A COVID-19 pode despoletar depressão?

Os especialistas dizem que sim – mas não pelas razões que seriam de esperar.

Por Stacey Colino
Publicado 19/10/2022, 08:59
depressão pós-COVID

As pessoas com depressão pós-COVID sentem-se muitas vezes incompreendidas porque, apesar de terem recuperado dos sintomas agudos, ainda não se sentem exatamente elas próprias.

Fotografia por Juan Mabromata , AFP via Getty Images

Quando Glo Lindenmuth adoeceu com COVID-19 em dezembro de 2021, ficou com congestão nasal e sentiu-se exausta durante cerca de uma semana; o olfato e o paladar desapareceram durante duas semanas. Glo Lindenmuth já conhecia estes sintomas antes de contrair o vírus e não ficou surpreendida. Mas a tristeza e a dificuldade em dormir que surgiram semanas depois de ter recuperado da COVID apanharam-na desprevenida.

“Tive depressão na adolescência, mas isto era muito pior”, explica Glo Lindenmuth, de 30 anos, que trabalha em comunicação corporativa em Nova Iorque. Para além de se sentir subitamente em baixo, Glo tinha dificuldade em dormir e pesadelos. Quando estava acordada, o cérebro estava confuso e tinha pensamentos sombrios – muitas vezes sobre magoar-se a si própria. E apesar de Glo ser normalmente dinâmica e extrovertida, agora estava assoberbada com uma sensação de ansiedade social. “Cancelava os planos com os amigos, aos fins de semana dormia o dia inteiro e evitava a maioria dos telefonemas e mensagens.”

Os sintomas de Glo Lindenmuth duraram mais de dois meses.

Na primavera, Glo começou a sentir-se um pouco melhor, mas depois foi apanhada por outra vaga intensa de depressão que se prolongou de meados de junho até meados de agosto. Foi quando Glo consultou um psiquiatra comportamental que a diagnosticou com depressão.

Estima-se que milhões de pessoas estão a descobrir que continuam a sentir-se deprimidas, exaustas, apáticas, ansiosas ou emocionalmente sensíveis, mesmo depois de pensarem que recuperaram da COVID-19.

Num estudo feito com base em milhões de pessoas que usaram o sistema de saúde do Departamento de Veteranos dos EUA, “percebemos que tínhamos uma nação em perigo devido ao caos da pandemia e dos confinamentos”, diz Ziyad Al-Aly, diretor do centro de epidemiologia clínica da Universidade de Washington em St. Louis, no Missouri, e coautor da investigação. Ziyad Al-Aly e os seus colegas queriam perceber se as pessoas que contraíram COVID-19 tinham maior risco de sofrer de problemas de saúde mental depois de os sintomas da doença desvanecerem. “A resposta foi um contundente sim. As pessoas com COVID estavam muito, muito pior.”

De acordo com uma investigação publicada na edição de junho de 2022 da revista CNS Drugs, 35% das pessoas relataram sintomas depressivos após recuperarem da COVID. Isto pode não ser simplesmente porque perderam dias ou semanas das suas vidas regulares devido à COVID. Pode dar-se o caso de sofrerem de um fenómeno pouco conhecido chamado depressão pós-viral, que provavelmente é desencadeado por alterações inflamatórias, stress psicológico e outros fatores.

Estes sintomas geralmente “aparecem entre dois a três meses após o início da COVID-19 e aparentemente duram vários meses”, diz Madhukar Trivedi, psiquiatra e diretor fundador do Centro de Pesquisa e Cuidados Clínicos da Depressão no Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, em Dallas. “Não há forma de prever quem irá ter efeitos transitórios ou quem terá efeitos persistentes.”

A magnitude do fenómeno

A ligação entre doenças virais e depressão não é nova, mas tem sido mais amplamente reconhecida e compreendida nas últimas décadas. Um estudo publicado numa edição de 2016 da revista Brain, Behavior, and Immunity, por exemplo, descobriu que as pessoas doentes com gripe nos 30 a 180 dias anteriores tinham um risco 57% mais elevado de sofrer de uma nova depressão, em comparação com as que escaparam ao vírus. A depressão pós-viral, segundo os especialistas, também pode ocorrer com o vírus Epstein-Barr, que provoca a mononucleose, e com outros vírus não específicos.

O estudo de Ziyad Al-Aly, publicado em fevereiro de 2022 na BMJ, descobriu que as pessoas que estiveram doentes com COVID tinham um risco 35% mais elevado de desenvolver um transtorno de ansiedade e um risco 39% superior de sofrer um ataque de depressão um mês após a doença; estes casos foram acompanhados pelo aumento do uso de antidepressivos e benzodiazepinas.

