Consegue perceber-se se alguém está a mentir? Eis o que dizem os peritos.

Os nariz não cresce – mas não é inédito surgirem sinais físicos que revelam as mentiras. Eis o que procuram os especialistas que tentam detetar comportamento desonesto.
Fotografia por Disney+
Por Dominic Bliss
Publicado 16/09/2022, 11:42

Para revelar uma mentira, o nariz do Pinóquio não podia ser mais óbvio. Num determinado momento do romance original de Carlo Collodi, o nariz de Pinóquio cresce tanto que o menino marioneta nem sequer se consegue virar dentro de casa. É a revelação definitiva de uma mentira.

Com a chegada de uma nova adaptação com atores reais de Pinóquio, as pessoas podem debruçar-se mais uma vez nos eventuais sinais físicos de contar mentiras. E embora as manifestações físicas na vida real raramente sejam tão dramáticas, não são inéditas. (A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic.)

Em 1993, houve um caso médico de um homem de 51 anos que, ao contar mentiras, sofria efeitos muito mais debilitantes do que Pinóquio alguma vez sofreu. Numa carta publicada na revista científica Journal of Neurology, Neurosurgery, and Psychiatry, médicos dos hospitais universitários de Estrasburgo, em França, descreveram um paciente infeliz que perdia regularmente a consciência e sofria convulsões. “Mais de um terço dos ataques ocorriam quando o paciente estava a mentir”, relataram os médicos.

Após os exames, descobriu-se que o infeliz paciente tinha um tumor de 30 milímetros no cérebro. Os médicos sugeriram que as emoções que o paciente sentia ao mentir agitavam o lobo límbico no seu cérebro e, por sua vez, desencadeavam uma forma rara de epilepsia.

Uma história de enganos

De acordo com um estudo feito na década de 1990, publicado na Journal of Personality and Social Psychology, o ser humano conta cerca de duas mentiras por dia. Há até evidências de que os primatas podem usar o chamado engano tático.

Joana d'Arc é interrogada pelo Cardeal de Winchester na sua cela no castelo de Rouen, em 1431, numa pintura de Paul Delaroche. O seu interrogatório exaustivo de caráter visava determinar se Joana d’Arc era culpada de heresia e feitiçaria ao comunicar diretamente com Deus. Joana d’Arc foi queimada na fogueira em Rouen no final do mesmo ano.

Fotografia por The Print Collector / Alamy

A maioria das nossas mentiras são as chamadas mentiras brancas, ou mentiras praticamente inofensivas. No entanto, em áreas como a aplicação da lei, espionagem e seguros, distinguir a verdade da mentira é um requisito vital; por vezes é até uma questão de vida ou morte. Mas como é que se consegue distinguir a diferença?

Durante grande parte da existência humana, a identificação de mentiras dependeu de rituais religiosos e supersticiosos – por vezes bárbaros – como os julgamentos por combate, provação ou tortura. Na China da antiguidade, os suspeitos eram obrigados a mastigar um pouco de arroz cru e, se depois o cuspissem seco, eram considerados culpados – provavelmente um ritual baseado na ideia de que o medo secava a saliva na boca.

Na Índia antiga, os suspeitos eram obrigados a ficar numa tenda escura e a puxar a cauda suja de um “burro sagrado” que, de acordo com as crenças da altura, iria zurrar para identificar os culpados. Ao sair da tenda, quem tivesse as mãos limpas era considerado criminoso, porque a culpa impedia-os de ter confiança para puxar a cauda.

No final do século XIX, felizmente, estes métodos começaram a tornar-se mais científicos, analisando primeiro as mudanças na pressão arterial das pessoas e, mais tarde, nos seus padrões respiratórios. Na década de 1930, o inventor americano Leonarde Keeler adicionou a resposta galvânica da pele como uma terceira métrica, para medir os níveis de transpiração. A máquina daí resultante ficou famosa como um dispositivo de interrogação “suave” – e, até hoje, o polígrafo moderno continua a usar estes três fatores para determinar se alguém está a mentir.

