Os nossos corpos são únicos. Os nossos cancros também.

O Mês de Prevenção do Cancro da Mama celebra, em parte, a nossa compreensão sobre o comportamento do cancro. Mas o grande desafio para os investigadores ainda permanece, porque o cancro tem muitas facetas.

Por Mary Elizabeth Williams
Publicado 20/10/2022, 09:50
autoexame da mama

Uma mulher faz um autoexame da mama para verificar se há alterações no tecido. O cancro da mama é o cancro mais comum nas mulheres, e o autoexame é responsável por cerca de 65% das descobertas de cancro da mama.

Fotografia por Joël Sartore, Nat Geo Image Collection

O corpo é uma máquina brilhante, concebido para ser forte e resiliente. O corpo sara feridas e defende-se de doenças. E fornece-nos as células T, que patrulham o corpo para identificar e destruir anormalidades e invasores. Na maioria das vezes, o nosso sistema autorregula-se sem que tenhamos consciência do trabalho que está a fazer. Contudo, por vezes, o sistema falha – e surge cancro.

Como explica o Dr. Jedd Wolchok, médico oncologista que tratou do meu cancro e a pessoa que acabou por me salvar a vida: “A ideia é a de que existem várias fases na vigilância imunitária. A primeira fase é a eliminação. Surge um tumor. O sistema imunitário identifica-o. Livra-se dele. Fim da história. A outra fase é o equilíbrio, onde surge um tumor, o sistema imunitário identifica-o, não consegue livrar-se dele, mas o cancro não progride; não se propaga.”

“Depois, há a fase final F – de fuga. A fuga é aquilo com que lidamos, infelizmente, diariamente. O tumor aprende habilidades que lhe permitem escapar ao sistema imunitário.”

As células cancerígenas, uns monstrinhos inteligentes, contêm um sinal inibitório que perturba a resposta do sistema imunitário. É isto que permite ao cancro sobreviver e a razão pela qual as células cancerígenas se propagam – as células T que supostamente deviam destruí-las não sabem como as matar.

Alvejar oficialmente o cancro

Assim que o sistema imunitário perde o controlo, geralmente dependemos de protocolos convencionais – e invasivos – para fazer o trabalho de combater o cancro. E quando uma pessoa vive a experiência de ter cancro em primeira mão, geralmente parte-se do princípio que irá viver para sempre com a consciência de que o cancro irá estar eternamente à espreita na periferia do seu futuro, à espera para surgir no conjunto seguinte de exames. Há sempre qualquer coisa que pode correr mal, outra possibilidade de problemas.

Em 1998, uma família no Louisiana saía da sua igreja rodeada por fábricas de produtos químicos. As cidades ao longo do rio Mississippi, perto de Baton Rouge, são conhecidas por ‘Beco do Cancro’ devido às elevadas taxas de cancro e a presença de várias fábricas de produção de químicos e petróleo.

Fotografia por Andrew Lichtenstein, Corbis via Getty Images

Ao longo de gerações, os tratamentos pouco progrediram para além da cirurgia, radiação e quimioterapia – a santa trindade conhecida por corte, queima e veneno. Para muitos pacientes, estes tratamentos são altamente eficazes. Mas como o cancro invade ao nível celular, pode ser extraordinariamente difícil removê-lo em definitivo – e a eliminação do cancro geralmente também é feita às custas de partes saudáveis do corpo. A cirurgia corta grandes margens em torno do cancro. A quimioterapia mata tanto as células normais como as cancerígenas.

O preço da doença e do seu tratamento podem ser pesados. Em 1957, o virologista australiano Macfarlane Burnet concluiu que “há poucos motivos para ter otimismo no cancro”, acrescentando que “os medicamentos contra o cancro também são cancerígenos. Uma abordagem um pouco mais esperançosa, mas que é muito dependente dos recursos do próprio corpo e que nunca foi proposta seriamente, é a imunitária”.

Quando o presidente dos EUA Richard Nixon assinou a Lei Nacional do Cancro em 1971, foi o início de uma nova era para a análise do comportamento do cancro – e para a exploração de novas formas de tratamento. Ao olhar para trás, o Dr. James Allison, professor de imunologia e diretor executivo da plataforma de imunoterapia do Centro do Cancro MD Anderson, diz que “os melhores conselheiros nesta área diziam que não sabiam muito para além de atacar o cancro com quimioterapia, radiação e cirurgia. Creio que o resultado desse trabalho foi uma quantidade incrível de informações detalhadas sobre a regulação normal do crescimento celular e como as coisas ficam alteradas com o cancro. É realmente magnífico”.

