Com a fertilidade masculina em queda vertiginosa, descubra o papel da dieta e do estilo de vida

Perante uma queda de quase 60% no número de espermatozoides nos últimos 40 anos, o estilo de vida e a dieta podem ajudar a combater ou a promover esta tendência na fertilidade masculina ocidental.

Por Filipa Coutinho
Publicado 21/10/2022, 14:33
Saúde sexual

As escolhas de vida que fazemos, como a atividade física e aquilo que ingerimos, têm um impacto na saúde sexual que não deve ser menosprezado.

Fotografia por Melissa Farlow

Este é um tema que muitas vezes fica à porta de casa. Continua a ser frequentemente associado à mulher, no entanto, o estilo de vida e a dieta de um homem podem ter tanto impacto na conceção como os de uma mulher.

Assistimos desde a década de 1970 a um tombo na quantidade de espermatozoides, o que se reflete na fertilidade do homem no mundo ocidental. Além disso, cada vez mais casais têm dificuldade em ter filhos ou demoram mais a conseguir concretizá-lo. A literatura varia na distribuição das causas, mas é unânime em atribuir uma fatia às mulheres, outra aos homens e os restantes casos a um cocktail de problemas dos dois membros do casal.

Além dos efeitos na fertilidade, vários estudos epidemiológicos fazem uma correlação entre o sémen com menos qualidade e uma vida mais curta e com maior propensão a doenças e problemas de saúde. Não menos preocupantes são os resultados sobre a propagação dos efeitos nocivos em espermatozoides à descendência, influenciando a saúde dos filhos biológicos.

Num assunto que dá pano para mangas, focamo-nos em resultados de investigações que reportam um declínio acentuado na qualidade do sémen e exploramos como o estilo de vida e a dieta podem ter impacto no potencial reprodutivo masculino, consultando a opinião de vários investigadores portugueses. Alertamos que a análise do tema nesta peça não dispensa, em nenhum caso, exames médicos e a consulta de profissionais de saúde.

Os porquês

As causas de infertilidade masculinas vão desde a dilatação das veias dos testículos ao consumo de álcool, estupefacientes ou tabaco, que reduzem o número de espermatozoides saudáveis. O próprio envelhecimento leva a uma redução no número e qualidade dessas células. Outros fatores podem afetar a produção, mobilidade e função dos espermatozoides, como fontes de calor próximas ou pesticidas. Isso explica como atividades profissionais como a de chef de cozinha, motorista ou agricultor apresentam um risco maior.

O consumo de produtos alimentares com uma alta taxa de pesticidas tem especial impacto em países como a Bélgica, a Noruega, a Alemanha e os Países Baixos, mas Portugal não está mais protegido. Foi publicado recentemente um relatório da ONG Pesticides Action Network Europe que indica que a fruta de outono europeia, incluindo a portuguesa, está altamente contaminada com pesticidas indesejáveis. Dos frutos analisados, as peras portuguesas são das mais contaminadas da Europa.

De acordo com um estudo recente em que participaram investigadores da Universidade do Porto, também uma dieta rica em gordura na infância deixa marcas permanentes na produção e qualidade dos espermatozoides, mesmo em homens que adotem um estilo de vida saudável na vida adulta. Um dos investigadores envolvidos no trabalho, Marco Alves, foi eleito o melhor especialista do mundo em fertilidade, pela plataforma Expertscape. À conversa com a National Geographic, explicou que os resultados “demonstram que se existir um comportamento alimentar inadequado durante o período que vai até à adolescência e for feita uma correção após esse período, há perda de peso e reversão de características de desregulação metabólica, mas a qualidade espermática não é totalmente recuperada”. O impacto pode afetar pelo menos as duas gerações seguintes.

Apesar de ser um tema recente, nos últimos anos foram conduzidos bastantes estudos que não deixam dúvidas sobre os efeitos negativos de determinados estilos de vida, da influência da dieta e da constante exposição a poluentes presentes no ambiente na qualidade dos espermatozoides. Embora existam cada vez mais equipas a estudar a fertilidade masculina, é necessário mais apoio para se conseguir apurar com exatidão o impacto destes comportamentos.

