Como o calor extremo está a afetar as mulheres grávidas

À medida que o planeta aquece, os cientistas estão a documentar um aumento nos nascimentos prematuros e natimortos, juntamente com bebés abaixo do peso.

Por Priyanka Runwal
Publicado 30/08/2022, 11:17
Pequim

Uma mulher grávida segura num guarda-sol para se proteger do sol em Pequim, na China.

Fotografia por Tingshu Wang, Reuters

Nos dias quentes de verão em Kilifi, um condado costeiro predominantemente rural no Quénia, as temperaturas do ar chegam aos 37,7 graus Celsius e raramente descem abaixo dos 21,1 graus. “Este lugar foi sempre quente”, diz a antropóloga médica Adelaide Lusambili, da Universidade Aga Khan em Nairobi, “mas agora está muito quente”.

Tal como acontece em muitas outras partes do mundo, o Quénia está a testemunhar um aumento nas temperaturas anuais, acompanhado por vagas de calor mais frequentes, intensas e prolongadas e períodos reduzidos de arrefecimento. Este calor agudo e sustentado representa um problema particular para as mulheres grávidas, que são mais vulneráveis. À medida que o planeta aquece, os cientistas estão a documentar um aumento nos nascimentos prematuros e natimortos, juntamente com bebés abaixo do peso.

No verão passado, Adelaide Lusambili e os seus colegas entrevistaram mulheres grávidas e novas mães, os seus familiares, profissionais de saúde e líderes comunitários em Kilifi para compreender a forma como o calor extremo estava a afetar a saúde materna e dos recém-nascidos. Um profissional de saúde disse aos investigadores que estavam a testemunhar mais complicações no parto e mais partos prematuros.

Um corpo crescente de estudos científicos suporta esta observação, sugerindo que as temperaturas diurnas e as noites mais quentes do que o normal podem estar a gerar a um aumento nos resultados adversos para as mulheres grávidas. Estas adversidades variam entre um maior risco de natimortos – quando o bebé nasce morto após pelo menos 20 semanas de gestação – e mais probabilidades de partos prematuros, onde o bebé nasce antes das 37 semanas, em vez de no termo completo das 40 semanas.

Alguns estudos sugerem que as temperaturas mais elevadas têm dado origem a mais recém-nascidos com peso abaixo do normal, o que pode resultar em complicações de saúde para o bebé. Uma análise recente de 70 estudos realizados em 27 países, incluindo os Estados Unidos, a China, alguns países europeus e da África Subsaariana, mostra que por cada aumento de 0,28 graus Celsius na temperatura, os riscos de partos prematuros e natimortos aumentam em 5%.

“Pode parecer um valor irrisório”, diz o autor principal da análise, Matthew Chersich, epidemiologista da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, mas esta pesquisa aponta para uma ameaça crescente. Com as alterações climáticas a alimentarem eventos de calor extremo mais frequentes e intensos por todo o planeta, está cada vez mais patente que a subida das temperaturas pode colocar cada vez mais em risco as mulheres grávidas, novas mães e recém-nascidos.

Como o calor extremo afeta a gravidez

Apesar de os cientistas ainda não terem conseguido identificar os períodos durante a gravidez em que o calor extremo representa o maior risco, a exposição ao calor agudo parece causar problemas nos estágios iniciais e tardios.

O que complica todos estes estudos é o facto de que não existirem assinaturas únicas (como uma mutação específica) que possam ligar um natimorto individual ou um parto prematuro a um evento de calor extremo, diz Lyndsey Darrow, epidemiologista da Universidade de Nevada em Reno.

Os investigadores usaram conjuntos de dados a longo prazo para comparar as durações e datas da gravidez com os dados de temperatura, para compreender quanto e quais são os aspetos do calor – a intensidade e/ou duração – que estão a afetar este segmento vulnerável da população.

vários estudos que sugerem que as mulheres grávidas podem correr um risco elevado de stress devido ao calor mais perto da data prevista para o parto. A exposição a temperaturas extremas nos últimos dias ou semanas de gravidez pode aumentar as probabilidades de um natimorto ou desencadear um parto prematuro – o que pode aumentar a probabilidade de doenças respiratórias, comprometer o desenvolvimento neurológico e a morte na primeira infância. Outras investigações indicam que, quando uma mãe suporta temperaturas elevadas no início da gravidez, o bebé em desenvolvimento corre o risco de desenvolver problemas cardíacos, medulares ou cerebrais, algo que pode explicar os nascimentos prematuros ou natimortos. Alguns estudos revelam que as mulheres podem ser vulneráveis ao calor agudo durante toda a gravidez, não apenas na gestação.

Até agora, os cientistas ainda não determinaram quais são as vias fisiológicas exatas pelas quais o calor afeta a gravidez, mas têm algumas teorias.

A temperatura corporal de uma mulher grávida tende a ser ligeiramente mais elevada do que a média e pode aumentar quando as temperaturas também aumentam. Como estas mulheres têm mais propensão para ficarem desidratadas e, consequentemente, suar menos, têm menos capacidade para arrefecer rapidamente, que é uma das razões pelas quais as temperaturas mais elevadas são tão perigosas para este segmento da população e explica como é que pode induzir defeitos fetais.