Um técnico de radiologia e uma paciente numa sala de tratamento de radiação na década de 1960. Usado pela primeira vez no final do século XIX, a utilização de raios-x para detetar doenças evoluiu para a tomografia computadorizada, ressonância magnética e ultrassom, entre outras tecnologias.

Fotografia por Corbis, Getty Images

Passados quase 40 anos, em 2009, o governo de Obama lançou uma iniciativa semelhante, prometendo uma vasta alocação de fundos para investigação médica num amplo espectro, incluindo mil milhões de dólares para “pesquisar as causas genéticas do cancro e potenciais tratamentos direcionados”.

Porém, mesmo neste momento, os protocolos padrão para tratar os pacientes continuam frequentemente limitados ao trio familiar: cirurgia, radiação e quimioterapia. E embora a incidência generalizada de cancro e as taxas de mortalidade tenham diminuído nos EUA desde o evento que ficou conhecido como a Guerra ao Cancro da década de 1970, os progressos têm sido lentos e o sucesso tem sido errático.

O cancro pode ser curado?

Um dos grandes desafios enfrentados pelos investigadores prende-se com o facto de o cancro ter uma variedade exasperante de manifestações. Existem mais de 100 tipos diferentes de cancro que afetam os humanos. Existem cancros do sangue, ossos e órgãos. O cancro é muitas, muitas coisas, mas “sorrateiro” e “imprevisível” são termos que fazem tendencialmente parte dos seus traços universais.

Um grande avanço para uma forma de cancro não significa automaticamente uma “cura” esperançosa para outros tipos. O nosso neuroblastoma não é o cancro da mama de outra pessoa. A frase “cancro da mama” em si pode significar coisas diferentes para uma pessoa se tiver a mutação do gene BRCA2 e outra se não tiver. E devido a circunstâncias individuais e mutações celulares, o meu melanoma não é o seu melanoma.

Esquerda: Superior:

Zeinab, de sete anos, tem cancro e o seu desejo era ser rainha e viver num palácio. O desejo de Zeinab foi realizado no histórico castelo de Susa, na província de Cuzistão, no Irão, onde Zeinab foi “coroada”.

Fotografia por Shayan Hajinajaf, Middle East Images, Redux
Direita: Inferior:

Uma equipa de um barco dragão, chamada Pink Steel, composta por sobreviventes de cancro da mama, pratica em Pittsburgh para o Dragon Boat Festival, que se realiza em setembro.

É por esta razão que provavelmente nunca irá existir uma cura para o cancro. E digo isto enquanto alguém que, para todos os efeitos, está curado. O cancro não é apenas uma doença, e é quase certo que não pode ser tratado com uma poção mágica. O cancro deve ser abordado com uma variedade de protocolos. Portanto, quando as pessoas bem-intencionadas – ou, de forma mais irritante, determinadas organizações do cancro que deviam ter mais juízo – falam sobre encontrar “a cura” para “esta doença”, é praticamente garantido que estão a dizer disparates.

A trajetória do progresso feito pela investigação médica não está a levar a uma solução para tudo. Porém, conforme a ciência avança com mais sofisticação e profundidade, também haverá cada vez mais pacientes afortunados o suficiente para obter um tratamento específico – ou combinação de tratamentos – que aparentemente erradicará os seus cancros.

Ainda assim, provavelmente irá existir sempre alguém para quem estes mesmos tratamentos simplesmente não funcionam. Não somos feitos em linhas de montagem. Os nossos corpos são únicos. Os nossos cancros também.

Uma radiologista estuda uma caixa de luz com mamografias, parte de uma base de dados nacional de mamografias do Reino Unido. Este projeto padroniza os exames, facilitando a comparação e possibilitando um diagnóstico mais rápido do que quaisquer anormalidades observadas nas mamografias.

Fotografia por James King-Holmes, Science Source

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com e é um excerto de A Series of Catastrophes and Miracles: A True Story of Love, Science, and Cancer de Mary Elizabeth Williams, publicado pela National Geographic Partners. Copyright © 2016 Mary Elizabeth Williams. Disponível nas livrarias.

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