Espaço

Só Há uma Forma da Humanidade Sobreviver: Ir Para Marte.

O futurista Michio Kaku antevê humanos a dançar ballet em Marte e a projetar os respetivos cérebros no cosmos. E os extraterrestres? Oh, eles estão a chegar.Wednesday, May 2

Por Simon Worrall

Ainda em criança, em Palo Alto, na Califórnia, construiu um acelerador de partículas na garagem. Mais tarde, foi um dos autores da Teoria das Cordas. Atualmente, com a sua farta cabeleira ondulada em tons de prata, Michio Kaku é um dos rostos mais reconhecidos da ciência, autor de vários best-sellers, que conta no currículo com inúmeras participações em televisão, incluindo no Discovery Channel e na BBC.

No seu mais recente livro, O Futuro da Humanidade, Michio Kaku defende, apaixonadamente, que o nosso futuro não está na Terra, mas sim nas estrelas.

Quando a National Geographic o entrevistou por telefone no seu gabinete em City College, em Nova Iorque, Michio Kaku explicou-nos como bilionários como Elon Musk estão a transformar as viagens espaciais; como a projeção por laser pode ser a melhor forma para alcançar outras galáxias; e como talvez um dia seja possível dançar ballet em Marte.

Fotografia da capa do livro "O Futuro da Humanidade" de Michio Kaku

Logo no início do livro, avança com uma visão premonitória inquietante: “Ou deixamos a Terra ou desapareceremos.” Serão as perspetivas da humanidade assim tão sombrias? Não será essa uma forma de alimentar esse sentimento niilístico de que não há nada que possamos fazer para salvar o planeta?

Se nos detivermos sobre a evolução na Terra, 99,9% de todas as formas de vida estão hoje extintas. Quando as coisas mudam, ou nos adaptamos ou morremos. É a lei da mãe natureza. Nós enfrentamos vários perigos. Primeiro, debatemo-nos com problemas autoinfligidos como o aquecimento global, a proliferação nuclear e a guerra bioquímica. Além disso, a mãe natureza arremessou contra a Terra vários ciclos de extinção. Os dinossauros, por exemplo, não dispunham de um programa espacial. E é por essa razão que não estão aqui hoje.

Por outro lado, não devemos usar isto como uma desculpa para poluir a Terra ou permitir que o aquecimento global aumente descontroladamente. Deveríamos procurar resolver estes problemas sem ter de partir para Marte ou outro planeta, porque será impossível deslocar toda a população da Terra para Marte. Estamos a falar de uma apólice de seguro, um plano de recurso, caso aconteça alguma coisa ao nosso planeta. Falei, em tempos, com Carl Sagan a este propósito e ele disse-me que “Vivemos no meio de um campo de tiro com milhares de asteroides na nossa rota, que ainda não descobrimos. Por isso, o plano de recurso passa por sermos uma espécie de dois planetas.”

Uma das imagens que evoca é a de uma coreografia de ballet na superfície de Marte. Por que razão esta imagem poderá ser um dia menos extravagante do que nos parece hoje?

Temos os jogos olímpicos, onde os atletas compreendem as leis da gravidade na Terra, mas, uma vez na Lua e em Marte, deparar-nos-emos com um conjunto totalmente diferente de limitações físicas. Aqui, os patinadores de gelo não vão além de um quádruplo axel, quatro rotações no ar e não passa disso! Nunca ninguém conseguiu um quíntuplo. No entanto, a gravidade em Marte é de apenas 30% em comparação com a Terra, por isso, um dia, poderemos assistir em Marte a umas olimpíadas, nas quais os atletas poderão completar quatro, cinco, seis, sete rotações no ar, assim como dançar ballet ou fazer acrobacias e ginástica. Poder-se-á formar uma nova elite de atletas adaptada a um novo ambiente, no qual a gravidade e a pressão atmosférica serão inferiores às da Terra. O astronauta Alan Shepard foi o primeiro a jogar golfe na Lua! Golfe! Fez-se acompanhar de dois tacos de golfe, sem que ninguém se apercebesse. A NASA ficou estarrecida e, no entanto, hoje podemos ver no Museu Smithsonian uma réplica dos tacos de golfe que ele usou para provar que o deporto interstelar poderá tornar-se uma possibilidade real.

Costuma usar a expressão “a quarta onda da ciência”. Pode explicar o que significa e de que forma será possível transformar um dia Marte à semelhança da Terra.

Tivemos três ondas de inovação científica. A primeira onda, a Revolução Industrial, deu-nos o motor a vapor, a locomotiva e as fábricas. A segunda onda deu-nos a eletricidade e o magnetismo e, por via destes, a televisão, os veículos de combustão interna e o início do programa espacial. A terceira revolução é tecnológica: computadores, lasers e a internet.

