Como a Criatividade é o Motor da Evolução Humana

O que distingue os humanos é a capacidade de imaginar alguma coisa e transformá-la em realidade.

O que é que nos torna humanos? Será a guerra uma parte inevitável da condição humana? Estas são algumas das questões que o antropólogo Augustín Fuentes desenvolve no seu novo livro The Creative Spark: How Imagination Made Humans Exceptional. Aproveitando as últimas descobertas em matéria de evolução, biologia e arqueologia, Fuentes cria uma nova síntese para mostrar que os grandes motores do progresso humano foram a criatividade e a cooperação e que muitas das coisas em que acreditamos sobre nós próprios, da religião à raça, estão erradas.

Quando a National Geographic se encontrou com o autor no seu escritório da Universidade Notre Dame em Indiana, Fuentes explicou-nos as razões por que o cão é realmente o melhor amigo do homem, por que a história da evolução não dá sustentação às noções tradicionais de género, casamento e família e por que a proposta de Donald Trump para deixar de financiar a NEA e a NEH (National Endowment for the Arts e National Endowment for Humanities, respetivamente, Fundo Nacional para as Artes e Fundo Nacional para as Humanidades dos EUA) pode afetar a nossa capacidade de nos entendermos — e tornar a guerra mais provável.

Diz que há muitos equívocos relacionados com a evolução humana. Que equívocos são esses?

Há um leque variado de equívocos. O primeiro é o de que somos inerentemente maus, perversos até ao osso. Ou, pelo menos, que os homens são. E que esta agressividade masculina foi o motor da nossa evolução. Mas as evidências fósseis, biológicas, etnográficas e históricas mostram-nos que esta ideia está longe de ser correta. As pessoas verdadeiramente odiosas ao longo da história não foram aquelas que mais nos influenciaram a longo prazo.

O segundo equívoco é o de que os machos e as fêmeas são radicalmente diferentes no que respeita à sexualidade e ao género. Embora sejam significativamente diferentes, na verdade, existe uma semelhança muito maior do que pensamos. A ideia de que coisas tão singelas como a agressividade e as diferenças sexuais explicam a complexa evolução do que significa ser humano é demasiado simples. É por isso que eu proponho as ideias de colaboração e criatividade. É uma forma muito mais complexa, e interessante, de pensarmos sobre quem somos e porque fazemos o que fazemos.

O mundo parece estar à beira de uma nova guerra nuclear. A guerra é uma parte inevitável da condição humana?

Existe um grande debate sobre a guerra. A primeira coisa a fazer é olhar para as evidências arqueológicas e fósseis. O que é que existe? O que vemos é que começamos a encontrar exemplos da violência fatal em grande escala ou, pelo menos, coordenada, entre grupos a que chamamos guerra há cerca de 10 000 – 14 000 anos. Mas a guerra hoje não se reduz a dois grupos de pessoas a lutarem um contra o outro. É a entrada em conflito de ideologias políticas, económicas, sociais, religiosas e outras que resulta em violência, coerção ou manipulação. Este tipo de guerra — violência de grande escala entre grupos em torno de ideias, ideologias, dinheiro e recursos — ocorre de forma cada vez mais frequente ao longo dos últimos 10 000 anos porque temos mais coisas por que lutar e mais oportunidades para o fazer.

Mas, embora o mundo possa parecer mais violento do que nunca, na verdade não é.  Se pudéssemos cortar uma fatia no tempo neste momento, verificaríamos que a grande maioria dos 7,7 mil milhões de pessoas do planeta está a entender-se perfeitamente. Não está envolvida em terríveis atos de violência, coerção e opressão. No entanto, esta é apenas uma parte de resposta. O facto de a maioria das pessoas se dar bem não significa que não tenhamos criado novas e horríveis formas de criarmos violência uns contra os outros.

Vivemos, atualmente, num mundo dúplice — um mundo em que a maioria das pessoas se dá bem na maior parte do tempo, mas também um mundo em que somos potencialmente mais cruéis e potencialmente mais violentos do que nunca.

Donald Trump propôs que se pusesse um fim ao NEA e ao NEH. As artes são essenciais para a sociedade humana?

