Os Eleitos: A História do Projeto Mercury em Sete Objetos

Desde aviões que quebraram a barreira do som a automóveis impressionantes – estes artefactos definiram o nascimento do programa espacial americano.

Tuesday, October 6, 2020,
Por Simon Ingram
Materiais da era espacial para um estilo de vida da era espacial: desde aeronaves experimentais a ...

Materiais da era espacial para um estilo de vida da era espacial: desde aeronaves experimentais a foguetões e automóveis, estes objetos definiram a estética da corrida norte-americana para “abrir um buraco no céu”.

Fotografia de MUSEU NACIONAL DO AR E ESPAÇO SMITHSONIAN / NASA / ALAMY

Na América em finais da década de 1950, todos os olhos estavam postos no céu. A Segunda Guerra Mundial tinha terminado. A Guerra Fria estava a aquecer e com isso nascia uma corrida entre os Estados Unidos e a URSS. O prémio era uma inovação tecnológica inédita: colocar um humano no espaço.

Alicerçados sobre as ruínas do desenvolvimento frenético que definiu os últimos anos da Segunda Guerra Mundial, os avanços que alimentaram esta “corrida espacial” aconteceram rapidamente. E também foram extremamente dispendiosos e, ocasionalmente, foram sustentados por informações de origem obscura – muitas delas obtidas de antigos cientistas nazis e usadas tanto pelos soviéticos como pela NASA (então NACA) como parte da Operação Paperclip. Esta competição em ambos os lados da Cortina de Ferro levou inevitavelmente à era mais balística dos voos espaciais – culminando nos EUA com o Projeto Mercury, o primeiro programa espacial tripulado da América.

(Relacionado: Veja as naves espaciais soviéticas abandonadas no deserto do Cazaquistão.)

Recrutaram-se pilotos de testes de todas as áreas militares e os desafios que se seguiam eram impressionantes. Sabia-se pouco sobre a capacidade de resistência humana à gravidade zero, sobre a “vaga de calor” na reentrada, as extremas forças G, os raios cósmicos potencialmente letais e a viabilidade de se traçar um percurso para ir ao espaço e regressar com segurança à Terra dentro das tolerâncias mínimas necessárias para a vida. O exaustivo processo de seleção dos primeiros “astronautas” americanos oferecia aos poucos eleitos a perspetiva polarizadora de glória ou esquecimento – com um grau de erro ínfimo a ser decisivo.

Os “Mercury 7” – o nome dado aos pilotos de teste selecionados para o primeiro programa de astronautas dos EUA – tornaram-se celebridades e as suas famílias ficaram no centro das atenções internacionais. As suas vidas foram dramatizadas por Tom Wolfe no livro Os Eleitos – que agora recebe uma nova adaptação no Disney+. (A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic.)

Fotografia de NASA

Foi uma época preenchida por personagens e estilos de vida grandiosos, com grandes ambições e perigos constantes. E o novo mundo tecnicolor das televisões, revistas e notícias transmitidas em casa deram aos sete astronautas selecionados,e respetivas famílias, o estatuto de celebridades da vida real.

Dramatizado em 1979 no livro Os Eleitos de Tom Wolfe – e agora numa nova adaptação no Disney+ – o Projeto Mercury também definiu o visual da era espacial com uma estética extraída da realidade abastada e livre da América de finais dos anos 1950. Foi uma era de carros inspirados em naves espaciais, de pilotos que aspiravam a ser astronautas e onde a tecnologia testava os limites do que era possível.


Desde tesouros da cultura americana a objetos repletos de engenhosidade e adrenalina, eis os sete artefactos que – com contribuições grandes e pequenas – ajudaram a definir esta era espacial.

1. Bell X-1 
Em 1947, quando Chuck Yeager quebrou a barreira do som no Bell X-1,  um avião em forma de bala que Chuck apelidou de “Glamorosa Glennis” em homenagem à sua esposa, foi quando se deu efetivamente o início do voo espacial humano

Chuck Yeager foi um piloto de combate extraordinário durante a Segunda Guerra Mundial antes de fazer voos de teste em aeronaves experimentais – com o objetivo de melhorar o design das aeronaves. Chuck partiu duas costelas ao cair de um cavalo dias antes do seu voo recorde no X-1; entrar no avião era por si só um desafio – mesmo sem problemas de saúde – e o piloto secretamente lesionado tinha de usar um cabo de vassoura para conseguir fechar a porta do avião.