Hoje, assistimos à quarta onda de inovação: a inteligência artificial, a biotecnologia e a nanotecnologia. Esta realidade vai mudar a forma como vemos Marte. Muitas pessoas defendem que Marte é um planeta frio e deserto e que não há nada que se desenvolva naquele lugar. Hoje, podemos manipular, geneticamente, o ADN de plantas e algas para que possam prosperar na atmosfera marciana. Mas quem é que vai fazer todo o trabalho pesado? Todos nós gostaríamos de ver erguidas cidades futurísticas em Marte, mas, no final deste século, os robôs revelar-se-ão mais aptos ao trabalho em ambientes adversos, pelo que esperamos ver pedreiros robóticos a construir aquelas fantásticas cidades em cúpula, que conhecemos dos romances de ficção científica.

Elon Musk lançou, recentemente, para o espaço o seu velho descapotável Tesla Roadster. Fale-nos um pouco sobre a “batalha dos bilionários” e a forma como estão a esculpir o futuro.

Nos anos 60, o espaço era extremamente dispendioso. Essa é a razão pela qual, após a ida do homem à Lua, perdemos o interesse. Hoje em dia, assistimos a uma nova era de exploração do espaço, em parte porque uma nova elite de bilionários, oriundos de Silicon Valley, está empenhada em corporizar os seus sonhos de crianças, erguendo estações espaciais por sua conta e risco. O foguetão lunar Falcon Heavy lançado pela Space X foi financiado por dinheiros próprios de Elon Musk. Foi o foguetão mais potente de todos os tempos, sem que tenha saído um único cêntimo do bolso do contribuinte.

Tanto Musk, como a NASA têm os olhos postos em Marte como o próximo desafio. Fale-nos um pouco sobre os problemas que podemos vir a enfrentar e as soluções para resolver esses mesmos problemas.

Teremos de ser diligentes ao enviar os nossos astronautas para Marte. Três dias foram suficientes para irmos à Lua. Podemos partir numa segunda-feira e regressar numa sexta. Ir a Marte é outra conversa, totalmente diferente. Só para chegar a Marte são precisos nove meses, depois há que esperar alguns meses para que os planetas se realinhem, aos quais se seguem outros nove meses previstos para o regresso. Ora isto significa uma viagem de dois anos, em que a ausência de peso, a radiação cósmica e os micrometeoritos serão problemas a ter em conta. Para além disso, a superfície de Marte é gelada, pelo que terá de ser aquecida, um processo que designamos por terraformação.

Os primeiros colonos que se estabeleceram nos Estados Unidos há cerca de 400 anos tinham caça para abater, plantas para cultivar e solo arável para semear. Mas, no caso de Marte, teremos de ser nós próprios a transportar tudo aquilo de que necessitamos. É por isso que o custo é tão importante. É por isso que precisamos de robôs que assegurem o processo de construção, de culturas concebidas geneticamente que possam desenvolver-se naquele ambiente e da nanotecnologia para criar materiais de construção pré-fabricados, que sejam, simultaneamente, ultraleves e super-resistentes, para erguer cidades em cúpula.

Viajar para estrelas longínquas irá exigir novas formas de transporte. Fale-nos sobre o projeto, Breakthrough Starshot e outras ideias fantásticas, entretanto avançadas.

Mais uma vez, os bilionários de Silicon Valley mostram-se dispostos a desembolsar cheques na ordem dos 100 milhões de dólares para construir a primeira nave espacial a viajar até à estrela mais próxima, Proxima Centauri. A nossa mente está tão formatada pelo imaginário de Hollywood que somos levados a pensar que será necessário dispor de uma nave espacial gigante, como a Enterprise, com capitães heroicos ao comando, como o Capitão Kirk. No entanto, a primeira nave espacial a viajar até à Proxima Centauri poderá não ser maior do que um selo postal – uma estrutura computorizada, cheia de sensores e câmaras, equipada com um paraquedas, que é acionado por um feixe de laser emitido a partir da Terra, talvez uns 800 megawatts de energia, projetando esse minúsculo paraquedas a uma velocidade que deverá igualar 20% da velocidade da luz. Isto é exequível, acreditem ou não. Assim, dentro de 20 anos, alguns desses paraquedas podem alcançar a estrela mais próxima, com recurso à tecnologia convencional. Com o olhar no futuro adentro, os físicos já sonham com o foguetão da era pós-química, quando pudermos usar a antimatéria, a energia de fusão ou os estatorreatores para viajar a 50% da velocidade da luz, que poderá levar-nos até às estrelas.