Mas as máquinas não são de todo infalíveis. De acordo com a Associação Americana de Psicologia, “a maioria dos psicólogos concorda que há poucas evidências de que os testes do polígrafo consigam detetar mentiras com precisão”. A grande maioria das jurisdições de todo o planeta rejeita os resultados do polígrafo como inadmissíveis em tribunal.

John Larson demonstra como funciona uma máquina de polígrafo, ou ‘detetor de mentiras’, na Universidade Northwestern por volta de 1936. Esta máquina, construída no início do século XX por vários cientistas que foram adicionando outras métricas, usa uma combinação de fatores que vão desde a pressão arterial e respiração à resposta galvânica da pele para inferir se uma pessoa está a mentir.

Sinais não-verbais

Contudo, será que existem gestos físicos e faciais que os mentirosos costumam demonstrar? Joe Navarro é um ex-interrogador do FBI que trabalhou em contraespionagem e contraterrorismo. Joe Navarro chegou até a treinar jogadores de póquer para identificar e disfarçar a linguagem corporal. Se há alguém que consegue detetar os sinais de um mentiroso é Joe Navarro.

“Não existe um efeito Pinóquio”, diz Joe Navarro com toda a convicção à National Geographic (Reino Unido). “As pessoas pensam e ensinam de forma errada que, se alguém tocar na boca, por exemplo, ou cobrir o nariz, ou olhar numa determinada direção, esses comportamentos são indicativos de engano. Mas há uma vasta investigação que demonstra que não há um único comportamento que sinalize uma mentira.”

Durante os 25 anos em que trabalhou para o FBI, Joe Navarro diz que realizou mais de 10.000 entrevistas com várias testemunhas e suspeitos. Joe refere que tanto os inocentes como os culpados podem apresentar sinais de desconforto psicológico e o que se conhece por “comportamento pacificador” – mãos trémulas, transpiração, rubor, movimentos dos olhos, tocar no rosto, morder os lábios, piscar profusamente ou falar com uma voz irregular, por exemplo.

“Não existe um efeito Pinóquio... há uma vasta investigação que demonstra que não há um único comportamento que sinalize uma mentira.”

Joe Navarro

“Muitas vezes, trata-se apenas dos nossos corpos a refletir a forma como nos sentimos perante a situação que estamos a viver”, acrescenta Joe Navarro. De facto, sob interrogatório policial, até os inocentes tendem a ficar nervosos.

Joe Navarro lembra-se de uma ocasião em que estava a interrogar uma mulher suspeita de um crime de colarinho branco. Joe estava a tentar ao máximo mantê-la calma, porém, antes sequer de começar a falar sobre o crime, a mulher já estava a morder o lábio, a sacudir o cabelo e a tocar na garganta, logo abaixo da traqueia – conhecida por incisura supraesternal. Este último gesto, diz Joe Navarro, é uma forma de autoproteção nervosa que remonta aos tempos pré-históricos, quando os primeiros humanos protegiam a jugular do ataque de predadores.

Dadas as reações físicas da mulher, Joe Navarro ficou convencido de que era culpada. No entanto, a mulher estava muito nervosa, mas não era culpada. A mulher tinha simplesmente estacionado o carro nas imediações e sabia que o parquímetro estava prestes a terminar. “Ela não estava relacionada com o crime”, conclui Joe Navarro.

O póquer é um jogo que se baseia em enganar habilmente os adversários – daí a famosa expressão ‘poker face’, algo que se destina deliberadamente a eliminar os indicadores inconscientes de mentira. O escrutínio intenso dos jogadores na mesa leva a muitas especulações sobre as jogadas, sobretudo quando as apostas são altas e os jogadores estão sob pressão.

Fotografia por Jeff Gilbert / Alamy

Sinais verbais

Portanto, será que é melhor analisar as palavras dos suspeitos em vez dos seus gestos? A Dra. Abbie Maroño é docente universitária de psicologia e doutorada em análise comportamental. Abbie Maroño é também diretora do departamento de educação na empresa de consultoria de segurança Social-Engineer, LLC. Abbie Maroño diz que há determinadas pistas verbais que podemos procurar ao tentar identificar um mentiroso.

