamada “fluxo de consciência”, que os especialistas acreditam que ajuda a recuperar memórias invulgares e a gerar novas ideias.

“As pessoas ficam sempre surpreendidas quando percebem que têm ideias interessantes e inovadoras nos momentos mais inesperados, porque a nossa narrativa cultural diz-nos que devemos atingir esses resultados através de muito trabalho”, diz Kalina Christoff, neurocientista cognitiva da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver. “É uma experiência humana bastante universal.”

Agora estamos a começar a compreender porque é que estes pensamentos inteligentes surgem durante as atividades mais passivas e o que está a acontecer no cérebro, diz Kalina Christoff. A chave, de acordo com a investigação mais recente, é um padrão de atividade cerebral – dentro do que se chama rede de modo padrão – que acontece enquanto um indivíduo está a descansar ou a realizar tarefas habituais que não requerem muita atenção.

Os investigadores já mostraram que a rede de modo padrão (RMP) – que liga mais de uma dúzia de regiões do cérebro – se torna mais ativa durante as tarefas passivas ou divagantes do que quando estamos a fazer algo que exige concentração. Simplificando, a RMP é “o estado ao qual o cérebro regressa quando não estamos ativamente envolvidos”, explica Roger Beaty, neurocientista cognitivo e diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva da Criatividade da Universidade da Pensilvânia. Por outro lado, quando estamos absortos numa tarefa exigente, os sistemas de controlo executivo do cérebro mantêm o nosso pensamento focado, analítico e lógico.

É importante salientar que, apesar de a rede de modo padrão desempenhar um papel fundamental no processo criativo, “não é a única rede importante”, diz Roger Beaty. “Há outras redes em jogo que modificam, rejeitam ou implementam ideias.” Portanto, não é sensato depositar toda a fé nas ideias que surgem no chuveiro ou durante qualquer outra divagação mental.

O que é a rede de modo padrão

Marcus Raichle, neurologista da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis, e os seus colegas descobriram por acaso a rede de modo padrão em 2001, quando estavam a usar tomografia por emissão de positrões (PET) para observar o funcionamento dos cérebros de voluntários enquanto estes realizavam tarefas novas que exigiam atenção. A equipa comparou depois as imagens com as captadas enquanto o cérebro estava num estado de repouso, observando que regiões específicas do cérebro eram mais ativas durante as tarefas passivas do que durante as mais exigentes.

No entanto, como a função de cada região do cérebro não está bem caracterizada e como uma área específica do cérebro pode fazer coisas diferentes em circunstâncias diferentes, os neurocientistas preferem falar sobre “redes de áreas cerebrais”, como a rede de modo padrão, que funcionam em conjunto durante determinadas atividades, de acordo com John Kounios, neurocientista cognitivo e diretor do Laboratório de Pesquisa em Criatividade da Universidade Drexel, em Filadélfia.

Marcus Raichle designou esta rede “modo padrão” devido ao aumento da sua atividade durante os períodos ociosos, diz Randy L. Buckner, neurocientista da Universidade de Harvard. Mas é um nome desadequado porque a rede de modo padrão também está ativa nas outras tarefas mentais, como por exemplo na recordação de eventos passados ou no envolvimento em pensamentos introspetivos.

Esta rede também está “envolvida nos estágios iniciais da geração de ideias, aproveitando experiências passadas e o conhecimento sobre o mundo”, explica Roger Beaty. “Quando não estamos ativamente a trabalhar num problema, o cérebro continua ativo e podemos reestruturar os elementos do problema, as peças são baralhadas e algo clica. A RMP ajuda-nos a combinar informações de maneiras diferentes e a simular possibilidades.”

Os investigadores descobriram que, quando se trata de criatividade, há uma correlação positiva entre o desempenho criativo e o volume de massa cinzenta da rede de modo padrão. Por outras palavras, no que diz respeito à criatividade, o tamanho da RMP é importante.