Esta descoberta está longe de ser um caso isolado. Um estudo publicado na edição de abril de 2022 da Journal of Neurology descobriu que os níveis elevados de apatia e ansiedade eram comuns entre os sobreviventes de COVID que continuavam a apresentar sinais de fadiga oito meses após a doença. E num estudo publicado na edição de maio de 2022 do The Lancet, os investigadores acompanharam a trajetória da saúde mental de pessoas em seis países europeus que adoeceram com COVID – mas que não foram hospitalizadas – e descobriram que estes indivíduos tinham maior prevalência de depressão nos meses seguintes, principalmente os que ficaram acamados devido à doença.

Os mecanismos por trás do sofrimento

Não se sabe exatamente como é que a COVID-19 desencadeia a depressão, mas existem várias hipóteses. O vírus SARS-CoV-2 pode provocar mais inflamação no cérebro e ativar as células micróglias, células imunitárias no sistema nervoso central que produzem moléculas inflamatórias, explica Ziyad Al-Aly. “A inflamação pode afetar as regiões do cérebro que regulam o afeto e as emoções – pode aumentá-las ou diminuí-las.”

Outra teoria é a de que o vírus pode atacar o revestimento dos vasos sanguíneos, algo que pode comprometer o abastecimento de sangue e oxigénio ao cérebro e perturbar áreas que regulam a emoção, acrescenta Ziyad Al-Aly.

Uma terceira hipótese sugere que o vírus pode perturbar a diversidade e o equilíbrio das bactérias no intestino – o microbioma intestinal – algo que, por sua vez, pode alterar os níveis de determinados neurotransmissores, os mensageiros químicos que transmitem sinais nervosos pelo corpo e cérebro e estão envolvidos na regulação do humor. “O que é realmente evidente é que o efeito do vírus na saúde mental é um fenómeno biológico – não é imaginado”, diz Ziyad Al-Aly.

Isto não significa que não existem elementos psicológicos em jogo. O isolamento prolongado e os sentimentos de solidão durante a doença podem contribuir para a depressão pós-COVID, diz Pravesh Sharma, psiquiatra da Faculdade de Medicina e Ciências Mayo Clinic em Eau Claire, no Wisconsin. Quando se trata de depressão pós-COVID, “por vezes as pessoas pensam 'porquê eu?'” diz Pravesh Sharma. “Isto cria muitos pensamentos negativos e afeta a forma como as pessoas funcionam na sua vida diária.” Estes fatores podem desencadear um ciclo vicioso que aprisiona as pessoas num estado depressivo.

Para agravar a situação, as pessoas com depressão pós-COVID sentem-se muitas vezes incompreendidas. “As suas famílias não compreendem porque é que não superam isto, dado que já não estão doentes”, diz Dawn Potter, psicóloga clínica que dirige grupos de apoio para pessoas com COVID longa na Cleveland Clinic. “Para além disso, estas pessoas não sabem quando é que os seus sintomas vão desaparecer ou o que pode ajudar, e estão com medo. E é normal as pessoas terem receio de apanhar COVID novamente.” Algumas pessoas também estão preocupadas com os potenciais efeitos a longo prazo de uma infeção por COVID, algo que pode contribuir para a instabilidade emocional depois de adoecerem, segundo os especialistas.

Quem é vulnerável e porquê

Embora as investigações sobre esta matéria sejam poucas porque a COVID-19 ainda é relativamente recente, os especialistas acreditam que as pessoas com um histórico anterior de depressão ou ansiedade correm mais risco de desenvolver depressão pós-COVID. “O que estou a ver na minha prática clínica são pessoas que sofrem de depressão após terem COVID, ou que os efeitos são exacerbados pela COVID se as pessoas já sofreram de depressão”, diz Dawn Potter. “Podiam estar em remissão ou serem casos menos graves.”

As outras pessoas que correm maior risco de depressão pós-COVID, segundo os especialistas, incluem indivíduos que já sofrem de níveis elevados de stress pré-infeção, comorbilidades – obesidade, asma, hipertensão, diabetes – e doenças mais graves juntamente com COVID-19.

Em alguns casos, a depressão pode ocorrer como parte da síndrome de COVID longa, que pode incluir problemas persistentes que afetam a memória, as capacidades de raciocínio e concentração, provocam alterações de humor, fadiga e perturbam as aptidões organizacionais, como por exemplo a dificuldade em gerir medicamentos ou dinheiro. Dyani Lewis, de 44 anos, viveu este fenómeno em primeira mão depois de contrair COVID em março de 2022. Apesar de ter um caso ligeiro – “já tive constipações piores”, diz Dyani – cerca de uma semana após a infeção ter passado, Dyani sentiu diariamente dores de cabeça, teve tonturas que pareciam um enjoo perpétuo, sentia-se exausta e estava desmotivada. Dyani já tomava um inibidor seletivo de serotonina (SSRI) para a depressão desde 2019 e os seus sintomas de humor estavam bem controlados – até que de repente já não estavam.

