Um Ano no Espaço? Scott Kelly Conta-nos a Sua Experiência

Houve momentos que assustaram o astronauta. Ter-se perdido no espaço não foi um deles. segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Como será ser projetado da Terra num enorme foguetão, sabendo que não veremos a nossa família, nem sentiremos uma brisa no rosto ou provaremos comida recém-cozinhada durante um longo ano?

Scott Kelly, o primeiro astronauta da NASA a passar cerca de um ano a bordo da Estação Espacial Internacional, descreve a experiência no seu livro, Endurance, enfatizando os benefícios dessa extraordinária prova de resistência física e psicológica. Comparando a condição física de Kelly ao regressar à Terra com a do seu irmão gémeo, os cientistas tiveram uma oportunidade única de analisar os efeitos das viagens espaciais de longa-duração — informação essencial se algum dia for possível viajar até ao planeta Marte.

Numa entrevista por telefone, Scott Kelly explicou-nos como um livro que comprou quase por acaso mudou a sua vida e fez com que decidisse tornar-se astronauta. Contou-nos que acredita que a ida do homem a Marte já é possível. E confessou-nos, ainda, como foi lidar com a tentativa de assassinato da sua cunhada, Gabby Giffords, enquanto se encontrava a bordo da Estação Espacial Internacional.

No seu livro descreve o momento incrível, quando se perdeu durante um passeio espacial. Pode-nos descrever o que sentiu?

Foi durante a minha segunda saída, que foi especialmente longa e cansativa. Enquanto me preparava para voltar para dentro, a equipa de controlo em terra pediu-me para verificar uma válvula. Apesar de estar exausto, disse que o faria. Nunca se sabe o que pode acontecer se não nos certificarmos de que está tudo a funcionar em conformidade, por isso tinha mesmo de fazer esse esforço.

Encaminhei-me para o outro lado da plataforma, uma área que não conhecia muito bem, e acabei por perder o norte e ficar completamente desorientado; estava a navegar, literalmente, de pernas para o ar. Passou algum tempo até que conseguisse perceber onde estava. Não é como se me tivesse perdido completamente e não conseguisse encontrar o caminho de volta. Nunca senti esse tipo de risco. No entanto, foi uma experiência muito desconfortável.

Por fim, deu-se o nascer do sol [risos]. Antes disso, pensara que as luzes por cima da minha cabeça eram o céu estrelado, mas estava enganado. Era a Terra. Apercebi-me de que estava a voar sobre o Médio Oriente. Conseguia ver o Golfo Pérsico, que se vê muito bem do espaço, inclusivamente à noite. 

Fala de uma forma muito natural. Para a maioria de nós, que não somos astronautas, a ideia de andar à deriva no espaço durante a noite é absolutamente assustadora!

Compreendo, mas eu faço isto há 20 anos! Apesar de não ter feito muitos passeios espaciais, já estava suficientemente familiarizado com aquele ambiente e com o risco que comporta. Se pegar num cidadão comum, lhe vestir um fato espacial e o atirar para o espaço sem qualquer treino ou experiência, é natural que ele fique, como disse, aterrorizado.

Uma Aurora Boreal Vista em Time-Lapse Desde a Estaçao Espacial Internacional.

Consegue dar-nos uma idea de como é a sensação de estar no exterior da Estação Espacial?

Uma das primeiras coisas em que se repara logo é que há muitas mossas, às vezes até buracos, nos corrimões e nas estruturas de metal no exterior da Estação Espacial. Estamos constantemente a ser atingidos por pequenos objetos espaciais. Felizmente, temos excelentes escudos, e os detritos que colidem com a estação nunca penetraram o casco. Mas há, efetivamente, muitas coisas a voar aqui à volta. Se um desses detritos nos bater no capacete, ou colidir com o nosso fato, pode causar danos graves a nós ou ao fato, que está completamente insuflado com oxigénio.

Ver a Terra a partir do espaço é algo que nos deixa sem palavras. Vê-la assim, majestosa, é uma experiência absolutamente única. Aquelas imagens do nascer e do pôr do sol, o azul dos oceanos e as luzes das grandes cidades, como as vi através do visor do meu capacete, são algo que, espero eu, permaneça na minha memória até ao resto da minha vida.

