Ciência

Como Surgem os “Momentos Eureka” na Ciência

De banheiras a maçãs que caem, descubra o que realmente está por trás de alguns dos feitos mais emblemáticos e iluminados da ciência.

Por Cathy Newman
Na casa onde Isaac Newton passou a sua infância, ainda existe a macieira que, supostamente, o levou a formular a lei da gravidade.

É a queda de uma maçã que leva o físico Isaac Newton a formular a sua lei da gravidade. É um banho que leva o polímata grego Arquimedes a descobrir a forma de calcular o volume e a densidade. Estes são feitos emblemáticos que marcam momentos em que se fez luz na história da ciência. Ou, utilizando as palavras de Arquimedes no momento da epifania, são “momentos eureka!”

Hoje, o instante da epifania é mensurável através de exames ao cérebro, que nos mostram que uma parte do hemisfério direito do nosso cérebro se ilumina nesse momento. E se Anna Marie Roos, uma historiadora de ciências na Universidade de Lincoln, nos aconselha a olhar com alguma reserva para alguns desses “momentos eureka”, é também da opinião de que eles dizem muito sobre o processo criativo da descoberta. (Veja também como a criatividade é o motor da evolução humana, numa entrevista ao antropólogo Augustín Fuentes.)

A conversa com Roos que se segue teve lugar no local de nascimento de Newton, Woolsthorpe Manor, em Lincolnshire, Inglaterra, perto da macieira que se diz ter inspirado a sua teoria da gravitação, e em Londres.

A história de Newton e da maçã que caiu está registada num manuscrito do século XVIII que se encontra na Real Sociedade de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural.  Foi escrita por William Stukeley, seu amigo e primeiro biógrafo, que cita o pensamento de Newton sobre a natureza da gravidade que “foi ocasionado pela queda de uma maçã, e ele sentou-se em modo contemplativo.” Não será que isto valida a história?

Newton não contou a história a Stukeley em Lincolnshire, onde a árvore está. Foi em 1726, em Londres, e Newton já não era o jovem génio que tentava sobreviver. Newton conta-lhe a história na qualidade de decano que fala ao seu discípulo. Nessa altura, ele já era “o grande homem”, o estadista da ciência reunindo à sua volta os seus acólitos.

Estavam a tomar chá debaixo de macieiras, no jardim de Newton, situado em Kensington, começaram a conversar, e Newton disse “bom, sabes que a primeira vez que vislumbrei a ideia da gravidade foi ainda em jovem, em Woolsthorpe, quando estava sentado por baixo de uma macieira. Estou mesmo a imaginar Stukeley, que era inteligente mas também muito ingénuo, a dizer a Newton “Oh, a sério?”

A história foi então enriquecida – a maçã não só caiu, como também caiu na cabeça de Newton. Como é que se acrescentou tamanho ponto a este conto?

Antes de mais, As Memórias de Newton, de Stukeley, é uma das únicas fontes que temos sobre a primeira parte da sua vida. Outra das razões pelas quais seria favorável promover esta história era porque Newton estava envolvido numa disputa com o filósofo matemático [Gottfried Wilhelm] Leibniz sobre a descoberta do cálculo. Leibniz publicou primeiro, mas Newton foi o primeiro a pensar sobre isso. Que melhor ideia poderia existir do que a de que Newton era uma criança prodígio? É uma boa história visual sobre inspiração. As pessoas memorizam-na, contam-na e vai melhorando de cada vez que é contada.

Keith Moore, o bibliotecário da Real Sociedade de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural, descreve ironicamente a história da maçã como “um sound bite do século XVIII”. É justo acusar Newton de ser um mestre da manipulação, ou pior, de estar a mentir?

Não acho que Newton esteja a mentir. Acho mesmo que ele teve um momento revelador. Acho que podemos ver ali um fundo de verdade. Mas não acho que a maçã tenha caído mesmo na sua cabeça. Podia tê-lo magoado.

Vamos analisar outro famoso “momento eureka!” – o de Arquimedes, o famoso matemático grego e a história de como resolveu um problema, colocado pelo rei de Siracusa, enquanto tomava um banho.

O rei Herio II encomendou uma coroa real, para a qual providenciou o ouro. Quando a coroa chegou, o rei, desconfiado de que o ourives tivesse ficado com uma parte do ouro e o tivesse substituído por prata, pediu a Arquimedes para verificar se a coroa era feita exclusivamente de ouro, sem danificá-la. Como conseguiria ele fazer isso? Baixou-se para tomar banho e, de repente, percebeu que poderia chegar ao volume da coroa medindo a quantidade de água deslocada e, assim, resolver o problema. Saiu da banheira a gritar “eureka!”, e reza a lenda que o grito se ouviu por toda a cidade de Siracusa. Será que ele compreendeu o conceito de volume e de densidade relativa? Provavelmente, sim. Será que o seu grito se ouviu por toda a Siracusa? Provavelmente, não. E, além disso, a maior parte da informação que temos sobre Arquimedes foi escrita muito depois de ele ter morrido.

Percebo o que quer dizer. Está a sugerir que as narrativas das descobertas científicas, como todas as outras, são “polidas” pelo tempo. Mas falemos agora do que significam estes “momentos eureka” no âmbito do processo científico e da criatividade.

Bom, ambas as histórias sobre Newton e sobre Arquimedes falam da necessidade de abrandar o cérebro e de se ser contemplativo. E também da junção de coisas aparentemente díspares – a queda de uma maçã e a gravidade, uma banheira cheia de água e a densidade relativa. Isto diz-nos que a criatividade precisa de espaço para prosperar. E também nos diz que muitos cientistas têm mais ideias criativas quando se permitem descontrair.

Por exemplo?

Alexander Fleming [o biólogo que descobriu a penicilina por acaso] adorava jogos. Quando cultivamos bactérias em placas, elas têm diferentes cores e formas. Ele pintava desenhos no ágar e usava cores [de bactérias] diferentes — um desenho de uma bailarina, por exemplo. É preciso dominar os conceitos básicos da respetiva área de estudo para conseguir relaxar um pouco e ver o que daí surge.

Há nisto uma qualidade de sonho.

O ator John Cleese compara a criatividade a uma tartaruga. Existe uma ideia. A tartaruga sai lentamente, da sua carapaça, olha em volta, e se dissermos “oh, isso é estúpido. Não tenho tempo”, ela recolhe. Mas, se dermos espaço para o pensamento contemplativo e se lhe dermos tempo, ela sai outra vez.

Por outras palavras, podemos dizer que as histórias dos “momentos eureka” são haikus científicos...

São a essência de uma ideia. Não dão pistas nenhumas relativamente aos passos dados anteriormente, que levaram ao acontecimento, mas são histórias de que as pessoas gostam porque simplificam as coisas e retiram-lhes a carga pesada. São analogias que toda a gente percebe. As histórias sobre os “momentos eureka” são a reunião de décadas e décadas de trabalho num momento de inspiração. São uma espécie de parábola.

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