Espaço

Misteriosas Rajadas de Rádio Vindas do Espaço Tornaram-se Ainda Mais Estranhas

Os astrónomos ficaram perplexos com as ondas contorcidas emitidas por um estranho objeto, a três mil milhões de anos-luz de distância. Sexta-feira, 19 Janeiro

Por Nadia Drake

Há uma nova reviravolta na história de um dos objetos mais estranhos nos céus.

Localizado a cerca de três mil milhões de anos-luz de distância, o objeto misterioso encontra-se a emitir continuamente gigantescas explosões de ondas de rádio para o cosmos. Recentemente, os cientistas descobriram nessas ondas a assinatura helicoidal de um campo magnético extremamente forte, o que sugere que esta bizarria cósmica existe num ambiente galáctico de grande intensidade, contendo uma poderosa fonte magnética.

Esta descoberta é um contributo para a compreensão do fenómeno conhecido como rajadas rápidas de rádio, ou FRB (na sigla em inglês), que são rajadas de ondas de rádio extraordinariamente energéticos, que duram apenas uma fração de segundo. Estas FRB também permitem aos investigadores ter uma imagem mais nítida das condições num canto incrivelmente distante do universo.

“Estamos a sondar diretamente o ambiente local de uma fonte localizada numa galáxia a milhares de milhões de anos-luz”, diz Emily Petroff do ASTRON, o Instituto Holandês de Radioastronomia. “É como ter o poder para ampliar mil milhões de vezes um objeto localizado num ponto distante do universo.”

Ainda que a fonte deste magnetismo seja desconhecida, é possível que esta FRB se situe nas proximidades de um buraco negro supermaciço, tal como aquele situado próximo do centro da nossa galáxia, ou, então, envolta nos despojos de uma explosão estelar.

“Nas próximas semanas, contamos que os teóricos mais criativos avancem com novas explicações, nas quais ainda não tivéssemos pensado”, diz Jason Hessels do ASTRON, membro da equipa que apresentou as observações na revista científica Nature e no 231.º encontro da Sociedade Astronómica Americana, no Maryland.

VOLTAS E CONTRAVOLTAS

O estranho objeto, já batizado FRB 121102, fez-se anunciar aos astrónomos terrestres pela primeira vez em 2012, quando uma rajada de ondas de rádio tremendamente energético e incrivelmente rápido embateu contra o radiotelescópio gigante do Observatório de Arecibo, em Porto Rico.

Embora as rajadas rápidas de rádio tenham confundido os astrónomos durante anos, esta foi a primeira a ser captada por Arecibo. Ao longo dos anos, os astrónomos têm estudado este local no firmamento, na esperança de obter algumas pistas acerca deste enigma cósmico.

Em 2015, o radiotelescópio de Arecibo apanhou o FRB 121102 a repetir-se. Desde então, este mesmo objeto já emitiu mais de 200 rajadas de ondas de rádio através do universo — e continua a ser a única rajada rápida de rádio repetitiva das cerca de 30 conhecidas.

No ano passado, os astrónomos conseguiram finalmente determinar a localização da rajada numa determinada galáxia, uma pequena bolha difusa, que se encontra a cuspir novas estrelas furiosamente a três mil milhões de anos-luz de distância, na constelação Auriga.

E agora, usando os dados obtidos em Arecibo no Natal de 2016, Hessels e os seus colegas puderam, finalmente, estudar as ondas de rádio emitidas por FRB a uma frequência mais elevada e, desta feita, detetar uma torção nessas rajadas. Denominada rotação de Faraday, o sinal é produzido quando as ondas de rádio são contorcidas ao percorrer campos magnéticos. Mas estas ondas encontram-se de tal forma enroladas sobre si próprias que o FRB 121102 se deve encontrar nas proximidades de um campo magnético incrivelmente poderoso.

“Esta fonte é invulgar porque se repete, e agora é estranha porque tem esta medida de rotação enorme”, diz Hessels.

BURACOS NEGROS E PROJEÇÕES DE GÁS

Embora os cientistas suspeitem agora que uma estrela de neutrões — o denso cadáver de uma antiga estrela de grandes dimensões — possa estar envolvida na emissão dessas rajadas de ondas de rádio, não sabem ao certo o que estará a gerar aquele magnetismo distante. O FRB 121102 não é o único objeto com uma impressão digital magnética, mas é 500 vezes mais forte que qualquer outra rajada contorcida conhecida, o que significa que algo de estranho está a suceder no seu ambiente, mesmo para os já bastante bizarros padrões das FRB.

Uma possível explicação para a força desse campo magnético é a proximidade de um buraco negro supermaciço, algo com a massa de milhares de sóis — talvez aquele que se pensa estar situado no centro da galáxia-mãe da rajada.

Na nossa Via Láctea, o pulsar localizado próximo do centro da galáxia também emite ondas com uma forte rotação de Faraday, diz Hessels. Na verdade, é o único objeto com uma torção magnética sequer comparável àquela observada em FRB 121102.

“O envolvimento de um buraco negro faz um certo sentido, especialmente porque são os únicos locais onde vimos campos magnéticos com tamanha força”, acrescenta Petroff. Porém, a astrónoma ressalva que “é perfeitamente possível que aquilo que está a suceder nas proximidades FRB 121102 não tenha nenhum equivalente na nossa galáxia.”

Uma outra explicação possível é que a fonte de FRB seja muito jovem e se encontre aninhada no interior de uma nebulosa formada por uma supernova recente, ou seja, a explosão originada quando uma estrela de grandes dimensões aumenta de tamanho e morre. Estas erupções mortíferas encontram-se entre os acontecimentos mais violentos do cosmos, deixando alguns vestígios intrigantes, como é o caso das estrelas de neutrões. Se a fonte de FRB for um magnetar (um tipo de estrela de neutrões) que esteja a ser naturalmente ampliado por um aglomerado magnético de gás e poeira, isso também poderia explicar estas observações.

“Densas projeções de matéria magnetizada, associadas aos gases turbulentos que rodeiam os resquícios de uma supernova jovem também poderiam fornecer uma explicação igualmente contundente”, diz Jean-Pierre MacQuart, da Universidade Curtin, na Austrália.

O investigador afirma que tanto um buraco negro supermaciço como os vestígios agitados de uma supernova se coadunam com estes dados, pelo menos por enquanto: “Tenho a certeza de que, a seu tempo, a comunidade astronómica irá avançar com uma série de cenários alternativos, que expliquem o ambiente desta FRB!”

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