Frank Drake, pioneiro na busca por vida extraterrestre, morre aos 92 anos

Com uma vida dedicada a estudar o céu, as contribuições científicas de Frank Drake – e a sua equação homónima – tornaram-se fundamentais para os cientistas que procuram vida para além da Terra.

Por Michael Greshko
Publicado 7/09/2022, 12:09
Frank Drake

O astrónomo e astrofísico Frank Drake, aqui fotografado em Santa Cruz, na Califórnia, influenciou de forma indelével as investigações científicas que procuram outras civilizações na nossa galáxia.

Fotografia por Mark Thiessen, National Geographic

Frank Drake, o radioastrónomo e astrofísico americano que foi pioneiro na busca por vida extraterrestre, morreu no dia 2 de setembro na sua casa em Aptos, na Califórnia, aos 92 anos de idade.

Frank Drake contribuiu de inúmeras formas para a ciência. Fundador do campo científico envolvido na busca por inteligência extraterrestre (SETI), Frank desenvolveu a Equação de Drake, uma estrutura para estimar o número de civilizações possíveis na Via Láctea. Frank Drake fez as primeiras observações dos cinturões de radiação de Júpiter e foi um dos primeiros astrónomos a medir a temperatura abrasadora da superfície de Vénus e o efeito de estufa da sua densa atmosfera. Frank também foi diretor do observatório de rádio de Arecibo, em Porto Rico, e foi um mentor que serviu de inspiração para gerações de astrónomos e astrofísicos.

“Quando se escrever a história da ciência daqui a algumas centenas de anos, depois de termos detetado vida inteligente para além da Terra – algo que eu acredito piamente que irá acontecer – creio que Frank Drake vai ocupar um lugar de destaque entre os maiores cientistas que alguma vez existiram”, diz o astrofísico Andrew Siemion, diretor do Centro de Pesquisa SETI da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Foi incrível ter a oportunidade de o conhecer.”

Frank Drake nasceu em Chicago no dia 28 de maio de 1930. Frank começou a sua jornada intelectual rumo às estrelas por volta dos oito anos de idade, quando o seu pai lhe contou que havia outros mundos no espaço. O pai de Frank referia-se aos outros planetas do sistema solar, mas a mente do jovem Drake imaginou outros mundos como a Terra espalhados por toda a galáxia – planetas habitáveis com seres inteligentes o suficiente para terem as suas próprias versões de carros, ruas e cidades.

Frank Drake alimentou o seu fascínio pelo espaço ao longo de toda a sua educação e formou-se na Universidade de Cornell em 1951 com um bacharelato em física de engenharia. Membro do programa ROTC da Marinha de Cornell, Frank serviu de 1952 até 1955 como oficial de eletrónica na Marinha dos EUA. Depois estudou astronomia na Universidade de Harvard de 1955 até 1958, onde a sua orientadora de doutoramento foi Cecilia Payne-Gaposchkin, a astrofísica que propôs pela primeira vez que as estrelas eram compostas principalmente por hidrogénio e hélio.

Enquanto estudava em Harvard, Frank Drake teve a primeira oportunidade para testar as suas ideias de infância sobre outras Terras. Uma noite, Frank estava a observar o aglomerado estelar das Plêiades com um radiotelescópio, quando observou um sinal curioso que parecia mover-se ao lado do aglomerado. Seriam criaturas distantes a enviar uma transmissão? Este sinal acabou por se revelar uma transmissão de um operador de rádio amador nas proximidades, mas levou Frank Drake a pensar se um sinal de rádio artificial podia ter vindo do sistema estelar distante.

Depois de concluir o seu doutoramento, Frank Drake trabalhou no Observatório Nacional de Radioastronomia (NRAO) em Green Bank, Virgínia Ocidental, onde montou novos telescópios e fez as suas observações inovadoras sobre Júpiter e Vénus. Em 1960, com o telescópio Tatel de 25 metros de diâmetro do observatório, Frank embarcou naquilo a que chamou de Projeto Ozma, em homenagem ao líder do reino de O Feiticeiro de Oz da obra de L. Frank Baum. Este apelido pretendia evocar uma Terra semelhante à nossa, mas também estranha e alienígena.

