Espaço

A Última Entrevista do Primeiro Homem a Andar No Espaço Sem Cabo de Ligação

O astronauta Bruce McCandless reflete sobre uma imagem icónica na sua última entrevista de sempre com a National Geographic. Quinta-feira, 15 Fevereiro

Por Nadia Drake

As imagens de um boneco chamado Starman a conduzir descontraidamente um carro de luxo no espaço poderão ter fascinado os terráqueos há uns dias atrás, mas, há 34 anos, foi uma fotografia igualmente surreal de um astronauta verdadeiro a ser o centro das atenções.

A 7 de fevereiro de 1984, Bruce McCandless tornou-se o primeiro ser humano a andar livremente no espaço, quando saiu do vaivém Challenger sem qualquer ligação à nave. Numa imagem da NASA, surpreendente ainda hoje, dessa missão, vemos McCandless, sem qualquer cabo de ligação, a quase 100 metros do Challenger, em suspensão sobre o nosso planeta impossivelmente azul, parecendo paradoxalmente poderoso e frágil contra a insuplantável vastidão do cosmos.

McCandless, que faleceu a 21 de dezembro de 2017, tinha uma longa e colorida história no programa espacial da NASA. Antes da sua célebre caminhada espacial, McCandless tinha sido oficial de comunicações no centro de controlo durante a caminhada lunar da Apollo 11, em 1969. Essa experiência deixou-o celebremente aborrecido com Neil Armstrong, por este não ter revelado o que planeava dizer assim que as suas botas tocassem o solo lunar. Mais tarde, McCandless viria a colaborar no lançamento do Telescópio Espacial Hubble a partir do vaivém Discovery, em 1990.

Todavia as caminhadas espaciais mais memoráveis de McCandless, imortalizadas por uma fotografia tirada já no fim da missão, aconteceram no seu primeiro voo espacial. Tinha-lhe sido pedido que testasse uma nova Unidade de Manobra Tripulada, ou MMU, na sigla em inglês, de quase 140 quilogramas, que é, basicamente, um propulsor a jato alimentado a azoto, que permite aos astronautas moverem-se no espaço, tal como a personagem de George Clooney fazia no filme Gravity. Mas isto não era uma longa-metragem de Hollywood, e dizer que havia bastante preocupação caso ocorresse alguma avaria irreparável não é nenhum exagero.

Foi assim que McCandless decidiu fazer uma piada espacial, quando começou a falar com o centro de controlo em Houston.

“Julgo que posso afirmar que o meu comentário — que pode ter sido um pequeno passo para o Neil, mas foi um salto grande como tudo para mim — foi a) uma decisão consciente, b) uma pequena vingança por o Neil não ter partilhado comigo o que iria dizer quando pisasse solo lunar, e c) uma forma de dizer que estava tudo bem, para ninguém se preocupar”, revelou McCandless. “Deu o mote certo, e lá continuámos.”

Agora, no aniversário da sua primeira caminhada espacial sem cabo de ligação, eis o que McCandless tem a dizer acerca dessa fotografia, nesta que foi a sua última entrevista à National Geographic, gravada em julho do ano passado.

No que é que pensa quando se vê nessa fotografia?

Na verdade, tinha o visor solar fechado, por nenhuma razão em especial para além não ser encandeado pelo sol, portanto, podia ser qualquer pessoa no interior daquele fato. Creio que isso faz parte do encanto da imagem. Posso dizer que fiquei estupefacto com a quantidade de pessoas que se dirigiam a mim e me diziam, Tenho a sua fotografia no meu quarto. Tornou-se realmente um marco do programa espacial, e, de certa forma, parece personificar o desejo da humanidade de se libertar da gravidade, e de ser capaz de voar pelo cosmos.

Sei que já muita gente lhe perguntou isto, mas...

Como é estar lá fora, no espaço? O que mais me perturbou foi, quando me afastei do vaivém, fiquei com muito frio. A tiritar, bater os dentes. Isso aconteceu porque a posição C, ou calor, no sistema de suporte de vida não gera, realmente, calor. É apenas uma espécie de refrigeração mínima, e o fato tinha sido preparado para manter um astronauta fresco e confortável num ambiente quente, enquanto se encontrasse a desempenhar alguma tarefa árdua. [Nesta caminhada sem cabo de ligação], não se faz nenhum grande esforço. Pilotar a MMU é como mexer as pontas dos dedos. Não estamos a gerar uma quantidade significativa de calor metabólico, e a solução é mesmo desligar todo o sistema de arrefecimento.

Seja como for, foi divertido estar lá fora?

Foi divertido. Mas, devo confessar-lhe, pensei que fosse quase etéreo em termos de silêncio, e estava enganado. Tinha comunicações via rádio, e havia três pessoas diferentes a falar comigo... foi tudo menos um momento de paz e sossego.

Já esteve no espaço duas vezes. É verdade que ver a Terra do espaço altera a perceção do astronauta do nosso planeta?

Como generalização, creio que posso afirmar com segurança que praticamente toda a gente que já viu a Terra do espaço, isso lhe alterou a sua perceção do planeta. E o sentimento dominante parece ser que, quando olhamos para a Terra do espaço, não vemos as subdivisões políticas, e questionamo-nos porque é que nós — todos nós que habitamos a nave Terra — porque é que não conseguimos trabalhar em conjunto e conviver pacificamente.

E quando estava a flutuar livremente no espaço? Sentiu-se mais consciente do planeta que se encontrava abaixo de si?

No que diz respeito ao meu voo na MMU, tenho de ser franco consigo, não olhei muito para baixo. O meu ponto de referência era o vaivém Challenger, e eu orientava-me segundo a posição do Challenger, tal como um avião que voa em formação com outro. A determinada altura, olhei efetivamente para baixo, para ver se conseguia reconhecer alguma coisa, e, por sorte, nesse preciso momento estávamos a sobrevoar a Flórida. Não há nada na Terra que se assemelhe à península da Flórida — o seu formato característico, o lago Okeechobee — portanto, reconheci-a imediata e inequivocamente. Daí, sobrevoámos as Baamas e ao longo do Atlântico Sul, e chegámos a terra, novamente, sobre a Namíbia.

Acha que alguma vez voltaremos à lua, ou que chegaremos a Marte?

Os transportes a partir da superfície da Terra estão a começar a ser comercializados, e eu acho que isso é uma coisa positiva. Estamos prestes a iniciar o lançamento comercial de tripulações, embora ache que o papel do governo é de ser o pioneiro. A 20 de julho de 1989, George Bush — comigo e milhares de outros na plateia — comprometeu-se a voltar à lua e a ir até Marte no espaço de 30 anos; em 2019 fazem-se 30 anos desde essa altura. Tenho a certeza que não chegaremos a Marte até lá.

[A cápsula espacial de última geração da NASA] Orion está a ser preparada, devendo acabar por nos levar até às luas de Marte. Este será, provavelmente, o primeiro passo, uma vez que é muito mais fácil ir e voltar até elas, podendo controlar as coisas da superfície com praticamente zero de atraso. Adicionalmente, quando levarmos seres humanos até Marte, já teremos de saber com um elevado grau de certeza se há vida no planeta. Sem querer ofender ninguém, mas as pessoas não são muito limpas.

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