O Lançamento do Grande Foguete Espacial Desta Semana Pode Fazer História

Se tudo correr conforme planeado, o mais novo membro da frota da SpaceX poderá tornar-se o foguete espacial mais poderoso desde o que enviou humanos para a Lua.

Publicado 6/02/2018, 19:32 WET

Mais de 50 anos depois de o foguete espacial Saturno V ter enviado humanos para a Lua, a plataforma 39A do Centro Espacial Kennedy da NASA poderá voltar a servir de pano de fundo da história. Se tudo correr bem na terça-feira à tarde o foguete espacial Falcon Heavy da SpaceX irá ser lançado em direção ao espaço de uma forma muito peculiar — transportando um Tesla Roadster vermelho-cereja ao som de David Bowie.

Depois de seis horas à boleia, o Tesla irá então seguir para aquela que é conhecida como a órbita de transferência de Hohmann em redor do sol — ficando a girar entre a Terra e Marte por potencialmente milhões de anos. E, se tudo correr bem, todo o percurso será filmado pelas três câmaras que seguirão a bordo do Tesla.

Se a operação for bem-sucedida, o Falcon Heavy irá duplicar a capacidade anterior e tornar-se o foguete espacial mais poderoso do mundo, podendo levar mais de 63 500 kg de carga — e um dia talvez passageiros — para a órbita terrestre baixa.  Só o Saturno V, a besta de carga das missões do Apollo à lua, levou mais massa para órbita.

"Será o teste de voo mais significativo desde 1967, altura do primeiro teste do Saturno V", afirma John Logsdon, especialista de política espacial da Universidade de George Washington.

A janela para a tentativa de lançamento abriu às 18h30, hora de Lisboa, do dia 6 de fevereiro. Se necessário, o lançamento poderá ser adiado para o dia 7 de fevereiro ou para mais tarde. Poderá assistir ao desenrolar dos acontecimentos na transmissão em direto disponibilizada pela SpaceX.


Veja em direto o lançamento do Foguete Espacial Falcon Heavy da SpaceX

Há muitas coisas que podem correr mal, como salientou o CEO da SpaceX Elon Musk dias antes do lançamento. Se o foguete explodisse na plataforma de lançamento 39A, a conflagração iria não só destruir o Falcon Heavy, mas também a plataforma que lançou o Saturno V e a frota de naves espaciais da NASA. O caos constituiria também um forte revés para o plano há muito adiado de transportar os astronautas da NASA para a Estação Espacial Internacional.

Uma explosão na plataforma de lançamento "não só destruiria uma peça de património, como constituiria um obstáculo às viagens espaciais humanas durante muito tempo", assegura Logsdon. "As pessoas dizem que a NASA deixou de correr riscos; mas correu este em particular."

Existem outros caminhos menos explosivos para o fracasso. Assim que o foguete atingir a velocidade do som, os três propulsores podem fazer com que os outros se movam inesperadamente. A sobreposição das ondas de choque poderá levar a danos fatais para o foguete espacial.

Também é possível que o Tesla Roadster não se afaste muito de nós. Antes de enviar o carro em direção a Marte, a parte de cima do foguete tem de passar seis duras horas a flutuar através do cinturão de Van Allen, onde o campo magnético da Terra capta radiação de alta energia transmitida pelo sol. Irá a parte de cima do foguete ser capaz de sobreviver ao impacto do impacto e voltar a disparar?

Estes cenários perturbadores são suficientes para que o lançamento se processo sob aquilo a que Musk chama um "enorme fator de sobressalto". Mas numa reunião com a imprensa na segunda-feira, Musk aparentava serenidade.

"O que é estranho neste lançamento é que, normalmente, sinto-me tenso no dia anterior. Mas desta vez, não estou", afirma. "Tenho a certeza de que fizemos tudo o que poderíamos para maximizar as possibilidades de êxito desta missão."

REDUZIR, REUSAR

Se o Falcon Heavy for bem-sucedido, funcionará como um portentoso sinal de que a empresa privada deverá precipitar-se para a exploração espacial — setor que a SpaceX abalou ao introduzir a reutilização.

A maioria dos foguetes são constituídos por várias partes, ou componentes, que ajudam a levar o principal compartimento de transporte a carga — os satélites e as cápsulas da tripulação — para o espaço. Habitualmente, as partes soltam-se e caem na Terra quando ficam gastas. Em muitos casos, não podem ser reutilizadas de forma segura.