Sem a arte, não somos humanos. A capacidade de imaginar e de pegar na imaginação e transformá-la em realidade é uma das coisas que nos distingue verdadeiramente como seres humanos. Seja pintar, construir aviões ou tentar fazer com que o ordenado chegue até ao fim do mês, tudo o que fazemos advém da mesma capacidade criativa. E não há melhor maneira de exercitar o músculo da criatividade do que a arte, estarmos expostos a arte e pensarmos sobre a arte.

Ao acabar com o National Endowment for the Arts e o National Endowment for Humanities e ao limitar o acesso público à arte, Donald Trump estará a sonegar imaginação e criatividade à humanidade e a cercear a nossa capacidade de nos entendermos e de fazermos uma diferença no mundo.

A criação de arte é um traço evolutivo básico?

Depende daquilo a que chamamos “arte”. Tendemos a considerar arte as belas pinturas rupestres de grandes mastodontes e órix selvagens. Mas trata-se de manifestações com apenas 40 000 anos. Sabemos que há 85 000 anos, na África austral, os nossos antepassados esculpiam ovos de avestruz. Vinte mil anos antes disso, perfuravam pequenas conchas e usavam-nas em volta do pescoço. Cem mil anos antes disso, desfaziam a terra e passavam-na pelo corpo. Quinhentos mil anos antes disso, há meio milhão de anos, construíam ferramentas que eram extremamente belas e mais simétricas e estéticas do que tinham de ser para cumprir a tarefa a que se destinavam. A arte está muito entranhada na história humana.

Há quase seis mil milhões de pessoas, ou 83 por cento da população mundial, que se identificam como membros de uma religião e a religião é um tema especialmente significativo hoje em dia. A religião e as experiências transcendentais sempre foram uma atividade humana fundamental?

É preciso fazer uma distinção importante. Existe uma grande diferença entre a religião, como instituição, e a religiosidade ou o ente religioso. Existem evidências sólidas de que, durante muito tempo, a noção de transcendência, de existir mais no mundo do que o que é material, é importante para os humanos. Mas as estruturas institucionalizadas e organizadas são algo novo. Veja-se o Cristianismo, o Islão ou o Judaísmo. São recentes. Muito, muito recentes. Tendemos a confundir a capacidade ou tendência dos humanos para pensar que há mais no mundo do que aquilo que vemos ou tocamos com estas enormes instituições e com os conceitos políticos, históricos e económicos que elas tentam afirmar.

“O cão é o melhor amigo do homem” diz o velho ditado. Mas estes animais desempenharam um papel muito mais importante do que esse na nossa evolução, não foi?

Sem dúvida! Neste preciso momento estou no meu escritório a olhar para o meu cão deitado entre duas cadeiras a dormir. [Risos] A história entre humanos e cães é absolutamente admirável. Se um biólogo ou cientista de outro planeta chegasse a este planeta, uma das primeiras observações que faria seria: “Uau, repare-se nestes simbiontes! Estes dois organismos cujas vidas são indissociáveis uma da outra.” E estaria a falar sobre os humanos e os cães.

A evolução humanos-cães é um daqueles exemplos em que as ideias de criatividade e complexidade das histórias evolutivas se tornam evidentes. Podemos ver que algumas coisas começaram a acontecer em todo o mundo há 10 000 – 30 000 anos. Primeiro, começamos a encontrar fósseis de organismos semelhantes ao lobo, mas que apresentam algumas alterações. Trata-se provavelmente da emergência dos cães. Depois, estes fósseis tendem a aparecer cada vez mais junto de pessoas. A maioria das pessoas pensava que esta relação era apenas uma relação de caça. Mas muitos especialistas reconhecem agora que é uma espécie de companheirismo, uma partilha do mundo.

Os tradicionalistas insistem que a monogamia é a única relação natural para os seres humanos e que a família nuclear é a melhor maneira de criar os filhos. A história da evolução dá sustentação a esta ideia?

Quem defender que a história da evolução apoia a ideia de que há apenas uma forma de os humanos terem relações sexuais, se juntarem ou constituírem família estará errado. Os humanos são mais monógamos, ou seja, investem muito tempo nestas relações a dois, do que a maioria dos outros mamíferos. Mas esta ideia de que a monogamia é parte de nós e de como explicamos a humanidade não só não tem em conta os dados como não tem correspondência com a vida de quase ninguém, como verificaremos se olharmos em volta e formos honestos conosco próprios.

