Ciência

Estes Poderão Ser os Indícios Mais Profundos de Uma Forma de Vida na Terra

Um ecossistema escondido parece agora estar à espreita a dez quilómetros de profundidade, por baixo da Fossa das Marianas, dando pistas para a descoberta de vida extraterrestre em todo o sistema solar.

Por Claudia Geib

Há cerca de quatro mil milhões de anos, a vida na Terra não era nada fácil. As colisões frequentes dos asteroides transformavam partes do planeta em rocha fundida. Os alimentos e os espaços habitáveis eram poucos e estavam dispersos. O que teve de fazer um micróbio para sobreviver?

Algumas das formas primitivas de vida podem ter conseguido sobreviver mantendo-se nas profundezas — vivendo a uma profundidade de dez quilómetros abaixo do fundo do mar. 

Esta é a inferência de um novo estudo, que descobriu sinais de micróbios que ainda hoje estão vivos por baixo do local mais profundo na Terra, a Fossa das Marianas, um enorme abismo dos oceanos.

A fossa faz parte de uma zona de subducção, onde a placa tectónica do Pacífico desliza sob a placa oceânica das Filipinas. O fundo do mar que se encontra próximo desta zona está repleto de fontes hidrotermais e vulcões de lama, produzindo grandes quantidades de substâncias desde as profundezas da Terra.

No novo estudo, publicado hoje em Proceedings of the National Academy of Sciences, os investigadores recolheram amostras de lama rica em minerais das montanhas submarinas de Chamorro do Sul, um vulcão de lama junto da Fossa das Marianas abastecido pela zona de subducção que se encontra por baixo. Embora a equipa não tenha descoberto micróbios intactos, obteve indícios tantalizantes de material orgânico, que poderão fornecer provas de que os seres vivos conseguem sobreviver nos mais extremos meios.

"Esta é mais uma pista relacionada com a vasta e profunda biosfera existente no nosso planeta," refere o responsável pelo estudo, Oliver Plümper, um investigador da Universidade de Utrecht, na Holanda.  "Pode ser gigante ou muito pequeno, mas não há dúvidas de que se passa algo que nós ainda não compreendemos".

Os seres vivos podem ser capazes de sobreviver a uma profundidade tão grande porque as zonas de subducção são relativamente frias; o magma só entra em contacto com a crosta submersa depois de chegar a uma zona menos densa no manto. Como tal, Plümper extrapolou que o limite de temperatura estabelecido para a existência de vida — cerca de 120 ºC — não seria atingido até, pelo menos, dez quilómetros de profundidade abaixo do fundo do oceano.

Isto poderia indicar que estes micróbios passam a ser a forma de vida que se conhece a habitar na zona mais profunda no nosso planeta, derrotando os micróbios encontrados em sedimentos no fundo do mar a cinco quilómetros de profundidade.

"Para mim, a ideia a reter deste estudo é a de que isto tem potencial para determinar a existência de vida em alguns dos locais mais profundos do planeta", refere Matthew Schrenk , um geomicrobiólogo da Universidade do Estado de Michigan que se dedica ao estudo dos ecossistemas microbianos que vivem de serpentinização.

"Se procurarmos os limites de profundidade da biosfera, esta descoberta aumenta-os vastamente."

PODER MINERAL

A equipa de Plümper analisou o material orgânico encontrado na serpentina, uma classe de minerais formados quando a olivina na parte superior do manto faz uma reação com a água impulsionada diretamente da zona de subducção. A combinação produz hidrogénio e gás metano, que servem de alimento para os micróbios.

Conhecido como serpentinização, este processo cria habitats para micróbios noutros locais, incluindo em fontes hidrotermais no fundo do mar.

Agora, a equipa acredita que encontrou resíduos produzidos por micróbios que se alimentam de gás de locais ainda mais profundos. De acordo com os testes de laboratório, os hidrocarbonetos e lípidos de vulcões de lama são muito semelhantes aos resíduos produzidos por outras bactérias.  Mas a equipa do estudo reconhece que, por agora, nada é definitivo.

"Estas moléculas orgânicas sugerem definitivamente a existência de vida, mas a origem dessa vida, como os autores afirmam, não é ainda clara", afirma Frieder Klein, um investigador que estuda a serpentinização no Instituto Oceanográfico Woods Hole.

As fontes externas de organismos foram uma preocupação durante o estudo. Entre outras verificações, foi testada a presença de carbonetos nos minerais e o resultado foi negativo. A formação de carbonetos aconteceria se a água do mar das áreas mais próximas da superfície tivesse entrado em contacto com a água dentro da zona de subducção.

Klein classificou as descobertas do estudo como "verdadeiramente notáveis", mas referiu o facto de haver ainda uma hipótese de a matéria orgânica ter outra origem, como, por exemplo, a própria crosta.

É também possível que a matéria orgânica tenha sido produzida sem nenhum tipo de ajuda da biologia, numa versão natural do processo que os humanos utilizam para fazer petróleo e combustível sintético. De qualquer forma, esta alternativa continuaria a ser empolgante, de acordo com a equipa de investigação.

"Se este tipo de produção for possível, é, por si só, extraordinário", afirma Plümper, que chama a atenção para o facto de se considerar que os vulcões de lama onde a serpentina se formou existiam quando surgiram as primeiras formas de vida na Terra. "Saberemos, nesse caso, que o processo geológico pode criar moléculas orgânicas complexas."

ALIENÍGENAS NAS PROFUNDEZAS?

Assim que os cientistas começaram a procurar por serpentinização nos anos 60 do século XX, encontravam-na em todo o lado — nos locais onde os continentes colidiram e as margens derreteram onde se formaram, em fontes hidrotermais, e mesmo em cordilheiras que anteriormente eram formações rochosas e estavam no fundo do mar.

Tendo em conta que é muito comum no nosso próprio planeta, a serpentinização — e o seu potencial para manter formas de vida extremas — captou a atenção dos que procuram a existência de vida noutros mundos.

"Existe uma relação direta entre este processo que estudamos na Terra e os processos que podem acontecer em qualquer lugar do sistema solar", refere Klein.

Há dois candidatos promissores: o satélite Europa de Júpiter e o satélite Encélado de Saturno. Ambos estão cobertos de gelo, mas acredita-se que tenham oceanos líquidos de água salgada que se estendem profundamente abaixo de suas superfícies

O Encélado mostrou também alguns sinais de atividade tectónica, a qual é necessária para criar o tipo de zonas de subducção que Plümper e a sua equipa estudaram, apesar de ainda se tratar de uma especulação.

"Sempre que a olivina ocorre num planeta rochoso, é provável que a serpentinização também ocorra", refere Plümper. "Na ausência de fotossíntese, poderia fornecer alguma matéria para manter a vida."

Contudo, os astrobiólogos que desejam visitar outros planetas em busca de vida microbiana iriam encontrar os mesmos problemas que cientistas como Plümper enfrentam aqui na Terra: a incapacidade de atingir as profundezas onde esta forma de vida se pode esconder faz com que os cientistas tenham de interpretar os sinais emitidos por géisers, rochas e outras amostras extraídas das profundezas.

"Encaro isto como se se tratasse de uma mensagem numa garrafa", afirma Plümper relativamente a estas amostras obtidas a partir da perfuração a grandes profundidades. "Temos este recipiente a vir à tona, e estamos a abri-lo e a tentar descobrir o que lá se passa."

Continuar a Ler