Um cão apanhou varíola dos macacos. O que significa para os nossos animais de estimação e outras espécies?

Os especialistas receiam que esta doença se possa propagar entre os animais, tornando-a quase impossível de erradicar.

Por Sharon Guynup
Publicado 26/08/2022, 11:18
galgo italiano

Um galgo italiano, como este que vemos na imagem, foi infetado com varíola dos macacos através do dono.

Fotografia por Anne Bentz, EYEEM, Getty Images

Em Paris, um galgo italiano com quatro anos de idade parece ser o primeiro cão doméstico infetado com o vírus da varíola dos macacos. Os investigadores informam que o animal desenvolveu borbulhas suspeitas 12 dias depois de os donos terem desenvolvido lesões cheias de pus. Os testes confirmam que a mesma estirpe de varíola dos macacos infetou um dos dois homens e o seu cão.

O vírus, que se transmite através do contacto físico, foi declarado emergência de saúde internacional em julho. Atualmente, registam-se 45.535 casos em 96 países e territórios.

Dada a proximidade que partilhamos com os nossos animais de estimação, “isto não é inesperado”, diz Colin Parrish, professor de virologia veterinária da Universidade de Cornell que estuda vírus caninos emergentes. Tem sido um risco teórico porque acariciamos e beijamos os nossos cães, andamos com os animais ao colo e também partilhamos comida com eles. Os animais lambem-nos e muitas vezes dormem connosco, como o referido galgo fazia com os donos, diz Colin Parrish.

Embora o galgo tenha recuperado, este caso canino está a gerar preocupação entre os donos de animais de estimação que se interrogam se podem contrair o vírus a partir dos seus cães ou gatos – e estão preocupados porque os seus animais de estimação podem estar em perigo.

Porém, de acordo com Colin Parrish, estes receios são amplamente infundados. “Não devemos exagerar ou entrar em pânico. O risco é muito reduzido.” Com dezenas de milhares de infeções humanas, se os cães fossem muito suscetíveis, “já teríamos muitos casos até agora”. Com um único caso documentado, Colin considera seguro passear os cães no parque.

Os cães podem transmitir o vírus?

No geral, sabe-se relativamente pouco sobre a varíola dos macacos nos animais de companhia, como cães e gatos, diz Jeff Doty, líder da equipa One Health de resposta à varíola dos macacos dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

O estudo que documenta o caso do galgo não detalha os sintomas do animal ou a gravidade da doença, mas os CDC compilaram uma lista de possíveis sintomas que os cães podem sentir: letargia, recusa em comer, tosse, congestão nasal e erupções cutâneas.

Ainda não se sabe ao certo se os cães que contraem este vírus o podem transmitir a outros cães ou animais selvagens, ou se podem retransmitir de volta aos humanos. Jeff Doty diz que isto depende da quantidade de vírus que propagam e da forma como o fazem.

E acrescenta que ainda não se sabe se os cães ou outras espécies conseguem efetivamente amplificar e, de seguida, libertar vírus suficiente para desencadear a doença. Apesar de os investigadores terem descoberto que alguns animais, como os cães da pradaria, aparentemente conseguirem propagar a varíola dos macacos nas secreções nasais e nas fezes, “simplesmente não sabemos se isto acontece com os cães”.

Colin Parrish sublinha que, hipoteticamente, se nos esfregarmos num cão com lesões, podemos apanhar o vírus, “mas o maior risco continua a ser o contacto entre humanos”.

Como proteger os nossos animais – e nós próprios

Embora o número de casos continue a aumentar, “a maioria da população em geral não corre o risco de contrair a doença”, disse em conferência de imprensa na semana passada Mike Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências de Saúde da Organização Mundial de Saúde. Mike Ryan acrescentou que “os animais em geral e os animais de estimação não representam de momento um risco para as pessoas”.

Na realidade, as pessoas representam mais risco para os animais. As agências de saúde pública sublinham que as pessoas que contraem a varíola dos macacos devem evitar o contacto com animais de estimação, gado ou outros animais em cativeiro, bem como animais selvagens.

Se os animais de estimação ainda não foram expostos, os CDC recomendam que os donos sintomáticos devem entregá-los a membros da família ou a outros cuidadores até recuperarem – e desinfetar a casa antes de os animais regressarem. Se isto não for possível, a agência recomenda o isolamento dos animais e uma quarentena de 21 dias.

Algumas pessoas podem não ter outra opção a não ser cuidar dos seus animais de estimação. “As precauções normais devem ser suficientes”, diz Colin Parrish, salientando a importância de usar roupas que cubram as erupções cutâneas, a lavagem das mãos, o uso de desinfetante e luvas e máscara perto dos animais – e mantê-los longe de lençóis ou toalhas contaminados. A gestão cuidadosa dos resíduos é fundamental para evitar a disseminação para outros animais na vizinhança que podem vasculhar o lixo.

