Espaço

A NASA Quer Pôr o Homem de Novo na Lua

A agência espacial norte-americana encontra-se a fazer testes rigorosos à nave Orion, na esperança de a lançar na sua primeira missão à lua no final de 2019. Quinta-feira, 1 Fevereiro

Por Ramin Skibba

A NASA tem estado a submeter a cápsula espacial Orion a uma série de testes, destinados a determinar se a nave está pronta a transportar humanos para fora da atmosfera terrestre. Até agora, os resultados tem sido animadores — numa série de manobras que tiveram lugar esta semana, uma equipa conjunta de especialistas da NASA e da Marinha dos Estados Unidos recolheu a nave do mar ao largo da costa de San Diego com sucesso, simulando o que acontece quando uma missão espacial regressa à Terra.

Se tudo correr conforme planeado, a Orion tornar-se-á a tecnologia de ponta da NASA para lançar astronautas em órbita, ou mesmo para o espaço profundo, incluindo a superfície lunar e, porventura, Marte. Eis aquilo que está em jogo com a Orion, e o que ainda precisa de ser feito antes do seu lançamento.

Mas os astronautas norte-americanos não fazem já viagens espaciais?

Sim, mas não em naves espaciais da NASA. O programa do vaivém espacial terminou em 2011, e os vaivéns restantes encontram-se atualmente em exposição em museus por todos os Estados Unidos. Desde essa altura, os astronautas americanos têm apanhado boleia dos foguetões russos até à Estação Espacial Internacional, e a NASA tem enviado mantimentos e materiais para a EEI através dos lançamentos da SpaceX e da Orbital ATK.

Até que a Orion fique operacional, os astronautas da NASA não têm outra forma de atingir uma órbita de baixa altitude nem de viajar mais além. As empresas espaciais comerciais, como a SpaceX e a Boeing estão a desenvolver as suas próprias cápsulas tripuladas, capazes de chegar à EEI. Contudo, no que toca a enviar seres humanos para a lua ou para o espaço profundo, não se sabe ao certo quem será o primeiro a chegar à plataforma de lançamento.

Se a Orion é só uma cápsula, como é que ela vai levantar voo?

A Orion é a parte que transporta os astronautas e o equipamento científico, como uma versão maior e muito melhorada das cápsulas Apolo. Esta será acoplada ao Sistema de Lançamento Espacial, um novo foguetão que está a ser desenvolvido e testado em simultâneo. Apesar de ter sido criticado pelos custos excessivos e atrasos, o SLE prossegue a sua marcha. Quando estiver pronto, será mais poderoso que os seus competidores, como o Falcon Heavy da SpaceX, que fará o seu voo inaugural nas próximas semanas.

Uma vez que não pode aterrar como um vaivém, como é que a Orion vai trazer os astronautas de volta?

A Orion foi construída com um escudo de calor que pode suportar temperaturas até 2760 graus Celsius durante a reentrada na atmosfera. Assim que cápsula desacelere de 40 234 quilómetros por hora para “apenas” 483 quilómetros por hora na descida, serão acionados paraquedas para a abrandar ainda mais, tornando a amaragem tão suave quanto possível, ao largo da costa de San Diego, onde navios da Marinha estarão à sua espera. Os mergulhadores colocarão então uma plataforma flutuante em torno do módulo tripulado que balança nas águas, para que os astronautas sejam os primeiros a ser retirados.

“A tripulação poderá sentir-se zonza”, após ter estado no espaço e com o efeito da reentrada, diz Charles Lundquist, diretor adjunto do programa Orion. A equipa de resgate irá então prender a Orion com um guincho e puxá-la para o interior do convés interno do navio, para que a cápsula possa ser reutilizada.

Quais são os testes que estão a ser feitos à Orion?

Esta semana, a NASA tem estado a testar os processos de recolha da Orion com o U.S.S. Anchorage, com recurso a um modelo da cápsula, que tem, sensivelmente, as mesmas dimensões, forma, peso e centro de gravidade da cápsula verdadeira. Adicionalmente, o equipamento de apoio, o escudo de calor, os sistemas de paraquedas, os componentes eletrónicos e o software também estão a ser testados. Todos os componentes têm de estar a funcionar na perfeição para a primeira grande missão da Orion.

O astronauta Stephen G. Bowen recorda as memórias trágicas da missão Apolo 1 e dos vaivéns espaciais Challenger e Columbia, ao salientar que “é crucial que não falhemos nisto.” A segurança é a principal preocupação dos cientistas e engenheiros da NASA, ao tentarem minimizar os riscos das viagens espaciais.

Qual é o plano para a primeira missão da Orion?

Assim que se desacople do SLE e que esteja na trajetória correta, a Orion irá voar para além da lua e regressar à Terra após três semanas. A Missão de Exploração 1 (Exploration Mission 1), como é chamada, está programada para dezembro de 2019, mas poderá ser adiada até o ano seguinte.

A primeira missão não será tripulada, mas as seguintes já serão mais ambiciosas. Atualmente, a NASA contar usar a Orion para ajudar os astronautas a construir uma nova estação espacial para além da atmosfera terrestre, designada Deep Space Gateway. Uma estação deste calibre permitirá mais investigação lunar, bem como a montagem de naves no espaço, para missões a distâncias ainda maiores.

Ouvi dizer que a Orion, possivelmente, vai acabar por ir até Marte? É verdade?

Para já, é esse o plano, mas, provavelmente, não irá acontecer antes de meados da década de 2030. A “Viagem a Marte” a longo prazo da NASA depende do êxito de uma série de missões até essa altura, começando por esta demonstração da Orion.

Como é que a aposta do Presidente Trump na lua se encaixa no meio de tudo isto?

Ao contrário do programa Apolo, inteiramente dedicado a pôr o homem na lua, a NASA está a tentar que a Orion seja versátil o suficiente para enfrentar uma grande variedade de missões. Seria capaz de efetuar missões lunares, satisfazendo os objetivos de Trump — pelos menos, boa parte deles. Trump queria que a NASA enviasse astronautas no voo inaugural da Orion, mas a agência decidiu que os custos, tempos e riscos adicionais não compensavam os potenciais ganhos.

Uma vez que não vão estar astronautas a bordo, a primeira missão servirá para testar os limites da nave espacial. A NASA também se certificará que os sistemas de comunicação funcionam como é suposto, uma vez que alguns processos serão pilotados a partir de terra.

E depois, o que se segue?

Partindo do princípio que os testes continuam a correr bem, a NASA espera conseguir montar a Orion verdadeira no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, até ao final do ano, após o que será enviada para as instalações de Plum Brook, no Ohio, onde será sujeita aos testes finais, que simulam o vácuo a as temperaturas gélidas do espaço. Finalmente, a Orion será enviada de novo para a Flórida, para que se prepare o seu lançamento.

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