Na opinião de Marco Alves, “não é certamente por acaso que alguns parâmetros de qualidade do sémen, como o número de espermatozoides, têm vindo a diminuir significativamente nas últimas décadas, enquanto as taxas de incidência de doenças metabólicas têm vindo a aumentar”.

A realidade portuguesa

Em Portugal, o impacto da queda na fertilidade masculina na população portuguesa não está estudado. No entanto, várias equipas de investigação trabalham no campo da Biologia Reprodutiva, Andrologia e Endocrinologia.

Marco Alves esclareceu que apesar dos estudos sobre natalidade e dos dados de tratamento de fertilidade, “não existe um grande estudo sobre a qualidade espermática dos homens portugueses relacionada com os seus perfis de dieta e estilos de vida”. Disse ainda que “esse estudo só seria possível com o apoio direto do Ministério da Saúde”.

“A infertilidade e a saúde reprodutiva têm sido uma espécie de ‘parente pobre’”

por João Ramalho-Santos, docente catedrático e ex-Presidente do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra

João Ramalho-Santos, docente catedrático e ex-presidente do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra, também à conversa com a National Geographic afirmou que quando comparadas com outras áreas, “a infertilidade e a saúde reprodutiva têm sido uma espécie de ‘parente pobre’ em termos do financiamento e atenção científica e clínica”. Na sua opinião, um dos esforços importantes seria recolher e discutir os “dados obtidos noutros países e regiões graças a consórcios de associações, sociedades ou grupos científicos, baseados na recolha e sistematização de dados de exames de rotina ou num contexto de infertilidade”.

Quando questionado sobre os efeitos da crise na fertilidade masculina e o tempo que pode levar a fazer-se “notar”, o docente explicou que apesar dos efeitos já se observarem, este tema “não é de modo algum linear, e é difícil estimar a contribuição exata do fator masculino”. Acrescendo o facto de a reprodução ter dois fatores biológicos, masculino e feminino, mas “igualmente fortíssimos fatores sociais muito bem conhecidos - qualidade de vida, disponibilidade financeira, precariedade em termos de carreira, etc. - que explicam muito do decréscimo de natalidade nalguns contextos, incluindo o nacional”.

Lá fora, a ginecologista especialista em fertilidade Sarah Martins da Silva, investigadora da Universidade de Dundee, dedica o seu trabalho à investigação de funções de sémen anormais e descoberta de novos fármacos. A cientista, eleita uma das 100 mulheres mais influentes de 2019 pela BBC, ambiciona evitar que as mulheres continuem a ser sujeitas a tratamentos de fertilidade invasivos e desnecessários. Atualmente procura desenvolver um medicamento que permita melhorar a função do sémen. Apesar deste ser um longo caminho de investigação, a sua equipa já identificou dois medicamentos promissores na mobilidade dos espermatozoides.

Como se analisa a qualidade

O exame que se utiliza de forma generalizada em Portugal para analisar a qualidade do sémen é o espermograma. Seguindo parâmetros da OMS, o exame consiste numa análise microscópica de uma amostra de sémen e afere critérios como a morfologia para detetar, por exemplo, se os espermatozoides são bicéfalos ou se possuem duas caudas.

João Ramalho-Santos esclareceu que o espermograma “tem uma capacidade preditiva baixa em termos de sucesso reprodutivo”. Isto é, alguém que é pai biológico pode ter um "mau" espermograma e alguém com "bons" resultados não conseguir ser pai. Existem também grupos de investigação, como o que lidera, que incluem outros tipos de análises funcionais que acreditam poder contribuir para melhorar o diagnóstico, embora ainda em contexto de investigação, mais do que numa prática diária.