Os CDC alertam que não devemos tentar banhar os animais de estimação em desinfetantes, quer seja álcool, desinfetante para as mãos ou outros produtos químicos que os possam envenenar.

No caso improvável de ser diagnosticado com varíola dos macacos e o seu animal de estimação apresentar lesões ou desenvolver dois ou mais sintomas dentro de 21 dias após a exposição, os CDC aconselham ligar ao veterinário.

É necessário vigilância. Existem vacinas humanas eficazes e “devemos tentar controlar e, se possível, erradicar o vírus nos humanos,”, diz Colin Parrish. Não existem vacinas licenciadas disponíveis para cães ou gatos.

“Precisamos de estar cautelosos”, diz Mike Ryan, porque quanto mais vírus se propagar, “mais pode evoluir”.

Transmissão de animal para humano

Tal como acontece com cerca de 60% das doenças humanas, a varíola dos macacos é zoonótica: teve origem nos animais e depois infetou pessoas. A varíola dos macacos recebeu esta designação em 1958, depois de ter sido descoberta em macacos em cativeiro usados para investigação na Dinamarca, mas é maioritariamente um vírus de roedores.

Os principais reservatórios animais de varíola dos macacos permanecem um mistério. Mas os especialistas em saúde pública sabem que os pequenos roedores – esquilos, ratos-gigantes-africanos e arganazes africanos – abrigam o vírus nas florestas tropicais de África Central e Ocidental, onde é endémico.

O primeiro caso humano foi diagnosticado em 1970, 12 anos após a varíola dos macacos ter sido identificada pela primeira vez. Durante décadas, as infeções foram provavelmente eventos de “transbordo”, com o vírus a saltar para as pessoas enquanto estas lidavam com animais infetados, ou enquanto os caçavam, matavam ou comiam.

Em 2010, começaram a surgir relatos de transmissão entre humanos e, em 2017, surgiu um surto localizado na Nigéria. Atualmente, o vírus já se propagou entre pessoas pelo mundo inteiro.

Novos hospedeiros?

Embora o risco para cães e gatos seja aparentemente reduzido, há informações limitadas sobre os tipos de animais que são suscetíveis à varíola dos macacos.

Os esquilos, macacos, grandes símios e alguns tipos de ratos e ratazanas podem ficar infetados, assim como ouriços, musaranhos, chinchilas e outros pequenos mamíferos. Há dúvidas sobre as vacas, já que um parente da varíola dos macacos –  a varíola bovina – infeta estes animais. Ainda não se sabe se os gatos, coelhos, hamsters, guaxinins, doninhas e outras espécies estão em risco.

Há a preocupação particular de que a varíola se possa infiltrar nas populações de roedores dos EUA, que geralmente vivem em grandes congregações sociais. As densas colónias de cães da pradaria estão nesta lista. Em 2003, um carregamento de 800 pequenos mamíferos importados do Gana para o Texas para o comércio de animais exóticos levou a varíola dos macacos para os EUA. Os cães da pradaria que estavam engaiolados ao lado destes mamíferos contraíram o vírus e infetaram 47 pessoas que os compraram e manusearam, ou que foram mordidas ou estavam simplesmente na mesma sala que os animais.

Mas há algumas boas notícias vindas de estudos em laboratório que mostram que as omnipresentes ratazanas urbanas do género Rattus, que infestam cidades pelo mundo inteiro, parecem desenvolver imunidade à varíola dos macacos em poucos dias após o nascimento, diz Jeff Doty.

O aumento de casos humanos tem colocado as autoridades de saúde pública em alerta máximo. O transbordo inverso de humanos para animais pode criar novos reservatórios endémicos e novas cadeias de transmissão, diz Andrea McCollum, epidemiologista da equipa de Resposta a Surtos de Varíola dos Macacos 2022 dos CDC.

“O que não queremos que aconteça”, diz Mike Ryan, da OMS, “é a doença passar de uma espécie para outra”. Isso poderia tornar a varíola dos macacos quase impossível de erradicar.

A adaptação a um novo hospedeiro permite a um vírus evoluir, com a possibilidade de se desenvolver e sofrer mutações de maneira diferente”, diz Rosamund Lewis, líder técnica da OMS para a varíola dos macacos. Isto significa que se pode tornar mais ou menos contagioso, mais fraco – ou mais virulento.

“Sabemos que há mudanças genéticas a acontecer”, diz Jeff Doty, “mas não sabemos o que podem significar para a suscetibilidade ou capacidade do vírus em infetar diferentes espécies animais”.

Contudo, quando os vírus zoonóticos contaminam uma nova espécie, geralmente é um beco sem saída, diz Sylvie Briand, diretora de prontidão global da OMS para os riscos infeciosos. “O vírus não avança mais porque não é muito adequado para essa espécie.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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