A desidratação também pode fazer com que o sangue fique mais espesso, aumentando a pressão sanguínea da mãe e reduzindo o fluxo sanguíneo e, assim, o fornecimento de oxigénio e nutrientes para o bebé. Isto pode dar origem a bebés com baixo peso ou partos prematuros.

O stress térmico também pode induzir inflamação na decídua – a porção materna da placenta – desencadeando um parto prematuro. Com base nos estudos feitos com animais, as temperaturas elevadas podem estimular níveis mais elevados de hormonas na gravidez, como a oxitocina, que pode provocar um trabalho de parto precoce.

Estas hipóteses podem parecer plausíveis, porém, ainda não se sabe se e até que ponto estes mecanismos afetam direta ou indiretamente o corpo de uma mulher grávida quando esta suporta um calor extremo, diz Britt Nakstad, neonatologista da Universidade do Botsuana.

Estabelecer pontos de dados e teorias

Num estudo publicado em junho de 2022, a epidemiologista Lyndsey Darrow e os seus colegas usaram registos de óbitos fetais de 1991 até 2017 de seis estados dos EUA – Califórnia, Flórida, Geórgia, Kansas, Nova Jersey e Oregon – e encontraram um aumento de 3% no risco de natimortos quando as mulheres grávidas suportavam  quatro dias quentes consecutivos na semana anterior. Quando as temperaturas excediam os 35 graus, estes riscos aumentavam ligeiramente.

Na Carolina do Norte, os investigadores descobriram que as temperaturas noturnas estão intimamente associadas aos partos prematuros. Entre 2011 e 2015, os investigadores descobriram que o risco de parto prematuro aumentava em até 6% por cada grau adicional em temperaturas superiores aos 23,8 graus entre maio e setembro.

“O que podemos estar a observar é uma incapacidade em recuperar da exposição durante o dia”, diz Ashley Ward, cientista de saúde climática da Universidade Duke e autora principal do estudo feito na Carolina do Norte. “Estamos a registar noites cada vez mais quentes, e é com isso que nos devemos preocupar.”

Noutro estudo que investigou os efeitos do calor nas mulheres em 14 países de baixo e médio rendimento, incluindo a Etiópia, Nigéria, Nepal e África do Sul, os investigadores observaram maiores probabilidades de partos prematuros e natimortos quando as mulheres grávidas passavam por temperaturas extremas e noites mais quentes e húmidas durante os sete dias anteriores ao nascimento.

Embora estas vagas de calor e temperaturas agudas sejam perigosas, existe um fator a longo prazo que é negligenciado e que inclui um aumento gradual nas temperaturas médias sazonais, que também pode ameaçar as mulheres grávidas e os seus bebés. Tal como acontece com muitas outras desigualdades económicas e de saúde – incluindo o acesso a espaços sombreados, ventiladores e ar condicionado – algumas mulheres são muito mais vulneráveis ao stress térmico do que outras.

Nem todas as mulheres são afetadas da mesma forma

Nos EUA, os resultados adversos da gravidez relacionados com o calor atingem valores quase duas vezes superiores nas mulheres negras e hispânicas em comparação com as mulheres brancas. Isto não é surpreendente, uma vez que as mulheres negras tendem a viver em bairros densamente povoados que aquecem rapidamente e demoram mais a arrefecer devido à falta de espaços verdes. Também é provável que muitas destas mulheres não consigam pagar ou ter acesso a aparelhos de ar condicionado nos dias extremamente quentes.

Da mesma forma, os investigadores que estudam a saúde materna nos países de baixo e médio rendimento suspeitam que os impactos das vagas de calor ligadas às alterações climáticas e ao aumento das temperaturas nas mulheres grávidas que vivem nestas regiões vão ser muito maiores. Nestas partes do mundo, as mulheres com acesso limitado a alimentos nutritivos continuam a envolver-se em tarefas domésticas exaustivas – desde caminhar longas distâncias para ir buscar água, passando pelo cultivo e recolha de lenha – no final da gravidez durante um calor extremo.

Apesar de a maioria das investigações neste campo serem direcionadas para os impactos do calor nas mulheres grávidas que vivem nos países de alto rendimento, cientistas como Adelaide Lusambili e Matthew Chersich estão a tentar mudar esta realidade. A equipa de Adelaide Lusambili está a envolver-se com grupos da comunidade de Kilifi para aumentar a consciencialização sobre os riscos do calor extremo e a importância de reduzir a carga de trabalho nas mulheres grávidas. Matthew Chersich espera desenvolver um sistema de alerta que consiga avisar as mulheres grávidas para tomarem precauções nos dias mais quentes.

Nos EUA, as conversas em torno da exposição ao calor e respetivos impactos na gravidez permanecem limitadas. “Não temos feito um bom trabalho a formar profissionais [de saúde] para falarem com as suas pacientes sobre os riscos do calor”, diz Ashley Ward. Faltam esforços para comunicar as formas de minimizar a exposição ao calor, como por exemplo ficar em casa e usar ar condicionado – isto quando as pessoas têm acesso a estes meios.

“Basicamente, estamos a passar por alterações climáticas que são sinónimo de sauna”, diz Veronica Gillispie-Bell, ginecologista obstetra da clínica Ochsner Health em Nova Orleães. “Enquanto profissionais de saúde que cuidam de gestantes, precisamos de fazer mais para compreender os riscos e trabalhar mais para oferecer soluções.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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