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A Lua Pode Ter Atividade Tectónica e os Geólogos Estão Abalados

Um novo olhar sobre os dados sísmicos da era Apollo revelam que o interior da lua pode ser mais quente do que os cientistas imaginavam.Wednesday, May 22

Por Adam Mann
O nosso pequeno satélite cinzento pode ser mais ativo do que se presumia anteriormente, de acordo com instrumentos colocados na lua durante a era Apollo.

Quando se quer construir um posto avançado remoto convém evitar falhas sísmicas ativas. Contudo, para as pessoas que planeiam construir habitações humanas na lua, perceber se o nosso pequeno satélite natural é um mundo geologicamente morto nem sempre foi evidente. Na realidade, é necessário existir calor para que haja atividade tectónica, e acredita-se que os pequenos mundos rochosos, como a lua, arrefeçam mais rapidamente que os mundos maiores, como a Terra.

Mas agora, uma nova análise dos dados da era Apollo sugere que a lua tem mais atividade tectónica do que se pensava anteriormente.

Num estudo publicado no dia 13 de maio, na revista Nature Geoscience, os investigadores podem ter identificado finalmente os epicentros dos misteriosos sismos lunares registados pelos instrumentos da era Apollo, e os tremores parecem ter origem em zonas com características semelhantes a falésias, chamadas escarpas de falhas.

“A ideia de que um corpo rochoso com 4.6 mil milhões de anos, como a lua, conseguiu manter o seu interior suficientemente quente para produzir esta rede de falhas desafia a sabedoria convencional”, diz o coautor do estudo, Thomas Watters, do Instituto Smithsonian, em Washington, D.C.

Marés Rochosas
Os feitos notáveis da Apollo 11 celebram 50 anos este verão. Na altura, durante a corrida espacial, os Estados Unidos estavam mais interessados em levar e trazer os seus astronautas da superfície lunar antes dos soviéticos do que estudar a lua.

“Eles perceberam que precisavam de inventar algo para justificar a viagem”, diz a coautora do estudo, Renee Weber, cientista planetária no Centro de Voo Espacial Marshall, em Huntsville, no Alabama.

Esse algo acabou por ser ciência – recolheram diversos dados geológicos, incluindo amostras rochosas que foram trazidas para a Terra. Em quatro das missões Apollo, os astronautas colocaram sismógrafos nas suas zonas de aterragem, registando milhares de sismos durante os oito anos em que permaneceram funcionais.

A sismicidade da lua depende de mecanismos subjacentes muito diferentes dos do nosso planeta, diz Weber. A maior parte da atividade lunar origina de forças gravitacionais que a Terra exerce sobre o seu pequeno satélite cinzento. Basicamente, é o processo inverso de como a lua desloca os nossos oceanos para subir e descer regularmente as marés. Sem água, a superfície lunar deforma-se, estendendo-se de uma forma esférica para outra mais oblonga e vice-versa.

A disparidade na alteração da temperatura entre o dia e a noite, que pode exceder os 260 graus Celsius, também provoca alguma da atividade sísmica lunar. Alguns dos sismos detetados foram provocados pelo homem, gerados quando o controlo das missões Apollo ordenou que partes descartáveis das naves caíssem na lua para calibrar os sismómetros.

Dos eventos registados, 28 pareciam ter origem nos quilómetros iniciais da crosta lunar. O poder desses eventos atingiu magnitudes equivalentes a 5.5 no nosso planeta, e desafiam o nosso conhecimento há mais de 40 anos.

Investigação Sísmica
Desde 2009, Watters tem usado imagens do Orbitador de Reconhecimento Lunar da NASA para mapear milhares de escarpas à volta da lua. Com base na frescura aparente do material lunar em torno das escarpas, Watters conseguiu verificar que estas tinham uma formação relativamente recente, provavelmente com menos de 50 milhões de anos – “geologicamente é recente, mas não é novo, novo.”

Ainda assim, Watters suspeitava que as escarpas podiam ser as zonas responsáveis pelos sismos a pouca profundidade, mas eram necessárias mais provas. Com quatro sismógrafos que produziam dados de baixa qualidade, os instrumentos da Apollo só conseguiam triangular os abalos num raio de cerca de 150 km.

Este mapa de tremores sísmicos, criado a partir de imagens da NASA, mostra o movimento que se espera de um 'tremor lunar' superficial, numa falha de impulso associada à escarpa de Mandel'shtam, na superfície lunar.

Os investigadores recorreram um algoritmo que é normalmente usado para determinar a localização de terramotos na Terra, quando as redes de sismógrafos são dispersas, criando uma grade de pontos putativos de origem para os sismos lunares. Dos 28 eventos registados, oito podem ter ocorrido a cerca de 30 km de uma escarpa, e seis ocorreram quando a lua estava no seu ponto mais distante da Terra, precisamente quando as tensões das marés na superfície lunar deveriam atingir o pico.

Para verificar se a correlação não era uma coincidência, a equipa simulou 10.000 eventos sísmicos para observar com que frequência estes conseguiam produzir um padrão semelhante. Descobriram que as probabilidades de todos esses fatores se alinharem dessa forma era de 1%. Para Watters, isso sugere que as escarpas são os epicentros mais prováveis dos sismos lunares.

“Para todos os efeitos, isso significa que a lua tem atividade tectónica”, diz. “Para mim, isso é um resultado espantoso.”

De Olhos nas Escarpas
Contudo, as incertezas presentes nos resultados significam que outros investigadores ainda não encerraram o caso.

"Eles usam muitos argumentos estatísticos, e acredito que praticam uma boa ciência, mas eu não diria que está tudo esclarecido", diz Ceri Nunn, que trabalha em sismologia lunar no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, na Califórnia. Ainda assim, dada a fraca qualidade dos dados originais, Nunn acredita que a equipa fixou os locais dos epicentros o melhor possível, pelo menos por enquanto.

Weber e outros investigadores preparam-se para propor uma missão para colocar uma nova rede de sismómetros de última geração na lua, talvez a tocar numa escarpa ou nas suas proximidades.

Entretanto, dado o interesse renovado na exploração lunar por parte de países e empresas privadas de todo o mundo, as descobertas fornecem um bom mapa para os locais a evitar pelos próximos módulos de aterragem lunares.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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