O que se segue à Ómicron? Novas variantes estão a emergir.

Apesar de ainda não terem recebido os seus próprios nomes gregos, muitas variantes do SARS-CoV-2 continuam a evoluir e a propagar.

Por Sanjay Mishra
Publicado 30/09/2022, 10:46
Pfizer-BioNTech contra a COVID-19

Um homem recebe a sua quinta vacina da Pfizer-BioNTech contra a COVID-19 em Telavive, no dia 22 de setembro de 2022. Em Israel, os especialistas estão a pedir às pessoas nos grupos de risco e com mais de 65 anos para receberem uma vacina adicional contra a COVID, que visa especificamente a variante Ómicron, estirpe que está a provocar a maioria dos casos no país.

Fotografia por Oded Balilty, AP

Durante os primeiros dois anos da pandemia, o público foi conhecendo o nome de cada nova variante de coronavírus que ia surgindo e que era mais eficaz a infetar ou a provocar doenças graves. Dez variantes com nomes gregos – desde Alfa a Mu – mataram milhões de pessoas. Depois, em novembro de 2021, surgiu a Ómicron, uma versão muito diferente do vírus. Nos últimos 10 meses, a Organização Mundial de Saúde não nomeou novas variantes, o que levanta a seguinte questão: será que o vírus parou de evoluir?

Durante os últimos três meses, morreram diariamente pelo menos 300 americanos de COVID-19, com cerca de 50.000 novas infeções por COVID-19 relatadas nos EUA em setembro – todas provocadas por novas sublinhagens da Ómicron – a BA.2, BA.2.12.1, BA.4 e BA.5. As taxas de infeção entre os residentes de lares de terceira idade nos EUA aumentaram nove vezes desde o final de abril e, em agosto, as taxas de mortalidade quase que quadruplicaram neste grupo, de acordo com dados compilados pelo Instituto de Políticas Públicas da AARP e pelo Centro de Gerontologia Scripps da Universidade de Miami, em Ohio. No Reino Unido, que muitas vezes serve de prenúncio para as tendências de COVID-19 nos EUA, as infeções sintomáticas têm aumentado constantemente desde 27 de agosto – o dia em que atingiram o nível mais baixo este ano – de acordo com o estudo ZOE COVID-19, um projeto baseado em aplicações nas quais os pacientes descrevem os seus sintomas no telemóvel. Embora a OMS não tenha classificado nenhum destes derivados recentes da Ómicron com uma letra grega, os especialistas receiam que estas variantes possam fragilizar as novas vacinas de reforço e tratamentos, levando a uma nova onda de infeções e mortes.

O coronavírus está constantemente a evoluir e a adquirir novas mutações; até agora, surgiram mais de 200 sublinhagens da Ómicron e derivados. “A evolução do SARS-CoV-2 não acabou”, diz Olivier Schwartz, chefe da Unidade de Vírus & Imunidade do Instituto Pasteur, em Paris.

Marion Koopmans, diretora do Centro Colaborador da OMS para doenças infeciosas emergentes e membro da missão da OMS designada para investigar as origens da pandemia de COVID-19, diz que “a situação está muito melhor do que antes”. Contudo, Marion alerta que, com o outono e o inverno a aproximarem-se, devemos permanecer vigilantes para outra vaga substancial. “Um maratonista não abranda a velocidade antes de chegar à meta.”

Variantes do SARS-CoV-2 continuam a evoluir

Sempre que o SARS-CoV-2, o vírus que provoca a doença COVID-19, se replica durante uma infeção, pode cometer erros e mudar um pouco. Estas mudanças, chamadas mutações, são aleatórias e geralmente têm poucas ou nenhumas consequências para o vírus. Se a mesma mutação aparecer e se propagar em populações não relacionadas, isto sugere que essa mutação oferece uma vantagem ao vírus. Estas mutações criam um novo ramo da árvore evolutiva do SARS-CoV-2. Os vírus que compõem este ramo são chamados “variantes”.

“Quanto mais o SARS-CoV-2 circular, mais pode mudar”, diz Maria Van Kerkhove, epidemiologista que lidera a resposta da OMS à COVID-19. Os cientistas também acreditam que as variantes semelhantes à Ómicron podem evoluir em pessoas com um sistema imunitário comprometido, onde o vírus pode persistir durante mais tempo enquanto ganha dezenas de novas mutações.

Algumas mutações podem ajudar uma variante a propagar-se mais facilmente ou podem provocar doenças mais graves. Outras podem alterar a aparência do vírus, permitindo que este evite a imunidade conferida por infeções ou vacinas anteriores e dificultando a sua deteção. Estas mutações também podem tornar ineficazes as terapias autorizadas. Quando isto acontece, a OMS rotula essa variante como variante de interessante ou preocupante.

Em maio de 2021, a OMS começou a atribuir letras do alfabeto grego a estes tipos de variantes. “Mas a OMS não nomeia todas as variantes”, diz Anurag Agrawal, presidente do Grupo Técnico Consultivo da OMS para a Evolução de Vírus, que faz recomendações sobre a nomenclatura de variantes. “A OMS só nomeia uma variante quando está preocupada com os riscos adicionais que exigem novas ações de saúde pública”, explica Anurag Agrawal.