As inconsistências factuais são um indicador-chave. Os detetives da polícia geralmente exigem aos seus suspeitos que repitam memórias ou álibis várias vezes – na tentativa de identificar discrepâncias nos seus testemunhos.

Abbie Maroño diz que os mentirosos também têm tendência para usar algo chamado “técnicas de auto-incapacitação”. “Usam frases como ‘não me lembro’ ou ‘já foi há algum tempo e acho que me esqueci’. Isto é mais provável de acontecer com pessoas que estão a mentir”, diz, Abbie Maroño, salientando que alguns políticos são exímios nesta arte de enganar.

As pessoas verdadeiramente sinceras geralmente fornecem mais detalhes sob interrogatório. “As pessoas que mentem tendem a simplificar as suas histórias, fornecem informações estereotipadas que lhes são facilmente acessíveis”, diz Abbie Maroño. “Porque se tiverem de se lembrar [das informações] mais tarde, podem ser facilmente apanhadas. Por outro lado, as pessoas que dizem a verdade são mais propensas para relatar detalhes intrincados.”

Depois, também há os sobressaltos inconscientes. Durante o tempo que trabalhou no FBI, Joe Navarro interrogou muitos suspeitos de homicídio. Joe lembra-se de um incidente em que uma mãe alegava que alguém tinha raptado o seu bebé. Joe Navarro foi chamado a interrogar em nome do departamento do xerife e observou que a mulher se referia várias vezes ao filho no pretérito perfeito. “De facto, a mulher tinha assassinado o próprio filho”, recorda Joe Navarro.

Porém, os deslizes verbais não são indicadores infalíveis de falsidade. Aldert Vrij é docente de psicologia na Universidade de Portsmouth e, no seu livro, Detecting Lies and Deceit: Pitfalls and Opportunities, Aldert Vrij enfatiza que os interrogadores experientes muitas vezes não conseguem reconhecem as falsidades.

O traço de polígrafo de um interrogatório do século XX mostra os valores de várias respostas fisiológicas. Muitos psicólogos consideram agora o polígrafo um indicador falível – e que as respostas fisiológicas à desonestidade são altamente idiossincráticas.

“As investigações indicam que mesmo os caçadores profissionais de mentiras, como os funcionários alfandegários e polícias, tomam muitas vezes decisões incorretas e que a sua capacidade de distinguir a verdade da mentira normalmente não excede a de qualquer leigo”, escreve Aldert Vrij. “Uma [razão] pela qual até mesmo as pessoas motivadas não conseguem apanhar os mentirosos é porque a deteção de mentiras é difícil. Talvez a grande dificuldade se deva ao facto não haver uma resposta verbal, não-verbal ou fisiológica que esteja exclusivamente associada ao engano. Por outras palavras, o equivalente ao nariz a crescer do Pinóquio não existe.” Aldert Vrij explica que não há uma resposta única que possa ser invocada por qualquer pessoa ou máquina na deteção de mentiras. Outra das dificuldades, acrescenta Aldert Vrij, os mentirosos que estão motivados para não serem apanhados podem tentar exibir respostas não-verbais, verbais ou fisiológicas que acreditam causar uma impressão honesta nos detetores de mentiras. Os mentirosos que empregam estes tipos de medidas conseguem de facto enganar os detetores profissionais de mentiras.”

Contudo, nada disto serve de consolo ao referido paciente de 51 anos de Estrasburgo, que costumava ter convulsões e desmaiar quando mentia. Felizmente, os seus médicos acabaram por lhe prescrever um medicamento anticonvulsivo chamado Carbamazepina, que funcionou.

Mas não há uma cura semelhante para o pobre Pinóquio.

Pinóquio já está disponível no Disney+.

Dominic Bliss é um jornalista freelancer sediado em Londres. Pode encontrá-lo no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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