Espaço

Avistado Cometa Bizarro de Outro Sistema Estelar

Descoberto por um astrónomo amador, este objeto é o segundo do seu tipo a ser detetado.quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Por Michael Greshko
Esta ilustração mostra o 'Oumuamua, o primeiro visitante interestelar detetado. No dia 30 de agosto, um astrónomo amador detetou o que pode vir a ser o seu sucessor, um cometa chamado C/2019 Q4 (Borisov). O trajeto orbital do cometa sugere que este pode fazer uma visita única ao nosso sistema solar.

Na madrugada de 30 de agosto, um astrónomo amador ucraniano, chamado Gennady Borisov, avistou um cometa estranho no nosso sistema solar. Agora, os astrónomos verificaram provisoriamente que o objeto, chamado C/2019 Q4 (Borisov), se está a mover demasiado depressa para ser afetado pela gravidade do sol – um sinal de que provavelmente estamos perante um intruso interestelar.

Se estes resultados forem validados, o C/2019 Q4 poderá ser o segundo visitante de outro sistema estelar alguma vez detetado, após a descoberta em 2017 da enigmática rocha espacial denominada 'Oumuamua. Embora ainda não se conheçam as origens do C/2019 Q4, já foi confirmado que se trata de um cometa. Os astrónomos detetaram que o objeto – que provavelmente tem alguns quilómetros de comprimento – tem uma camada difusa de poeira e gás que se forma à medida que a luz solar aquece a sua superfície gelada.

Isso significa que, ao contrário do que aconteceu com o 'Oumuamua, os cientistas conseguem recolher muito mais dados sobre a sua composição. Por um lado, o C/2019 Q4 é maior e mais brilhante, oferecendo mais oportunidades para estudar a sua luz e obter pistas químicas. Para além disso, os astrónomos só descobriram o 'Oumuamua quando este já estava a sair do sistema solar – mas o C/2019 Q4 ainda se está a aproximar. A sua maior aproximação ao sol acontecerá no dia 7 de dezembro, ficando mais próximo da Terra, a cerca de 290 milhões de km de distância, no dia 29 de dezembro.

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"Este é o primeiro objeto altamente ativo que alguma vez observámos, e vem de algo que se formou em torno de outra estrela", diz Michele Bannister, astrónoma na Universidade Queen's de Belfast. Michele acrescenta que as observações do C/2019 Q4 só poderão ser retomadas em meados de outubro, devido à sua posição em relação ao sol. Mas, durante os próximos meses, os astrónomos vão ficar de olhos postos no céu para obterem o que pode vir a ser a melhor observação possível, até à data, de um visitante interestelar.

"O melhor disto tudo é que vamos poder observá-lo durante um ano", diz Matthew Holman, diretor interino do Minor Planet Center, da União Astronómica Internacional, que no dia 11 de setembro publicou a verificação do trajeto do C/2019 Q4.

“Vamos poder ver um bocadinho de outro sistema solar”, acrescenta Matthew, “e mesmo sem sabermos de onde vem, é fantástico.”

Muito excêntrico
Borisov, caçador de cometas há muitos anos, encontrou o C/2019 Q4 concentrando as suas observações (feitas no Observatório Astrofísico da Crimeia) no horizonte baixo a nordeste, numa faixa de céu perto da constelação Gémeos. Os astrónomos evitam olhar para estas manchas "brilhantes" no céu perto do horizonte, pois são difíceis de observar e podem danificar as óticas sensíveis dos telescópios.

Os primeiros relatórios da descoberta de Borisov geraram ondas de entusiasmo entre os astrónomos. Quanzhi Ye, da Universidade de Maryland, teve conhecimento do cometa através de um comentário feito por colega num email de grupo, onde falava do estranho trajeto orbital deste corpo. Ye também reparou que o Scout, um serviço de rastreamento de cometas e asteroides administrado pelo Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, continuava a calcular que, aparentemente, o objeto não tinha uma órbita circular ou elíptica.

Ye ficou fascinado com um dos parâmetros orbitais do cometa: a sua excentricidade. Se a excentricidade de uma órbita for zero, o objeto traça um círculo perfeito em torno da sua estrela local. Quanto mais alongada e estreita for a órbita, mais próxima a excentricidade fica de uma estrela. No nosso sistema solar, se um objeto tiver uma excentricidade superior a 1, significa que tem uma trajetória em forma de arco – e só vai passar por nós uma vez. O Minor Planet Center diz que a excentricidade do C/2019 Q4 é superior a 3.

De acordo com Ye, é pouco provável que o C/2019 Q4 seja um cometa formado nas extremidades do sistema solar e que, de alguma forma, tenha sido empurrado para uma trajetória de fuga. Para obter esse tipo de abanão, um cometa precisaria de se aproximar de um objeto que fosse grande o suficiente para alterar o seu rumo, como um planeta. Mas, tanto quanto os astrónomos sabem, no nosso sistema solar o C/2019 Q4 passou extremamente longe de objetos colossais. Os planetas orbitam em torno do sol mais ou menos alinhados no mesmo plano, mas o C/2019 Q4 parece estar a mergulhar a pique no sistema solar com um ângulo de 44 graus.

“É por isso que dizemos que as perturbações gravitacionais são quase impossíveis”, diz Ye.

Hora do telescópio
Os cálculos dos astrónomos dizem que, a qualquer momento, podem existir um cometa ou asteroide interestelar dentro da órbita de Marte, e cerca de 10.000 dentro da órbita de Neptuno – mas esses objetos são minúsculos e muito ténues, tornando a sua observação quase impossível.

O 'Oumuamua, o primeiro visitante interestelar detetado no nosso sistema solar, deu um breve ar da sua graça no outono de 2017. Os astrónomos só o avistaram quando este já estava de saída do sistema solar, a uma velocidade que rondava os 175.000 km por hora. Mas, no pouco tempo que tiveram para o observar, os cientistas e entusiastas de todo o planeta viraram os seus telescópios para o objeto, reunindo inúmeros dados sobre este pedaço de entulho cósmico.

Nos melhores telescópios, o objeto distante parecia apenas um alfinete de luz, mas a intensidade do seu brilho e escurecimento, em períodos de poucas horas, sugeriam que se tratava de um objeto alongado. Os astrónomos estimam que o objeto tinha entre 180 e 400 metros de comprimento, mas apenas 40 metros de largura, dando a este corpo rochoso uma aparência parecida com um lápis.

E ainda mais curioso, o 'Oumuamua não manteve sempre a mesma velocidade. Depois de passar pelo o sol, no início de 2018, acelerou inesperadamente. E as especulações em torno da causa provável começaram a surgir. Os professores de Harvard, Shmuel Bialy e Abraham Loeb, apresentaram uma ideia de outro mundo: talvez fosse uma nave espacial a usar uma vela solar, enviada por uma civilização alienígena.

Mas existe outra explicação menos virtuosa. De acordo com outra investigação, os orifícios na superfície do objeto podem ter libertado jatos de gases que o impulsionaram, num surto de atividade cometária demasiado fraca para ser captada pelos nossos telescópios. Ou então, o 'Oumuamua podia ser um aglomerado de gelo poroso, leve o suficiente para receber um impulso da luz solar.

O 'Oumuamua deixou muitos mistérios que podem nunca vir a ser desvendados, por isso é que a perspetiva de estudar com mais detalhe o C/2019 Q4 é tão emocionante para os astrónomos. Quando perguntaram a Ye o que é que ele fez quando viu a validação do Minor Planet Center, o astrónomo respondeu: "Sim!!! Está na hora do telescópio!!!"
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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