Atualmente, todas as sublinhagens da Ómicron são consideradas variantes preocupantes porque partilham características semelhantes – propagam-se mais facilmente do que as variantes anteriores e podem evitar uma imunidade anterior. Felizmente, a infeção de uma subvariante da Ómicron continua a reduzir o risco de reinfeção por outra. As subvariantes também não parecem representar maiores riscos do que a variante parental Ómicron, diz Maria Van Kerkhove.

Variantes da Ómicron revelam saltos evolucionários

O aparecimento da Ómicron, há menos de um ano, representou uma grande mudança na evolução do SARS-CoV-2. Desde novembro de 2021, mais de metade das infeções por COVID-19 pelo mundo inteiro provavelmente foram provocadas por uma das cinco subvariantes da Ómicron: BA.1, BA.2, BA.3, BA.4 e BA.5. Devido à capacidade da Ómicron em evitar a imunidade conferida pelas variantes anteriores, os cientistas, incluindo Olivier Schwartz, sugeriram que a Ómicron podia até ser considerada um serotipo distinto de SARS-CoV-2 – um vírus tão diferente das variantes anteriores que os anticorpos gerados contra uma não protegem suficientemente contra outra. Por exemplo, o vírus da gripe tem três serotipos: Gripe A, B e C.

Nos últimos meses, a Ómicron BA.2 gerou uma série de variantes, incluindo a BA.2.75, BA.2.10.4, BJ.1 e BS.1. Estas variantes, algumas com dezenas de novas mutações, são tão diferentes da variante parental BA.2 que os cientistas dizem que se tratam de variantes de “segunda geração”. Uma variante de segunda geração representa um grande salto evolutivo das linhagens variantes anteriores sem pequenos passos intermédios.

Na escala evolutiva, as variantes recém-propagadas, como a BA.2.75, são mais divergentes da Ómicron original do que a Alfa, Beta, Gama e Delta eram das linhagens ancestrais, diz Thomas Peacock, virologista do Imperial College de Londres. Todas as mutações nas variantes iniciais parecem mais pequenas em comparação com a Ómicron e subvariantes, acrescenta Thomas Peacock.

“Uma subvariante potencialmente preocupante é a BA.2.75.2, que tem mutações adicionais em comparação com a BA.2.75 e parece ser particularmente resistente aos anticorpos”, diz Olivier Schwartz.

Apesar de a OMS não ter atribuído a estas novas variantes um nome do alfabeto grego, Yunlong (Richard) Cao, imunologista da Universidade de Pequim, diz que “é definitivamente inapropriado dizer que não houve novas variantes desde novembro de 2021”.

A BA.5 é atualmente predominante em muitos países e a BA.2.75 é predominante noutros. Ambas são capazes de iludir o sistema imunitário de pessoas que foram vacinadas e/ou sofreram uma infeção, embora as vacinas atuais ainda possam ser eficazes.

“O que estamos a observar agora é que a evolução continua”, diz Marion Koopmans. Isto é o que seria de esperar quando há uma combinação entre circulação substancial e maior imunidade adquirida. “Portanto, esperamos encontrar mais variantes.”

Continua a haver um debate sobre o quão útil é agrupar todas as subvariantes da Ómicron. Embora as linhagens da Ómicron BA.1, BA.2 e BA.5 tivessem proximidade  suficiente para serem chamadas Ómicron, alguns cientistas acreditam que as novas variantes são distintas o suficiente para receberem um novo nome do alfabeto grego.

“Alguns destes novos vírus são geneticamente tão distintos quanto as variantes originais, ou seja, ainda não se sabe ao certo se devemos continuar a pensar neles como se continuassem a ser Ómicron”, diz Thomas Peacock.

A equipa da OMS discorda. “Se qualquer variante ou subvariante for significativamente diferente de outras variantes ou subvariantes da Ómicron, irão receber um novo nome”, diz Maria Van Kerkhove. “Contudo, neste momento, todas estas subvariantes são consideradas Ómicron, são todas variantes preocupantes e exigem todas ações cuidadosas por parte das nações.”

Como não existem dados humanos fiáveis para indicar que as novas subvariantes da Ómicron são mais graves do que as outras, diz Anurag Agrawal, as medidas de saúde pública permanecem as mesmas.

Enquanto isso, o diagnóstico precoce, o atendimento clínico precoce, o uso adequado dos tratamentos disponíveis e a vacinação continuam a ser necessários para reduzir a propagação do vírus e reduzir as probabilidades de emergirem novas variantes, diz Maria Van Kerkhove. “Podemos viver com a COVID-19 com responsabilidade e tomar medidas simples para reduzir a sua propagação, como o distanciamento social, uso de máscara, ventilação adequada, limpeza das mãos e ficar em casa se não estivermos bem.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co

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