Ao longo de três meses, Frank Drake observou estrelas semelhantes ao Sol – Tau Ceti e Epsilon Eridani – à procura de sinais de rádio vindas de planetas com civilizações extraterrestres. Não encontrou nenhuma, “mas foi um começo – e estimulou muitas outras pessoas a começar a procurar”, disse Frank Drake em entrevista em 2012.

O Projeto Ozma rapidamente chamou a atenção do público e, quando Drake tinha 31 anos, recebeu apoio da Academia Nacional de Ciências dos EUA para liderar um workshop inédito em Green Bank para discutir a busca por vida para além da Terra. Com uma lista brilhante de cientistas a participar no evento – incluindo o astrónomo Carl Sagan e o bioquímico de plantas Melvin Calvin, que venceu um Prémio Nobel durante essa cimeira – Frank Drake percebeu que precisava de uma forma de organizar os debates da reunião.

Para começar, Drake desceu até à cave debaixo do refeitório do observatório e começou a escrever uma lista de fatores que os astrónomos precisavam de saber para estimar o quão comuns eram as civilizações detetáveis por toda a Via Láctea. Estas quantidades incluíam o número de planetas a orbitar outras estrelas e as probabilidades de vida surgir num determinado planeta. Mais tarde, Frank percebeu que o seu esboço podia ser convertido numa equação para calcular o número de civilizações detetáveis na nossa galáxia com base nos valores das variáveis.

E foi assim que nasceu a Equação de Drake – não foi um momento inusitado de inspiração, mas sim um esboço ponderado para orientar os debates numa série de reuniões.

“Naquele momento, ele não fazia obviamente ideia no que esta equação se viria a tornar, o que viria a representar”, diz a sua filha, Nadia Drake, escritora colaboradora da National Geographic. “O facto de as pessoas tatuarem esta equação no seu corpo, figurar nas laterais de carrinhas de transportes, ou que seria rotineiramente citada como uma das equações mais conhecidas da ciência continuava a ser muito divertido para ele.”

Depois de trabalhar no Observatório Nacional de Radioastronomia, Drake trabalhou no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA como chefe da secção de ciências lunares e planetárias e, em 1964, ingressou na faculdade de astronomia da Universidade de Cornell. Frank Drake também foi diretor do Observatório de Arecibo, em Porto Rico, de 1966 até 1968, e do Centro Nacional de Astronomia e Ionosfera de Cornell, que geria o observatório de Arecibo, de 1971 até 1981.

Durante o seu mandato, Frank Drake supervisionou as atualizações feitas em Arecibo – que originalmente foi construído para monitorizar a atmosfera superior na investigação de defesa antimísseis – para tornar o observatório mais adequado para a investigação em astronomia. Frank presidiu a instalação de uma nova superfície na enorme antena parabólica do telescópio, tornando este instrumento muito mais sensível, bem como a adição de um novo radar capaz de detetar os movimentos de asteroides e de outros corpos planetários.

Frank Drake também desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do conceito de representação da humanidade nas mensagens enviadas para mundos distantes. Frank projetou a “mensagem de Arecibo” de 1974, um sinal de rádio que foi transmitido para um aglomerado de estrelas a cerca de 22.000 anos-luz de distância.

Em 1972, Drake foi um dos responsáveis pela Placa Pioneer, uma mensagem com imagens instalada nas naves Pioneer 10 e Pioneer 11 que incluía uma ilustração de um humano masculino e feminino, do nosso sistema solar e um mapa que identificava a posição do sol na galáxia. Frank também foi diretor técnico do Disco de Ouro da Voyager, o compêndio icónico com imagens e sons da Terra que, tal como a Placa Pioneer, é a mensagem da humanidade numa garrafa enviada para os mares espaciais.

