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Elon Musk: Daqui a Sete Anos, a Space X Será Capaz de Levar Humanos a Marte

Os novos planos do empresário apontam para um foguetão que poderá levar humanos a Marte — e possivelmente à Lua — até 2024.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Nadia Drake
Elon Musk, fundador da SpaceX, numa palestra no Congresso Internacional de Astronáutica com a ilustração da nova versão do foguetão "BFR" como pano de fundo.

Um ano depois de anunciar um arrojado plano que previa a possibilidade de colocar um milhão de pessoas em Marte até aos anos 60 do presente século, Elon Musk está a fazer ajustamentos no seu calendário para levar humanos para o planeta vermelho.

Numa apresentação algo desgarrada no Congresso Internacional de Astronáutica, em Adelaide, na Austrália, no dia 29 de setembro, Musk deu a conhecer uma versão editada do esquema original. Embora a visão final não tenha mudado muito, Musk salientou as revisões feitas aos planos para um foguetão com 42 motores, a que chamou BFR, e apresentou uma proposta vaga segundo a qual o foguetão seria pago através do lançamento de satélites para a órbita e do abastecimento da Estação Espacial Internacional.

Além disso, no futuro, os objetivos do BFR podem multiplicar-se. Musk sugeriu que o foguetão também poderia vir a ser usado para transportar pessoas entre quaisquer dois lugares na Terra em menos de uma hora — ou, possivelmente, para ajudar a construir um posto avançado na Lua.

"Isto permitirá a criação de uma base lunar. Estamos em 2017. Já devíamos ter uma base lunar. O que se passa, afinal?" perguntou Musk, que fundou a Space X e a Tesla Motors.

MARTE REVISITADO

Musk já falou diversas vezes sobre o seu desejo de morrer em Marte — mas não com o impacto — e sobre a sua crença de que os humanos terão de se tornar uma espécie multiplanetária para sobreviverem. Na mesma conferência no ano passado, que teve lugar em Guadalajara, México, Musk tinha apresentado um esboço da sua muito antecipada estratégia para atingir aquele imperativo existencial através da colonização de Marte.

A primeira versão do Sistema de Transporte Interplanetário baseava-se no BFR, um gigantesco foguetão com 42 motores e cerca de 120 metros de altura quando construído na totalidade. O propulsor deste foguete funcionaria como uma versão muito maior dos foguetões reutilizáveis Falcon 9, a que a SpaceX já começou a dar uso, e levaria continuadamente tanques de combustível e naves espaciais capazes de transportar até 100 passageiros para a órbita da Terra. (Já temos robôs em Marte há 20 anos consecutivos — e tiram fotografias excecionais.)

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Em última instância, na visão de Musk, existiriam milhares de naves espaciais num circuito de espera a orbitar a Terra. Depois, a cada 26 meses, aproximadamente, quando o alinhamento da Terra e de Marte se tornasse favorável, esta frota de naves navegaria em direção ao nosso vizinho mais próximo espalhando painéis solares pelo caminho.

A revisão deste ano reduz a capacidade do BFR, que passa a ser só um pouco maior do que o foguete Saturn V, que lançou os astronautas para a Lua durante a era Apollo. Sejamos claros, o BFR 2.0 continua a ser enorme: será capaz de transportar carga num espaço útil com a altura de oito andares e terá um volume superior ao da cabina de passageiros de um Airbus A380. Além disso, terá um elegante estabilizador vertical que o ajudará a aterrar em corpos com uma atmosfera densa ou rarefeita, ou sem atmosfera, o que aumenta grandemente a sua utilidade no sistema solar.

Musk prevê começar a construção do foguetão no prazo máximo de um ano e acrescenta que não é completamente descabido que sejam lançados dois destes veículos apenas com carga em 2022. Pode não parecer uma data muito distante da atual, mas “a mim, cinco anos parece-me muito tempo”, afirma Musk.

Marte 101
Marte 101

Musk afirma que, se a SpaceX cumprir o prazo previsto, o objetivo seguinte será o de lançar quatro veículos em 2024: dois com carga e dois com tripulações. Estas duas missões teriam a incumbência de encontrar as melhores fontes de água e de construir uma estação de propulsão em Marte, de que a Space X precisaria para manter viagens de ida e volta entre a Terra e Marte.

MUSK CONSIDERA QUE NÃO FALTA MUITO TEMPO

Reduzir o tamanho daquele foguetão gigantesco não é um passo inesperado.

Musk é conhecido por ser ambicioso; a SpaceX é a primeira empresa a reutilizar partes de foguetões com fiabilidade, os automóveis elétricos da Tesla (modelos S3X e o futuro Y) têm listas de espera de vários anos, e o Hyperloop —  que poderá reduzir o tempo de viagem entre São Francisco e Los Angeles para uns meros 45 minutos—está a ser desenvolvido.