Para investigar as mudanças na ativação cerebral e na conectividade entre diferentes regiões da RMP, os investigadores pediram aos voluntários para alternarem entre atividades que envolviam um elevado esforço cognitivo (nomear cores), pouco esforço cognitivo (ler palavras) e nenhum esforço cognitivo (descansar). E descobriram que a rede de modo padrão tinha mais atividade quando os participantes estavam a descansar, e era mais ativa durante a tarefa de pouco esforço, do que durante a tarefa de esforço elevado, de acordo com um estudo publicado na edição de abril de 2022 da Scientific Reports. Isto sugere que a atividade da RMP pode oscilar para cima e para baixo, como se estivesse intermitente, parando até em pontos intermédios ao longo do caminho, dependendo do nível do desafio cognitivo exigido.

A ligação ao pensamento criativo ficou demonstrada num estudo publicado em janeiro que envolveu pacientes acordados durante uma cirurgia cerebral, para os cirurgiões conseguirem mapear a superfície cortical exposta para as funções de linguagem. À medida que um estimulo elétrico direto era aplicado na sua rede de modo padrão, ou noutra área do cérebro, era pedido aos pacientes para realizarem uma “tarefa de usos alternativos” que envolvia a invenção de usos invulgares para um objeto do quotidiano – neste caso, um clipe de papel – que é uma forma de avaliar as capacidades divergentes de pensamento. Os investigadores descobriram que a capacidade dos pacientes em realizar com sucesso a tarefa de usos alternativos dependia da força das ligações entre os nódulos da rede de modo padrão.

“A rede de modo padrão parece ser uma fonte importante de criatividade e está decididamente associada à divagação da mente”, diz Jonathan Schooler, investigador de psicologia da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. De facto, um estudo publicado na edição de fevereiro de 2022 da Human Brain Mapping descobriu que os pensamentos positivos e construtivos, quando sonhamos acordados – “caracterizados por planeamento, pensamentos agradáveis, imagens vívidas de desejoso e curiosidade” – estão associados à criatividade e atividade na rede de modo padrão.

Os benefícios de divagar

Independentemente de nos apercebermos ou não, todos nós nos envolvemos em divagações regularmente, diz Roger Beaty, salientando que existem tipos diferentes de divagação. Há uma divagação deliberada da mente, onde tentamos exercer algum nível de controlo ou direção sobre o nosso pensamento; e divagações espontâneas da mente, que acontecem no cérebro sem que as direcionemos. Num estudo publicado em 2020 na PNAS, investigadores que recorreram a eletroencefalogramas para rastrear a atividade cerebral descobriram que a divagação espontânea da mente aconteceu em 47% do tempo.

É esta forma espontânea que permite combinar informações e ideias de novas maneiras. “Quando a nossa mente se afasta de uma situação para divagar, é aí que podemos ter vislumbres criativos”, diz Jonathan Schooler. “Neste estado prazeroso, permitimos aos pensamentos passarem pela nossa mente de uma forma descontraída. Mas devemos levar consideração que por vezes temos de fazer o trabalho para criar espaço para o problema – que estabelece as bases para o aparecimento de ideias espontâneas.”

Isto é o que geralmente se chama “efeito de incubação”, que acontece quando passamos tempo afastados de um problema ou desafio específico, e a nossa mente tem a oportunidade de vaguear e gerar novas ideias através de processos associativos inconscientes.

Para descobrir quando é que as pessoas conseguem ter ideias inovadoras, Jonathan Schooler e os seus colegas pediram a físicos e escritores profissionais para manterem um diário durante duas semanas, no qual relataram a sua ideia mais criativa do dia, o que estavam a fazer quando surgiu a ideia e se parecia um momento eureka. Aproximadamente 20% das ideias mais significativas surgiram enquanto os voluntários estavam envolvidos numa atividade que não requeria trabalho, ou enquanto pensavam em algo não relacionado com ideias criativas, de acordo com um estudo publicado em 2019 na Psychological Science. Mais importante, as ideias que surgiram durante os momentos de divagação mental tinham mais propensão para serem associadas à superação de um impasse, ou de um problema irritante, e a serem encaradas como momentos de revelação.