Frank Drake deixou Cornell em 1984 e mudou-se com a família para a Califórnia, onde assumiu o lugar de reitor da Divisão de Ciências Naturais da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Quando abandonou este cargo em 1988, permaneceu na universidade como professor e foi recrutado para o recém-fundado Instituto SETI, onde foi presidente do conselho de curadores e diretor do Centro Carl Sagan para o Estudo da Vida no Universo. Frank Drake aposentou-se do ensino em 1996.

Os feitos académicos de Frank Drake são bastante variados, como se pode verificar no seu obituário da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz –  foi membro da Academia Americana de Artes e Ciências, membro da Academia Nacional de Ciências, presidente da Sociedade Astronómica do Pacífico, presidente do Conselho Nacional de Pesquisa em Física e Astronomia, e vice-presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Mas Frank Drake era mais do que a soma do seu trabalho. Canalizando a sua precisão matemática, Drake também foi lapidador amador, lapidando e polindo pedras preciosas para fazer joalharia para amigos e familiares. Frank também adorava cultivar orquídeas e chegou a ter centenas de plantas nas suas estufas em casa – e, durante algum tempo, fez o seu próprio vinho tinto, ganhando algumas medalhas pelo seu trabalho na Feira do Estado de Nova Iorque.

Nadia Drake diz que o pai também foi sempre muito brincalhão ao longo da vida. Quando Frank estava a viver em Ithaca no início da década de 1980, passou uma noite de Natal ao saltos na floresta com uma lanterna coberta de celofane – tudo para dar a Nadia e à sua irmã mais nova a alegria de verem Rodolfo, a rena ajudante do Pai Natal.

Esta veia de brincalhão também se estendeu à sua vida profissional. Quando o senador norte-americano William Proxmire propôs entregar o prémio “Golden Fleece” ao instituto SETI da NASA – com o objetivo de insultar o trabalho ali desenvolvido, algo que William Proxmire considerava ser um desperdício financiado pelo governo – Frank Drake tentou inscrever William Proxmire na Sociedade da Terra Plana. (Mas a petição de Drake foi rejeitada.)

Nos seus últimos anos de vida, Frank Drake assistiu a uma revolução na astronomia do século XXI, que aprofundaria o interesse científico no SETI e o desenvolvimento dos parâmetros da sua equação homónima – levando à descoberta de milhares de planetas a orbitar outras estrelas na Via Láctea.

Nadia Drake lembra-se de um dia em 2011, quando o telescópio espacial Kepler da NASA divulgou um gráfico que mapeava mais de 1.200 candidatos a planetas recém-descobertos no campo de visão do telescópio. Quando Nadia mostrou o gráfico ao pai, “ele fez uma pausa, e depois disse apenas que havia tantos planetas”, com a voz repleta de entusiasmo.

Graças ao telescópio Kepler e a outras missões, os astrónomos sabem agora que existem tantos planetas na Via Láctea como estrelas, cerca de 100 a 400 mil milhões. Entre estes, centenas de milhões podem ser planetas rochosos do tamanho da Terra que orbitam estrelas à distância correta para abrigar água líquida. Muitos astrónomos acreditam que, um dia, poderemos vir a encontrar indícios de vida num destes mundos distantes.

Tal como foi fantasiosamente previsto por um jovem Frank Drake há mais de 80 anos, talvez alguns destes planetas também tenha a sua própria versão de carros, ruas e cidades.

Para além da filha Nadia, Frank Drake deixa a esposa Amahl Shakhashiri Drake, com quem foi casado durante 44 anos; a filha Leila Drake Fossek; e os filhos de um casamento anterior Steve Drake, Richard Drake e Paul Drake; o seu irmão Bob Drake; uma sobrinha, um sobrinho e quatro netos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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