Mas, em geral, os prazos de Musk suscitaram um ligeiro revirar dos olhos de alguns especialistas de viagens espaciais que sabem que não têm necessariamente de acreditar nos prazos avançados pelo empresário. Por exemplo, a SpaceX promete há alguns anos apresentar o enorme e potente foguetão Falcon Heavy. Mas este foguetão, que tem um papel fundamental nos planos de Musk de enviar humanos para a Lua e aterrar em Marte em 2018, ainda não foi testado.

Talvez em resposta a algumas críticas motivadas pelos atrasos, Musk indicou ironicamente que o ano de 2022 para data do primeiro lançamento não era uma gralha — mas reconheceu ser “ambiciosa”.

“Embora o prazo e as especificações sejam, de facto, marcos ambiciosos, estou confiante na capacidade da indústria norte-americana para atingir objetivos desafiantes e transcendentais”, diz Bobby Braun, do polo de Boulder da Universidade do Colorado e antigo chefe da equipa de tecnólogos da NASA. “É ótimo ver o setor privado a liderar o caminho, e espero ver mais iniciativas do mesmo tipo.”

O sonho marciano de Musk é, no mínimo, audaz. Mas para realizar este sonho será necessária inovação técnica nunca antes vista. A ciência e a engenharia assentam sobre bases sólidas e Braun salienta que a Space X já conseguiu atingir partes de um plano que, em tempos, parecia mais do que arrojado, como é o caso dos propulsores de foguetões reutilizáveis.

“É este tipo de desenvolvimento pragmático e continuado da tecnologia que poderá abrir o sistema solar de formas novas e fascinantes para a humanidade”, diz.

No entanto, uma das maiores barreiras é o financiamento. Pura e simplesmente, a SpaceX não tem dinheiro suficiente para financiar o empreendimento por si só, e convencer parceiros públicos ou privados a participar não é propriamente tão fácil como correr em Marte, onde a gravidade é cerca de um terço da da Terra,

Musk não deixou de referir-se a esta questão.

“Penso que descobrimos uma forma de o pagar”, referiu. “É algo muito importante.”

Para já, o plano consiste em construir um conjunto de cápsulas para o Falcon 9 e o Dragon e vender tantas viagens quantas seja possível para missões de carga.

Dentro de poucos anos, diz Musk, todos os recursos da SpaceX serão direcionados para a construção do BFR — que, segundo afirma, será capaz de transportar humanos para qualquer parte do mundo em menos de uma hora ou até de nos levar à Lua. “Acreditamos que o conseguiremos com as receitas que recebermos do lançamento de satélites e da utilização da estação espacial para outros serviços”, acrescenta.

UM PLANETA, DOIS PLANETAS, PLANETA VERMELHO, PLANETA AZUL

Mas levar humanos para Marte também envolve questões éticas, que Musk não mencionou. Entre elas, a possibilidade de nós e os nossos equipamentos podermos contaminar o planeta. Trata-se da possibilidade de desvirtuar qualquer tipo de vida que já exista no local ou de eliminar todas as possibilidades de descobrirmos se alguma vez houve alguma forma de vida extraterrestre no planeta.

A arte conceitual mostra um lançamento do foguete Falcon Heavy.

Colocar humanos em Marte é apenas o primeiro passo na colonização do planeta. É também necessário que seja habitável. Para os padrões humanos, neste momento Marte é letal: tem um ar que não conseguimos respirar, um solo tóxico e água encerrada em depósitos gelados sob a superfície.

No passado, Musk reconheceu este problema e propôs terraformar Marte e transformá-lo num mundo exuberante capaz de sustentar vida. O método preferido de Musk? Bombardear os polos do planeta com bombas nucleares e libertar toda a água atualmente encerrada em depósitos gelados sob a superfície.

Uma medida tão drástica seria, provavelmente, catastrófica para qualquer tipo de vida que tenha tido a possibilidade de habitar Marte antes de os humanos aparecerem. Lucianne Walkowicz, presidente do Departamento de Astrobiologia da Biblioteca do Congresso dos EUA, defende que usar outro mundo como planeta de reserva — e destrui-lo durante o processo— é uma ideia com imensas lacunas.

“Há muitas razões excelentes para ir a Marte, mas alguém dizer que Marte será uma reserva para a humanidade é como o capitão do Titanic dizer que a verdadeira festa está guardada para mais tarde nos barcos salva-vidas”, disse Walkowicz durante uma TED talk sobre a ética da exploração de Marte no ano passado. “Se conseguirmos perceber de que forma poderemos criar e manter espaços habitáveis em locais hostis e inóspitos da Terra, talvez consigamos satisfazer as necessidades de preservação do nosso ambiente e de irmos mais além.”

A arte conceitual mostra uma cápsula Red Dragon da SpaceX na superfície de Marte.
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