“Precisamos desta vertente de exploração na geração de ideias para sermos criativos”, diz Rex Jung, neuropsicólogo da Universidade do Novo México, em Albuquerque. Contudo, acrescenta Rex, precisamos de outras partes do nosso cérebro para escolhermos uma ideia, avaliarmos a sua viabilidade e para a implementarmos no mundo real. “É uma interação ou dança entre a rede de modo padrão e a rede de controlo cognitivo que permite gerar uma ideia criativa e a sua implementação.”

Como despertar a criatividade

Para além de levar a uma maior compreensão sobre nós próprios, obter informações sobre estes aspetos do processo criativo pode ajudar-nos a maximizar o nosso poder cerebral em várias situações. Mas lembre-se, sublinha Rex Jung, “ainda estamos numa fase inicial e ainda há muito para aprender sobre a forma como o cérebro cria”.

Como primeiro passo, é sensato priorizar um sono de boa qualidade, o que pode melhorar o nosso humor e ajudar na memória, diz John Kounios, coautor de The Eureka Factor: Aha Moments, Creative Insight, and the Brain. Enquanto estamos a dormir, diz John, “as informações que recebemos durante o dia passam de um estado frágil para um estado mais duradouro, algo que pode resultar em descobertas surpreendentes”.

Imediatamente após acordarmos de uma noite inteira de sono, ou até mesmo de uma soneca de 20 minutos, Kalina Christoff diz que devemos prestar atenção aos pensamentos e ideias que nos ocorrem neste estado liminar entre estar profundamente adormecido e completamente acordado – é um momento em que as nossas ideias “estão muitas vezes a fluir livremente”, acrescenta Kalina, o que significa que podemos explorar o nosso potencial criativo.

Para ativar conscientemente a nossa RMP e ideias criativas durante o dia, devemos perder tempo a fazer atividades que não sejam cognitivamente exigentes – como caminhar, tomar um banho quente ou fazer jardinagem – sem ouvir música ou um podcast. Deixamos simplesmente a nossa mente divagar. Devemos fazer isto quando estamos “num estado de segurança psicológica, onde não há o perigo de termos um pensamento invulgar ou qualquer tarefa imediata a ser executada”, diz John Kounios. (Por outras palavras, não devemos fazer isto quando estamos a conduzir.)

Durante o dia, fazer algo fácil e familiar, que muitas vezes envolve algum tipo de movimento, provavelmente facilita o fluxo de pensamentos espontâneos. Quando estamos no chuveiro, por exemplo, “não temos muito para fazer, não conseguimos ver bem e há muito ruído branco”, diz John Kounios. “O nosso cérebro pensa de uma forma mais caótica. Os nossos processos executivos diminuem e os processos associativos aumentam. As ideias surgem e pensamentos diferentes podem colidir e entrar em união.”

investigações que sugerem que passar tempo na natureza – o que pode evocar uma sensação de fascínio, para além de induzir o relaxamento – é propício à divagação, porque permite que “a nossa atenção se expanda para preencher o espaço”, diz John Kounios. “Dar um passeio na natureza pode melhorar o nosso humor e expandir os nossos pensamentos para incluírem ideias e associações remotas.”

É por isso que, se estivermos a tentar criar um novo conceito ou a resolver um problema, é sensato trabalhar arduamente mas também fazer uma pausa e dar um passeio se chegarmos a um impasse. “Isto permite à nossa mente trabalhar subconscientemente em algo em que estávamos a trabalhar conscientemente”, diz Kalina Christoff.

Um fator-chave: a atividade precisa de durar tempo suficiente “para criar a oportunidade de entrarmos num modo diferente de pensar, um modo de pensar que geralmente nos faz sentir culpados”, explica Kalina. “Precisamos de relaxar mentalmente o suficiente para não tentarmos ser produtivos ou alcançar algum objetivo. Com as atividades habituais nas quais nos envolvemos com alguma regularidade, não nos sentimos culpados por deixar a nossa mente divagar – e é quando a mente pode alcançar novos lugares.”

Portanto, não tenha medo de desligar e de reservar um tempinho para divagar e meditar regularmente. “Um dos custos deste mundo multimédia em que vivemos é não deixarmos tempo suficiente para os devaneios pessoais”, diz Jonathan Schooler. Dar à sua mente a oportunidade de divagar é um investimento na sua criatividade, e isso é tempo bem gasto.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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