Aquando da sua primeira temporada na Estação Espacial Internacional, um evento de ordem política teve um impacto dramático na sua vida pessoal. A sua cunhada, Gabrielle Giffords, foi alvejada. Como foi receber a notícia; e qual é a sua opinião em relação ao controlo de armas de fogo nos Estados Unidos, especialmente depois do que aconteceu recentemente em Las Vegas?

Quando a Gabby foi alvejada, a 8 de janeiro de 2011, eu estava sensivelmente a meio da minha primeira missão de seis meses. Recebi uma chamada do controlo em terra e disseram que iam colocar a linha em modo privado, o que significa que ninguém pode ouvir a conversa para além dos intervenientes. Do outro lado da linha, a chefe departamento de astronautas disse-me, “Não sei como te dizer isto, por isso vou ser muito direta: a tua cunhada, Gabby, foi alvejada. Há imensos mortos.”

Estava preso no espaço e, obviamente, não tinha como ir até casa. Tentei apoiar a minha família e, especialmente, o meu irmão da melhor maneira que pude através do telefone. A dada altura apercebi-me que tinha de me concentrar no meu trabalho, naquilo que eu podia realmente controlar, e ignorar todo caos que se passava na Terra. Alguns órgãos de comunicação social chegaram mesmo a dizer que ela tinha morrido. Felizmente, mais tarde falei com um grande amigo e ele disse-me que a Gabby estava viva.

Desde de então, a Gabby e o meu irmão têm tido um papel muito ativo na luta por uma reforma na política de controlo de armas. Tal como eu, eles acreditam na Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos. O nosso país foi fundado com base naqueles princípios. No entanto, é mais do que óbvio que os Estados Unidos têm um grande problema com o controlo de armas, e há muito que podemos e devemos fazer para melhorar a situação. Um bom ponto de partida seria a existência de uma legislação que protegesse os cidadãos das pessoas que, simplesmente, não deveriam ter armas de fogo.

É comum as crianças dizerem que querem ser astronautas quando crescerem. No entanto, olhando para a sua infância – notas medíocres, um pai abusivo, e o facto de ter crescido num bairro da classe trabalhadora — nada fazia prever que chegaria onde chegou. Olhando para trás, a que acha que se deve o seu sucesso?

Era algo que, simplesmente, não parecia acessível a uma pessoa como eu. Se perguntasse a um dos meus professores de liceu se acreditavam que eu um dia chegaria a astronauta, imagino que desatassem às gargalhadas. Eu próprio me teria rido. Era, no entanto, algo que me interessava, tal como a maioria dos miúdos se interessam pelo espaço quando são novos e ainda têm grandes sonhos. Só quando já estava na faculdade, a esforçar-me para conseguir, sequer, acabar o curso, que entrei por acaso numa livraria e comprei uma cópia de The Right Stuff, de Tom Wolfe, e tudo mudou. Identifiquei-me tanto com o livro, que percebi que ser astronauta era mesmo o que eu queria para a minha vida.

Até então, queria ser aviador-naval. Queria ser capaz de aterrar num porta-aviões, porque acreditava que esse era o tipo de voo mais difícil de todos. O livro deu-me a motivação de que precisava e, finalmente, um verdadeiro sentido de direção. No início não foi nada fácil. Tive de me esforçar para ser bom aluno e para isso, bem, tive de estudar muito. Com o tempo aprendi a ultrapassar a minhas dificuldades em concentrar-me.

Se pensarmos bem, é um grande salto. Um miúdo lê um livro e, de repente, decide que quer ser astronauta. A verdade é que para chegar onde cheguei foram necessários muitos passinhos pequeninos que acabaram por constituir um longo percurso.  

O título do seu livro é uma referência ao navio do explorador do Ártico, Ernest Shackleton. Que semelhanças — e que desafios físicos e psicológicos — encontra entre a sua viagem e a de Shackleton?

A perseverança necessária para encarar, desde início e até ao fim, com o mesmo entusiasmo, a mesma energia, uma missão de um ano, é algo que acredito que estava presente na filosofia de Shackleton.

A aventura de Shackleton durou bem mais de um ano. Apesar do isolamento, a minha aventura não é comparável à de Shackleton e da sua equipa. Eles tinham de lutar pela sua própria sobrevivência todos os dias.

What did you find hardest?

