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Nova Super-Terra Pode Ser a Melhor Descoberta Até Hoje Para Encontrar Vida

O mundo potencialmente habitável é suficientemente próximo para que os telescópios possam procurar uma atmosfera e pesquisar indícios de extraterrestres.Thursday, November 9

Por Nadia Drake
Uma ilustração mostra o planeta LHS 1140b, recentemente descoberto, a atravessar a face da sua estrela.

Os astrónomos descobriram um planeta temperado um pouco maior e mais volumoso do que a Terra a orbitar uma pequena estrela a uma distância de apenas 40 anos-luz. Este mundo, que acaba de ser anunciado, poderá estar entre os melhores alvos para procurar sinais de vida em qualquer outra parte do cosmos.

“Os mundos pequenos são comuns”, diz Lauren Weiss da Universidade de Montreal. E este planeta, assevera, é um dos mundos rochosos conhecidos mais próximos fora do sistema solar. “Está no quintal do nosso sol.”

Usando um telescópio no Chile, os astrónomos observaram o planeta a atravessar a face de uma estrela anã vermelha chamada LHS 1140 na constelação da Baleia. O mundo, chamado LHS 1140b, é cerca de 1,4 maior do que a Terra e encontra-se numa órbita que permitiria que a água líquida fluísse na sua superfície sem problemas.

Usando um outro telescópio no mesmo país, a equipa verificou então até que ponto a gravidade do planeta atrai a sua estrela, o que lhe permitiu determinar que o LHS 1140b tem cerca de 6,6 vezes mais massa do que a Terra. Isto significa que este pequeno mundo é rochoso, possivelmente com um núcleo de ferro rodeado por um manto fino— uma espécie de Mercúrio em ponto grande, aponta Laura Schaefer da Universidade do Estado do Arizona.

“Continuamos, porém, sem saber muito sobre este planeta, pelo que será verdadeiramente entusiasmante recebermos mais dados”, diz.

A equipa que descobriu o planeta está particularmente entusiasmada com a observação deste mundo acabado de descobrir porque está suficientemente perto da Terra para que os telescópios existentes revelem se tem uma atmosfera e, em caso positivo, se o ar apresenta sinais de vida extraterrestre.

“O cientista que há em mim quer ser supercauteloso e recordar todas as razões pelas quais poderemos não encontrar vida neste planeta”, diz o líder do estudo Jason Dittmann, da Universidade de Harvard, cuja equipa descreve o novo planeta hoje na revista Nature.

“No entanto, também gosto de uma boa aposta e talvez seja um otimista, pelo que apostaria que a vida é comum no universo e que poderá até existir no LHS 1140b.”

JUNTAR AS EVIDÊNCIAS

Hoje, conhecem-se mais de 3400 planetas que orbitam outras estrelas e, à medida que os telescópios e as técnicas de observação vão melhorando, cada vez mais descobertas novas serão estes pequenos mundos, provavelmente rochosos, que se agregam a estrelas muito mais pequenas do que o sol.

No ano passado, um grupo de cientistas revelou que três mundos do tamanho da Terra orbitam uma pequena estrela próxima chamada TRAPPIST-1. Depois, um mundo do tamanho da Terra a orbitar a estrela mais próxima da nossa, uma tempestuosa anã vermelha chamada Proxima Centauri, tornou-se visível e roubou os holofotes àquela tríade. Para não ficar atrás, no início deste ano, cientistas revelaram que a TRAPPIST-1 tem não apenas três, mas pelo menos sete mundos, uma mão-cheia dos quais poderia ser habitada.

E, na semana passada, cientistas da Europa continental e do Reino Unido anunciaram que tinham detetado uma atmosfera em redor de um exoplaneta próximo chamado a GJ 1132b —o menor destes planetas a oferecer pistas sobre os seus constituintes gasosos. Este feito é uma prova aprazível de que, com os instrumentos atuais, é possível procurar moléculas na atmosfera de mundos rochosos.