Eis como o Falcon Heavy da SpaceX se compara com outros veículos pesados de propulsão que carregaram carga com êxito e, em alguns casos, tripulação para órbita (clique para aumentar).
Fotografia de Dan Steinmetz

Mas, desde 2008, a SpaceX conseguiu várias façanhas inéditas com o seu foguete Falcon 9, entre as quais se conta a recuperação e a reutilização de algumas das componentes do foguete. Tal como as companhias aéreas não constroem um avião novo para todas as viagens que atravessam o país, espera-se que não seja necessário construir um novo foguete para cada lançamento. A reutilização será, pois, fundamental para reduzir os custos das viagens espaciais.

Uma vez que o Falcon Heavy é composto essencialmente por três Falcon 9 agrupados, a SpaceX espera trazer de volta as três primeiras partes. Se tudo correr conforme planeado, os dois propulsores laterais — que foram reciclados de lançamentos de Falcon 9 anteriores — irão soltar-se e voltar aos locais de aterragem em terra. Mais tarde, a primeira componente aterrará em separado no Of Course I Still Love You (Claro que Ainda Te Amo), o divertido nome do navio porta-drones da SpaceX.

Quanto custa todo este poder e panache? Surpreendentemente pouco, em comparação com outras empresas.

A SpaceX garante que sem adereços extraordinários, o lançamento do Falcon Heavy custaria cerca de 90 milhões de dólares. Em comparação, o foguete Delta IV Heavy da United Launch Alliance custa pelo menos 350 milhões de dólares por lançamento, mas permite apenas metade da capacidade de carga do Falcon Heavy.

"É um verdadeiro sinal de alarme", diz Logsdon.

Ainda antes do primeiro teste do Falcon Heavy, várias empresas candidataram-se para receber os seus serviços. De acordo com o que se prevê, o foguete irá lançar o Arabsat 6a, um satélite de comunicações da Arábia Saudita, bem como cargas das empresas Inmarsat e Viasat. Além disso, a SpaceX tem um contrato de 160 milhões de dólares com a Força Aérea dos Estados Unidos para o lançamento do STP-2, um pacote variado de satélites entre os quais se conta um relógio atómico hiperpreciso concebido para o espaço profundo e uma rede de satélites que irão monitorizar a atmosfera da Terra.

"Se formos bem-sucedidos, é o xeque-mate", diz Musk. "Seria como... uma companhia aérea ter uma aeronave reutilizável e todas as outras companhias aéreas usarem uma para cada viagem, com os passageiros a lançar-se de para-quedas no destino e o avião a cair algures mais tarde."

REDIMENSIONAR

Apesar das impressionantes características técnicas que apresenta, o Falcon Heavy não poderá ser usado em tantas missões como as que Elon Musk previa quando anunciou o foguete espacial em 2011. Isto acontece porque a SpaceX conseguiu tirar um rendimento muito maior do foguete Falcon 9, o que lhe permite lançar uma variedade maior de satélites.

"Um dos maiores mercados do Falcon Heavy acabou por desaparecer", diz Logsdon. "O Falcon Heavy é apenas um passo provisório na evolução da SpaceX, e não uma parte sustentada da sua linha de produtos.

O que se segue? O BFR, ou Big Falcon Rocket, um mastodonte que é capaz de transportar mais 30 por cento de carga para a órbita terrestre baixa do que o Falcon Heavy. O BFR é também uma peça fundamental do ambicioso plano de Musk para enviar humanos para a lua e para Marte.

Entretanto, os sites The Verge e Ars Technica salientam que o Falcon Heavy seria perfeito para enviar instrumentos científicos para as profundezas do sistema solar. Por sua vez, embora o SLS, o megafoguete interno da NASA, seja capaz de lançar cargas maiores com mais espetacularidade, deverá custar qualquer coisa como um a três mil milhões de dólares por lançamento, pelo que é possível que o Falcon Heavy ou outros foguetes venha a ser mais competitivos do que o SLS.

TRANSPORTADORAS ESPACIAIS

Não obstante todo o significado prático que tem, o Falcon Heavy também é importante pelo que representa: a vanguarda de um esforço cada vez mais alargado para explorar e comercializar o espaço.

A Orbital ATK já lançou o seu próprio foguete Antares e a cápsula Cygnus. Em 2020, a empresa de foguetes de Jeff Bezo, Blue Origin, terá o seu New Glenn de classe orbital pronto a competir com o Falcon 9. A Bigelow Aerospace está a trabalhar arduamente para aperfeiçoar os seus habitats espaciais insufláveis. E, num dos seus primeiros testes de voo, a Rocket Labs lançou pequenos satélites com êxito — incluindo uma "bola de espelhos" extremamente refletora — para órbita.

"É ótimo haver uma grande variedade de capacidades — de pequenas carrinhas a camiões TIR, para transportar coisas para o espaço", diz Logsdon. "Significa que as pessoas estão otimistas de que vamos ser ativos no espaço.

Trata-se apenas de camiões, afinal de contas", acrescenta. "Não são o produto final."

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