Being separated from your family and friends and knowing that if something happened to them, there was nothing I could do to be with them. There’s the isolation from the outside world and nature, like not being in the sun or feeling the breeze on your face. There’s a lack of choice of what you’re going to do daily. You have to maintain a tightly controlled schedule for a very long period of time, which is also challenging.

Qual foi a parte mais difícil?

Estar longe da minha família e dos meus amigos, saber que se lhes acontecesse alguma coisa eu não poderia fazer nada para estar com eles. Essa foi a parte mais difícil. Além disso, ainda há o isolamento, num sentido bastante literal, do mundo exterior e da natureza, porque não sentes o sol nem a brisa a baterem-te na cara. Por fim, o facto de não ter qualquer poder de decisão sobre a minha rotina durante um longo período de tempo. Tinha horários bem definidos para executar inúmeras tarefas, e não podia adiar nada. Foi um grande desafio.

Nunca diria que foi um desafio tão difícil como o encarado por Shackleton e a sua equipa. Mas foi, decididamente, uma grande prova de perseverança e resistência.

Mark Kelly, o seu irmão gémeo também é astronauta. Fale-nos o Estudo dos Gémeos — e do que este revelou sobre a fisiologia durante as viagens espaciais.

O Estudo dos Gémeos parte da ideia de que existem dois indivíduos que são quase geneticamente idênticos. Além disso, os cientistas também dispunham de imensa informação sobre o meu irmão, porque ele é astronauta há tanto tempo como eu, isto é, desde 1995. Por isso, comparar os nossos corpos – a um nível genético e químico - depois de eu ter passado tanto tempo no espaço e ele não era uma oportunidade única.

Alguns dos resultados são deveras interessantes. Por exemplo, fiquei surpreendido quando me disseram que os meus telómeros – uma parte dos nossos cromossomas que há medida que envelhecemos fica mais curta e gasta – estavam melhores. A teoria sugeria o contrário; os dele deveriam estar melhores porque eu estivera a viver num ambiente mais exposto à radiação. O meu microbioma – a comunidade de microrganismos que existem no nosso sistema digestivo – também se alterou.

A próxima grande fronteira espacial é Marte. Acredita que um dia seremos capazes de viajar até ao planeta vermelho? Depois de passar um ano no espaço, que desafios acha que temos pela frente?

Sim, claro que sim! Poderíamos ir a Marte agora mesmo, se houvesse o devido investimento financeiro e condições políticas para isso. Ainda temos de trabalhar para resolver a questão da radiação. À medida que nos afastamos do campo magnético da Terra vamos ficando mais à mercê da radiação. Há formas de resolver isto. Criando um campo magnético à volta da nave espacial, por exemplo. Mas não é fácil.

Outro grande obstáculo é o dióxido de carbono. Conseguirmos um ambiente com níveis de dióxido de carbono semelhantes aos da Terra é, tecnologicamente, muito desafiante. Precisamos de máquinas para filtrar o CO2 presente no ar de um modo eficiente, e isso não é fácil; tal como não é fácil manter todos os equipamentos ligados durante longos períodos de tempo. Acabamos por sofrer de dores de cabeça e congestões. Às vezes, quando os níveis de CO2 estão muito elevados, temos dificuldade em concentrar-nos. São alguns aspetos que temos de melhorar se queremos ir a Marte.

No final do seu livro, enumera algumas coisas que aprendeu durante a sua estada no espaço. Pode partilhar connosco algumas delas?

A maior lição que tirei de tudo isto foi que quando os países se juntam para trabalhar em equipa, quando cooperam para um objetivo comum, alocando os seus melhores profissionais e recursos a um projeto, ainda que de uma enorme complexidade, quando isso acontece somos capazes de tudo. Se um dia decidirmos ir a Marte, iremos a Marte. Isso, ou outra coisa qualquer, por mais desafiante que seja. Podemos estabelecer qualquer objetivo e atingi-lo. Mas para isso temos de cooperar uns com os outros e de nos concentrar no que é realmente importante.

Outro aspeto muito importante que sublinho neste livro é que uma pessoa pode ter de lutar muito para encontrar o seu caminho, mas, se encontrar algo em que acredite mesmo, algo que lhe dê um sentido de propósito, vai descobrir uma força que não sabia que tinha, uma determinação e uma disciplina que a vão levar ao encontro do seu objetivo. Até alguém que sofreu de transtorno de défice de atenção, como eu, consegue alcançar o sucesso nos seus próprios termos.

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