Na pesquisa por especialistas na área, encontrámos mais profissionais especializados na nutrição para promover a fertilidade na mulher, assim como no acompanhamento preconceção direcionado a mulheres. Talvez, os homens necessitem da versão masculina de um ginecologista, que os acompanhe mais regularmente do que um urologista?

Marco Alves explica que “não se trata a fertilidade masculina com o mesmo cuidado com que se trata a feminina e por isso o seu impacto vai mantendo-se silencioso”. Acrescenta ainda que este não é um tema que se discuta socialmente e que clinicamente o foco está em conseguir uma gravidez e, por isso, os holofotes estão na mulher. “Não há investimento em compreender o impacto do estilo de vida e dieta na fertilidade masculina, por isso é um problema que terá tendência a permanecer obscuro.”

O que está ao nosso alcance?

Sabia que os homens produzem novo sémen a cada 60 a 80 dias? Em teoria, isto significa que é possível alterar positiva ou negativamente cada novo ciclo de formação de espermatozoides, e com isso melhorar ou piorar a qualidade espermática.

Conceição Calhau, docente catedrática na área da Nutrição Humana e Metabolismo na NOVA Medical School, em conversa com a National Geographic explicou que os estudos realizados na área da nutrição fazem conclusões sobre o consumo de alimentos e melhores indicadores de fertilidade, e que “a nomeação de ingredientes desses alimentos será consequência de perguntar aos indivíduos observados o que comem e depois ‘traduzir’ em nutrientes”.

A docente clarificou que quando se associa a fertilidade à dieta, é “incontornável não explicar que os alimentos têm uma enorme complexidade química, muito além do que se sabe estar presente no alimento”. Além de “proteínas, hidratos de carbono e/ou lípidos, vitaminas e minerais (nutrientes), temos ‘não nutrientes’, que podem ser de origem natural (por exemplo os fitoquímicos como beta-caroteno, isoflavonas, etc.) ou antropogénica, como aditivos alimentares e ainda, de muito risco, contaminantes”. E muitos dos contaminantes podem ser alteradores endócrinos.

A dieta consegue alterar a fisiologia testicular e a produção de espermatozoides.

Fotografia por Brian Finke, Getty Images

Então, o que pode ser feito num plano imediato?

A redução da exposição a toxinas ambientais pode ser feita através da redução dos produtos com parabenos ou outros disruptores endócrinos. As carnes e os laticínios também possuem disruptores endócrinos na sua composição. Similarmente, a carne transformada, como o bacon e as salsichas, deve ser evitada neste contexto, assim como a gordura trans, tipicamente presente em alimentos muito processados. Por oposição, as carnes magras parecem ter efeitos benéficos na mobilidade dos gâmetas (o mesmo que espermatozoides) e na fertilidade.

Conceição Calhau esclareceu que quando falamos em alteradores endócrinos, presentes no ambiente, falamos de compostos com várias proveniências e que quimicamente podem ser muito diferentes. “Como um metal pesado como o cádmio, organoclorados como as dioxinas ou pesticidas como o DDT ou depois antitranspirantes ou mesmo aditivos do plástico, todos terão em comum serem poluentes que persistem no ambiente e que, por isso, se acumulam na cadeia alimentar”.

Reduzir ou evitar o consumo de tabaco, álcool e drogas. O álcool é tóxico para o sémen e reduz a sua qualidade e mobilidade. Os homens que bebem mais têm frequentemente menores níveis de testosterona. O consumo de álcool pode também afetar a capacidade do fígado de excretar toxinas prejudiciais à qualidade dos gâmetas. Já o tabaco pode tornar o sémen mais lento. No mundo dos narcóticos, a cocaína está no topo das substâncias com piores efeitos para a fertilidade, reduzindo o fluxo de sangue para os testículos.

Fruta e legumes ricos em vitamina C, vitamina D, zinco e licopeno, de preferência de origem biológica, podem contribuir para uma boa qualidade das células reprodutoras masculinas.

Fotografia por Luis Marden

A atividade física moderada e o peso saudável também parecem aliar-se a espermatozoides mais saudáveis e com maior mobilidade, por oposição ao sedentarismo e ao excesso de peso.

