Veja Como os Cientistas da Era Apollo Imaginavam a Vida na Lua

Na década de 1960, os especialistas utilizaram a melhor ciência da época para mostrar como os humanos poderiam viver e trabalhar em solo lunar.segunda-feira, 1 de julho de 2019

Em 1964, os artistas Pierre Mion e Davis Meltzer estavam a trabalhar numa sala isolada a ilustrar os planos da NASA para a Apollo 11, a missão que, em 1969, colocaria finalmente os primeiros humanos na Lua.

"Estávamos a olhar para os planos reais do veículo espacial, e essas informações eram confidenciais", recorda Mion. "Nós estávamos literalmente trancados naquela sala."

As suas ilustrações de diversas missões lunares – com algumas previsões para os próximos passos da vida lunar – surgiram finalmente na National Geographic e em outras revistas da era Apollo, oferecendo aos leitores um vislumbre da exploração fora do nosso mundo baseada na melhor ciência disponível na altura.

"Saber como seria o futuro pode ter estragado parte do romance espacial", disse Matthew Hersch, historiador de ciência na Universidade de Harvard. "Mas saber que as naves espaciais reais voariam até à lua compensou esse fator em termos de excitação pública."

Imaginar a Lua
Uma ilustração do módulo lunar Eagle a voar por cima da superfície da lua, publicada na edição de março de 1964 da National Geographic, inclui uma paisagem lunar que não parece muito diferente das imagens de satélite que vemos atualmente. No entanto, no início dos anos 1960, a ideia de terreno lunar coberto de crateras estava na vanguarda da geologia planetária.

Naquela época, alguns cientistas pensavam que a lua teria montanhas irregulares, sem chuva e vento para erodir a superfície. Outros preocupavam-se que a poeira lunar fosse tão rarefeita que qualquer coisa que ali aterrasse se afundasse por completo.

A ilustração de Mion era muita exata porque ele trabalhou em estreita colaboração com o astrólogo Eugene Shoemaker, cujo estudo das crateras da lua revelou que o nosso satélite natural era coberto por uma camada fina de poeira, chamada rególito.

"Se ele trabalhou com Shoemaker, trabalhou com o melhor especialista da altura", diz Tom Watters, cientista sénior no Centro de Estudos Planetários e da Terra do Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian. “Shoemaker fez alguns dos trabalhos mais importantes da ciência planetária.”

Watters é atualmente um dos investigadores na Câmara de Reconhecimento Orbital Lunar, ou LROC na sigla em inglês, que orbita a lua e tira fotografias de alta resolução da sua superfície. A câmara consegue distinguir objetos na lua com menos de um metro de largura, incluindo alguns dos vestígios das zonas de aterragem da Apollo e os trilhos das pegadas que os astronautas deixaram.

Watters comparou as imagens da LROC do local de aterragem da Apollo 11 com uma ilustração do Módulo Lunar feita por Mion, em dezembro de 1969, uma visão imaginária baseada em parte em fotografias tiradas por Neil Armstrong e Buzz Aldrin enquanto caminhavam na lua.

"É uma representação muito boa", observou Watters. "É um trabalho que não está nada mau."

Watters é atualmente um dos investigadores na Câmara de Reconhecimento Orbital Lunar, ou LROC na sigla em inglês, que orbita a lua e tira fotografias de alta resolução da sua superfície. A câmara consegue distinguir objetos na lua com menos de um metro de largura, incluindo alguns dos vestígios das zonas de aterragem da Apollo e os trilhos das pegadas que os astronautas deixaram.

Watters comparou as imagens da LROC do local de aterragem da Apollo 11 com uma ilustração do Módulo Lunar feita por Mion, em dezembro de 1969, uma visão imaginária baseada em parte em fotografias tiradas por Neil Armstrong e Buzz Aldrin enquanto caminhavam na lua.

"É uma representação muito boa", observou Watters. "É um trabalho que não está nada mau."

 

Da Arte à Engenharia
Nos seus trabalhos preditivos, os ilustradores também revelaram uma enorme atenção aos detalhes e muita precisão científica.

Um olhar mais atento sobre a ilustração de Meltzer, de uma colónia lunar de 1969, revela uma cafetaria, uma quinta hidropónica e uma mesa de pingue-pongue. De acordo com a legenda original, “um pequeno observatório estuda os céus, com uma visão desobstruída da atmosfera terrestre”. À distância, um “foguetão viajante” está prestes a regressar à Terra.

Mais importante ainda, a base está situada quase inteiramente no subsolo para proteger os seus habitantes das radiações, das temperaturas extremas e de outros perigos que enfrentariam na superfície lunar desprovida de oxigénio. Por exemplo, entre 2009 e 2016, a LROC avistou mais de 200 novas crateras de impacto na lua com mais de 40 metros de diâmetro.

FRONTEIRAS DA ERA ESPACIAL, FEVEREIRO DE 1969 "Com base no pensamento mais avançado dos especialistas, o artista Davis Meltzer retratou um posto avançado lunar que pode vir a existir dentro de uma geração", diz a legenda desta ilustração publicada na edição de fevereiro de 1969 da National Geographic. Um dos conceitos aqui descritos é a mineração de rochas lunares para obter água que, “não só enche a piscina da estação, como também produz oxigénio para respirar e hidrogénio para combustível”.
Fotografia de DAVIS MELTZER, NAT GEO IMAGE COLLECTION (ILUSTRAÇÃO)

"Esta imagem impressionou-me, não tanto em termos da precisão do terreno, mas sobretudo o pensamento de como poderíamos construir um habitat na lua", diz Watters. “Não gostaríamos de ter um habitat na superfície da lua e sermos atingidos por algo que poderia criar uma cratera de dez metros.” (As rochas lunares recolhidas durante as missões Apollo também estão a revelar uma quantidade surpreendente de água nas profundezas da lua.)

A equipa da LROC, à medida que capta imagens da superfície da lua, também identifica locais que podem funcionar como bases lunares. Watters diz que um dos principais candidatos seria um túnel de lava, uma caverna enorme deixada por um antigo fluxo de lava lunar. Ao construir uma base num túnel de lava, os futuros colonos poderiam evitar o longo processo de escavação de um estaleiro subterrâneo de obras.

Para a Frente e Para Cima
Quando a ilustração da base lunar de Meltzer foi publicada, a construção de uma colónia na lua parecia ser o passo mais óbvio na exploração espacial. A Promessa do Espaço, de Arthur C. Clarke, de 1968, foi citada ao lado da ilustração de Meltzer: “É estranho pensar que daqui a alguns anos qualquer astrónomo amador com um bom telescópio conseguirá ver as luzes das primeiras expedições, brilhando em lugares onde as estrelas não existem, abraçados pela lua crescente.”

Mas até agora nenhum país conseguiu esse feito. Depois dos primeiros astronautas norte-americanos terem chegado à Lua, em 1969, Hersch afirma que “a mudança de prioridades, as dificuldades económicas e a guerra do Vietname minaram o financiamento de programas de acompanhamento”. O último astronauta na lua, Eugene Cernan, deixou a superfície lunar em dezembro de 1972.

Ainda assim, à medida que a NASA avança com parcerias comerciais para voos espaciais e com o Space Launch System, o próximo foguetão a ter poder suficiente para transportar humanos para o espaço profundo, estas visões coloridas são uma recordação do potencial da humanidade e uma inspiração para continuarmos a alcançar as estrelas.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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