Tudo isto acalenta enormes esperanças para o LHS 1140b. Nenhum dos planetas encontrados até à data pode ser descrito como semelhante à Terra, uma vez que não sabemos o suficiente sobre eles para fazer a comparação. Mas este mundo pode constituir-se como a nossa melhor possibilidade de juntar traços que possam ser apelativos e permitir a vida.   

Em primeiro lugar, a densidade do planeta indica que se trata de um planeta sólido, ou seja, um tipo de planeta onde a vida poderia prosperar sob ou sobre a superfície. Alguns dos mundos da TRAPPIST-1 podem ter estas características, mas muitas das suas composições continuam a ser um mistério.

“Mesmo os pequenos planetas... não são necessariamente mundos “terrestres”, diz Weiss. Estes outros planetas poderão conter uma pequena quantidade de rochas, mas têm as superfícies encobertas por véus de gás que são catastróficos para uma vida complexa.

No entanto, “a elevada densidade e a pequena dimensão deste planeta [o LHS 1140b] sugerem que este planeta poder ser constituído por uma mistura de ferro e silicatos — os mesmos materiais que constituem a Terra —”, diz.

A equipa descobriu a nova super-Terra com a gama de telescópios MEarth-South, em Cerro Tololo em Chile.

Em segundo lugar, a gravidade do LHS 1140b é suficientemente forte para manter uma atmosfera, com um senão: a estrela-mãe, com 5 mil milhões de anos de idade, do planeta está calma por agora, mas é provável que a tenha sido suscetível a explosões quando era mais jovem. Se for este o caso, esta tempestuosa estrela pode ter eliminado a atmosfera com violentas erupções e destruído quaisquer formas de vida que se possam ter desenvolvido no planeta.

Ainda assim, este planeta está suficientemente afastado da sua estrela para que uma putativa atmosfera tivesse a possibilidade de sobreviver a explosões estelares. Esta distância significa também que as temperaturas permitiriam a vida tal como a conhecemos, ao contrário do GJ 1132b, um planeta semelhante mas já muito tostado.

Por fim, o LHS 1140b atravessa a face da sua estrela, o que permite uma visão privilegiada aos astrobiólogos. Quando os cientistas tentam observar uma atmosfera extraterrestre para procurar sinais de vida, o que estão verdadeiramente a fazer é a tentar ver através dela. Quando os planetas passam entre as suas estrelas e a Terra, a luz estelar distante atravessa o seu revestimento gasoso e ilumina as moléculas que possam existir nos mesmos.

Para obter as dimensões precisas destas moléculas e das suas proporções com instrumentos existentes ou em vias de existirem, os cientistas precisam de uma boa estrela próxima como a LHS 1140.

PRIMEIRO VISLUMBRE

É muito possível que o primeiro sopro de vida para lá da Terra possa vir de futuros vislumbres de atmosferas extraterrestres — uma proporção de gases que não esteja a bater certo ou moléculas peculiares que a química e a geologia dificilmente produziriam por si só.

Dittmann e a sua equipa já inspecionaram o LHS 1140b utilizando o telescópio espacial Hubble e esperam fazer o mesmo com telescópios no Chile no final deste ano.

Mas Dittmann está muito entusiasmado com a pesquisa de gases como o metano, o ozono e o dióxido de carbono por meio de ferramentas maiores e mais brilhantes que poderão estar disponíveis nas próximas décadas: o Telescópio Espacial James Wenn, o Telescópio Gigante Magalhães e o Telescópio Europeu Extremamente Grande, entre outros.

“Realisticamente, vamos conseguir obter os primeiros vislumbres destas atmosferas na próxima década”, diz Dittmann.

“Podemos discutir o que significam estas observações e como é que estes gases entraram nestas atmosferas durante ainda mais tempo! Mas, pelo menos, teremos dados disponíveis muito em breve, e estou ansioso por isso.”

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