“Tinha dificuldade em acabar o trabalho e não tinha energia para as minhas filhas”, diz Dyani Lewis, jornalista freelancer na área da ciência e mãe de duas filhas que vive em Melbourne, na Austrália. “Saber até que ponto o SARS-CoV-2 exacerbou diretamente a minha depressão, ou se criou apenas as circunstâncias certas para eu me sentir miserável, eu não sei.” Dyani Lewis está no processo de mudar de medicação para a sua depressão e regressou aos exercícios físicos leves, para melhorar o seu humor e ganhar energia.

Os especialistas dizem que não estão a observar padrões claros de género na depressão pós-COVID. Mas um estudo publicado na edição de janeiro de 2022 da Journal of Psychiatric Research descobriu que, em Itália, entre os sobreviventes de COVID-19 que apresentaram sintomas psiquiátricos, os homens revelaram níveis elevados de ansiedade e depressão aos seis meses e sintomas ainda mais graves passados 12 meses; as mulheres passaram por episódios mais graves de depressão logo após a infeção, mas aos seis meses os sintomas eram muito menos severos e continuaram a diminuir até aos 12 meses. Os investigadores salientam que isto pode acontecer porque os homens têm uma resposta imunitária pró-inflamatória mais forte do que as mulheres, algo que pode levar a uma inflamação sustentada nos seus corpos e cérebros após uma infeção por COVID. Outra explicação pode dever-se ao facto de estas pessoas terem menos propensão para procurar ajuda profissional para lidar com desafios de saúde mental.

Reivindicar um melhor estado de espírito

Apesar de alguns casos de depressão pós-COVID passarem naturalmente com o tempo, não há motivo para ficar parado a sofrer. “É importante não dizer simplesmente que isto se deve à COVID e não fazer nada”, diz Madhukar Trivedi, “porque pode durar mais tempo do que pensa”.

“Praticar atividades físicas ou exercício regularmente, que possuem propriedades anti-inflamatórias e efeitos antidepressivos, poderá ajudar a sentir-se melhor tanto mental como emocionalmente”, acrescenta Madhukar Trivedi. Procure apoio social junto dos seus amigos e familiares e/ou grupos de apoio na sua comunidade. E adote hábitos alimentares saudáveis, como a dieta mediterrânea – que é rica em frutas, legumes, vegetais, grãos integrais, peixe e azeite – porque os estudos revelam que esta dieta está associada a um menor risco de desenvolver depressão. Para além disso, um estudo publicado numa edição de 2019 da revista PLoS One descobriu que uma intervenção dietética saudável pode começar a ter efeitos em menos de três semanas, reduzindo os sintomas de depressão.

Também é importante preparar o terreno para dormir melhor, porque “os problemas do sono e a depressão andam de mãos dadas – é uma questão bidirecional”, diz Dawn Potter. Simplificando, um sono mau pode afetar o humor e a depressão pode comprometer a qualidade do sono. “Se conseguir começar a dormir melhor, isso geralmente ajuda no humor.” Para isso, Dawn recomenda um foco nos hábitos pré-sono, fazer um esforço concertado para diminuir as luzes, evitar os ecrãs digitais durante a noite e ir para a cama e acordar à mesma hora, dia após dia, para manter um ciclo consistente entre dormir-despertar.

Não é preciso alterar os esforços que está a fazer para se sentir melhor com modificações no estilo de vida. Dependendo da gravidade dos seus sintomas, pode beneficiar de terapia, particularmente da terapia cognitivo-comportamental (TCC) – que auxilia a mudar os padrões nocivos de pensamento para outros mais benéficos. Outra abordagem útil é a ativação comportamental, uma capacidade que geralmente está integrada na TCC e envolve o estabelecimento de objetivos que o irão ajudar a sair e a fazer coisas que podem melhorar o seu humor, diz Jed Magen, médico osteopata especializado em psiquiatria infantil e adolescente na Universidade do Michigan, em East Lansing.

Com a ajuda de antidepressivos, terapia e ao partilhar as suas experiências com a sua rede social, Glo Lindenmuth começou a sentir-se melhor. Aos poucos, Glo começou a fazer mais exercício e redescobriu o seu amor pela cozinha, pela dança e por passar tempo com os amigos. “Agora sinto-me ótima e tenho a energia que costumava ter”, diz Glo. “Também recuperei a minha criatividade e uma sensação de clareza que não tinha há muito tempo. Estou feliz por estar do outro lado do pior.”

Quando se trata de viver com uma depressão pós-COVID e obter alívio da mesma, Glo Lindenmuth está em boa companhia. “Gostaria que as pessoas soubessem que a depressão pós-COVID é muito, muito comum e que há esperança – as investigações mostram que existem maneiras de tratar a depressão pós-COVID, assim como existem para as outras formas de depressão”, diz Dawn Potter. “Mesmo que não seja uma coisa completamente compreendida, não estamos a reinventar a roda.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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