Outro problema com as incursões no espaço profundo é que podem levar centenas de anos-luz até chegar ao destino. Propõe que os astronautas sejam sujeitos a um processo de ultra-criogenização e, posteriormente, descongelados no outro extremo. Citando John McEnroe: “Não está a falar a sério, pois não?”.

As estrelas situam-se a grande distância, mas esperamos poder um dia fazer uso da física avançada para viajar mais rápido do que a velocidade da luz – a warp drive da série Stark Trek. Até que tal seja possível, estamos confinados a foguetões que se deslocam a velocidades inferiores à velocidade da luz, pelo que seriam necessárias centenas de anos para alcançar os planetas que fomos descobrindo e que se assemelham à Terra. Tal significa que temos de descobrir o segredo para estender o tempo de vida do homem ou aprender como congelarmo-nos. Algumas empresas já oferecem serviços de criogenização de seres humanos, na esperança de que, quando os corpos sejam descongelados, já tenha sido descoberta a cura para o cancro e outras doenças. Não acreditem nisso. Estas empresas, a meu ver, são uma fraude. Ainda assim, não deixa de ser uma possibilidade que merece ser considerada.

Foram descobertos cerca de 60 genes que parecem influir no tempo de vida dos seres humanos e sabemos hoje que determinados genes permitem que alguns animais vivam durante séculos. O tubarão da Gronelândia, por exemplo, vive para além dos 400 anos. Por isso, a genética pode tornar possível o abrandamento do processo de envelhecimento.

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A sua solução preferida é aquela que chama de projeção por laser. Explique-nos o seu conceito e de que forma o Human Connectome Project pode ser pioneiro.

O primeiro grande projeto científico foi o Projeto Manhattan, que nos deu a bomba atómica. O segundo foi o Projeto Genoma Humano, que nos deu a conhecer o genoma humano. O terceiro poderá ser o projeto Conectoma. Muitos países, incluindo os Estados Unidos, defendem que o cérebro é a chave para compreender a saúde mental, a depressão e o suicídio. Tudo isto poderá talvez ser desvendado, se nos for possível compreender o conectoma, que é um mapa do cérebro no seu todo.

Esperamos dispor desse mapa no final deste século. Mas, uma vez alcançado o objetivo, o que é que fazemos com isso? Podemos pensar a doença mental, mas também podemos colocá-la num feixe de laser e dispará-la em direção ao espaço sideral. Num segundo, estaríamos na Lua; em 20 minutos em Marte e, em anos, estaríamos na estrela mais próxima. Por essa razão defendo que a projeção por laser é talvez a forma mais eficiente de explorar a galáxia sem foguetões de propulsão, perigos radioativos ou outros problemas decorrentes do impacto de asteroides. Simplesmente, projetamo-nos por laser!

Terminemos com a pergunta de um milhão: estabeleceremos algum dia contacto com outra civilização no espaço sideral? E concorda com Stephen Hawking, que advertiu para os perigos desse contacto?

Acredito, seriamente, que devemos ter presente essa advertência, porque iremos encontrar outras formas de vida planetária. Provavelmente, estarão uns milhares de anos mais à frente do que a nossa civilização. Não me parece que queiram apropriar-se dos nossos recursos, porque há por aí uma série de planetas desabitados, como Marte, dos quais se podem assenhorear sem que tenham de lidar com nativos inquietos como nós. A principal ameaça é que podemos estar atravessados no seu caminho. No romance A Guerra dos Mundos, os marcianos queriam dominar a Terra, não porque fossem maus ou porque não gostassem do Homo Sapiens. Simplesmente, tinham de nos afastar do meio do caminho para que os marcianos pudessem desenvolver-se na Terra e terraformar o planeta para que se assemelhasse a Marte.

Foram descobertos, até aos nossos dias, 4000 planetas na galáxia e sabemos hoje que, em média, cada estrela na galáxia possui um planeta de algum género. Por isso, penso que é inevitável que nos cruzemos com uma dessas civilizações avançadas e esse encontro mudará o rumo da história mundial. Nada que se assemelhe ao encontro entre Cortez e Montezuma e a destruição da civilização Azteca numa fração de meses. Os conquistadores tinham uma agenda própria. Pretendiam apropriar-se do ouro dos aztecas. Não me parece que os extraterrestres sigam por essa via. E, com sorte, haverá um mentor que nos guiará rumo ao futuro, sem ter de entrar em guerras e recorrer à selvajaria ou à barbárie.

Esta entrevista foi editada por motivos de clareza e extensão.

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