Também o açúcar tem um efeito nocivo na qualidade do sémen, pelo que a sua ingestão deve ser limitada. Conceição Calhau explicou que uma “dieta rica em açúcar e alimentos muito processados, que levem a uma incompetência do organismo de responder a stresse oxidativo, e a resistência à insulina, são fatores que sustentam a associação entre dieta e infertilidade”. Por outro lado, vários estudos observacionais associam o consumo de peixe, azeite e frutos secos como nozes e amêndoas, a efeitos positivos na fertilidade.

“Se os fatores maternos, pela gestação e pela amamentação são óbvios, a presença de alteradores endócrinos no esperma é também influenciadora.”

por Conceição Calhau, docente catedrática na área da Nutrição Humana e Metabolismo na NOVA Medical School

Conceição Calhau recorda que a “vida não começa quando nascemos, mas sim quando a fecundação acontece. Se os fatores maternos, pela gestação e pela amamentação são óbvios, a presença de alteradores endócrinos no esperma é também influenciadora, uma vez que na fecundação teremos um ‘ambiente’ do pai representado”. A docente afirma que é importante clarificar “não só a associação à potencial infertilidade masculina, mas também à responsabilidade na fecundação de ‘transmissão desta contaminação’”. Daí a importância da intervenção no casal antes da gravidez, para implementar, por exemplo, alterações na dieta e no estilo de vida em geral. “No entanto, muito poucas gravidezes são planeadas e dessas poucas são vigiadas nesta dimensão”.

O papel da dieta é evidente. Marco Alves propõe a adaptação da frase “somos o que comemos” para “a nossa reprodução e a evolução da nossa espécie dependem do que comemos”.

Que futuro?

A infertilidade masculina é um tema que por todos estes motivos merece mais atenção, mais palco e mais apoio. Infelizmente, o cidadão comum não tem acesso a informação sobre a forma como a dieta e o estilo de vida podem afetar a sua fertilidade e a saúde dos seus filhos. Além da lacuna global na comunicação deste assunto, existe muito pouca informação em português.

Na opinião de João Ramalho-Santos, o caminho para melhor se informar os cidadãos sobre este tema passa por organizar atividades informativas de comunicação de ciência e campanhas de prevenção. A aposta deve ser feita na “prevenção, que é muito mais eficaz do que uma intervenção posterior”. Elucidou ainda que “há investigadores a defender que a saúde reprodutiva masculina - não só a qualidade do sémen ou espermatozoides, mas também outros indicadores, por exemplo hormonais - pode funcionar como um indicador da saúde global da população”.

Conceição Calhau considera que o investimento na formação de profissionais de saúde é essencial, assim como os programas de instituições como a Direção Geral de Saúde (DGS). “A DGS tem um dos seus programas prioritários dedicados à alimentação, PNPAS, que tem já manuais dedicados ao tema.”

“Não podemos continuar a ignorar este assunto.”

por Marco Alves, investigador no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS)

Marco Alves reforça a necessidade de os órgãos de comunicação social darem visibilidade não apenas à fertilidade feminina, à gravidez e à natalidade, mas de incluírem o contributo do homem para o evento reprodutivo. Na conversa com a National Geographic referiu um termo que gosta de usar: a qualidade da reprodução. “Que informação estamos a transmitir à descendência? Não só a saúde dos filhos depende do estilo de vida e dieta dos pais, mas também o património genético que assegura o futuro da espécie”.

Para ter acesso a mais informação, o investigador convida-o a seguir o The Environment And Reproductive Health (EARTH) Study da Escola de Saúde Pública de Harvard e a Rede Europeia de Medicina Sexual, da qual faz parte o seu grupo de investigação. Nessa rede, Marco Alves lidera um subgrupo dedicado ao “Estilo de Vida e Saúde Sexual”, que lançou recentemente um vídeo que pretende sensibilizar o cidadão comum. “Não podemos continuar a ignorar este assunto.”

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