A história da evolução mostra também que a criação dos mais jovens é um processo que envolve mais do que duas pessoas. O trabalho de Sarah Hrdy e de muitos outros é fantástico ao mostrar-nos que um dos motores de arranque da capacidade de os humanos serem bem-sucedidos foi a coparentalidade. Não me refiro apenas à mãe e ao pai, mas também às avós e aos avôs, às tias e aos tios, às irmãs e aos irmãos, às primas e aos primos, às sobrinhas e aos sobrinhos que tiveram deveres parentais.

Para criar o tipo de bebé que nós damos à luz, que tem um cérebro gigante e não consegue fazer nada nos primeiros três a cinco anos, precisamos de muita ajuda. Começamos a ver uma mudança nos fósseis de há qualquer coisa como 1,5-1,7 milhões de anos que sugere que sugerem que havia mais de uma ou duas pessoas a cuidar das crianças. Avancemos até aos últimos 200 anos e torna-se absolutamente claro que a história de sucesso dos humanos se deve em grande parte à nossa capacidade de nos servirmos da “aldeia inteira para criar uma criança”. Afinal, como diz um antigo ditado: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança." A família nuclear — Mãe, Pai, duas crianças e um cão — não só é muito recente como não é sequer a forma típica de a maioria das pessoas viver no mundo. Toda esta noção de uma casa de família com uma cerca de madeira branca é uma forma muito atípica de se ser humano.

Menciona o “lado negro da criatividade humana”. Explique-nos de que forma as construções sociais, como o género, a raça e a nacionalidade, são exclusivas dos seres humanos — e geram conflitos.

 A ideia de género é uma forma complexa que os humanos encontraram para pensar e interpretar o papel dos sexos na sociedade. É uma ideia que pode ser usada de várias formas. Pode ser benéfica e aberta. E também pode ser usada para limitar as pessoas. Atualmente, nos EUA, assistimos a um ataque à igualdade e às liberdades. É uma forma muito importante de manipulação de género. O género é criado, porque o inventámos.

A raça é outra coisa. Os humanos são diferentes em todo o planeta, o que é fascinante e importante. Mas rótulos como preto, branco, asiático ou latino são construções sociais que podem ser usadas para criar desigualdades, violência e opressão. Quando o fazemos, vemos o lado verdadeiramente negativo da nossa capacidade de criar coisas no mundo e de as transformar em realidade.

A nacionalidade é outro exemplo perfeito. Nos EUA e na Europa estamos agora a voltar para um novo tribalismo, para um sentido de que “eu sou ESTA nação e tu és ESSA nação”, e a dar oxigénio ao tipo de conflitos que levaram a enormes guerras no século passado.

No final do livro, dá algumas sugestões de formas de melhorarmos as nossas vidas criativas. Dê-nos alguns exemplos.

Fazer arte! Todas as crianças fazem arte, mas, quando crescem e se tornam adultas, param, porque pensam que é uma perda de tempo. Mas fazer arte é exercitar o nosso músculo criativo e é muito importante.

A segunda coisa é: preparar uma refeição. Pegar em alguns ingredientes, juntar amigos e família e cozinhar algo. Demonstrar esta capacidade incrível e ancestral de pegar na nutrição e torná-la incrível, imaginativa e saborosa!

A terceira é simplesmente refletir. Olhar para trás, para a semana que passou, e pensar quanto vezes é que nós ajudámos os outros à nossa volta nos ajudámos mutuamente, colaborámos ou nos coordenámos de alguma maneira. Até o ato de aguardar numa fila de cinema ou do supermercado é absolutamente incrível.

Por fim, as pessoas não podem deixar que o ciclo ininterrupto de notícias as derrube. Há muitos problemas graves no mundo, mas as notícias vendem-nos medo, terror e violência. Raramente fazem menção a coisas positivas. Se nos desligarmos das notícias e olharmos para o que se passa na nossa vida e nas vidas dos que nos rodeia, convivermos com os nossos amigos ou o nosso cão e atentarmos na fantástica capacidade humana de colaborar e criar, o mundo poderá parecer um lugar ligeiramente melhor e teremos uma ideia mais realista do que é verdadeiramente o mundo.

Entrevista foi editada por razões de espaço e clareza.

Simon Worrall é curador da Book Talk. Acompanhe-o no Twitter ou em simonworrallauthor.com.

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