O Bell X-1, pilotado por Chuck Yeager, foi o primeiro avião a quebrar a barreira do som.

Fotografia de MUSEU NACIONAL DO AR E ESPAÇO SMITHSONIAN

“O medo encolheu-se nas profundezas da mente – presente, justificado, mas bem controlado”, escreveu Chuck Yeager mais tarde sobre o momento em que o X-1 – que era apenas um foguetão cor de laranja com asas – foi lançado a 6000 metros de altitude de um avião B-29. O X-1 ligou os seus propulsores, ultrapassou os 13.000 metros de altitude e, cinco minutos depois, acelerava através da barreira do som para atingir uma velocidade de Mach 1.06 (aproximadamente 1300 quilómetros por hora). Chuck fez um voo supersónico durante 18 segundos, antes de aterrar sem motor num lago da Califórnia.

Chuck Yeager (à direita) e o ator Sam Shepard posam ao lado de uma réplica do Bell X-1 usada na adaptação cinematográfica de Philip Kauffman Os Eleitos (1983). Sam Shepard interpretou Chuck Yeager no filme; o próprio Chuck foi consultor técnico.

Fotografia de EVERETT COLLECTION / ALAMY

A visão do piloto dentro do Bell X-1 revela os instrumentos de 1947 semelhantes aos dos caças da época; no canto superior direito vemos o importante “Machometer” que mostra a proporção da velocidade real do ar em relação à velocidade do som.

Fotografia de MUSEU NACIONAL DO AR E ESPAÇO SMITHSONIAN

Apesar de reunir as qualidades implacáveis que Tom Wolfe considerava “de eleição”, Chuck Yeager nunca chegou a ser astronauta. Em vez disso, regressou ao comando de combate e retirou-se enquanto general de brigada em 1975, depois de ter sido destacado durante a Guerra Fria e guerra do Vietname. Chuck quebrou a barreira do som pela última vez em 2012 num caça F-15 e é o único sobrevivente – agora com 97 anos – de todos os membros da equipa Mercury 7. De acordo com a entrevista que deu à Wired em 2014, a sua experiência no início da corrida espacial foi bastante diferente da vivida nos glamorosos anos que se seguiram: “Não recebíamos casas de graça ou notoriedade. Estávamos a trabalhar arduamente por 250 dólares por mês. E muitos de nós morriam no processo.”

Localização atual: Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian, Washington D.C. 

2. Cabine-Sofá Primata
Um dos aspetos controversos do programa Mercury 7 foi a utilização de animais como teste. Vários animais tornaram-se “astronautas” durante os primeiros voos da NASA, à semelhança do que acontecia com os rivais soviéticos na “corrida espacial”. A URSS tinha uma predileção por enviar cães para o espaço com um objetivo semelhante: testar a capacidade de resistência de criaturas vivas aos rigores do voo espacial. Ao contrário dos cães russos mais famosos (a cadela Laika, por exemplo, estava designada para uma viagem só de ida), a maioria dos animais que a NASA enviava tinha como objetivo regressar em segurança. Isto incluía os primeiros seres enviados para o espaço: um lote de moscas da fruta lançadas na cápsula de um míssil V-2 nazi capturado em 1947, que regressou de paraquedas em segurança à Terra.

Ham é colocado no seu “sofá” – moldado à sua medida, como acontecia com os outros astronautas do Projeto Mercury – em janeiro de 1961.

Fotografia de NASA

Os infames “astro-chimpanzés” fizeram os testes finais antes de os humanos rumarem ao espaço, e estes animais também tinham o seu próprio processo de seleção. Eventualmente, seis chimpanzés de uma seleção de 40 conseguiram chegar à fase de pré-voo. Este desenvolvimento vinha de lançamentos anteriores que envolviam macacos mais pequenos, e os chimpanzés foram escolhidos porque eram “inteligentes e geralmente dóceis... e eram primatas com tamanho e sapiência suficientes para fornecer uma simulação razoável do comportamento humano”.

Mas os chimpanzés não eram meros passageiros: na tentativa de provar que era possível executar tarefas básicas no espaço, todos os chimpanzés eram treinados para acionar uma alavanca em resposta a uma luz azul. Este processo envolvia um pequeno choque elétrico na planta do pé caso houvesse uma ação errada, e era usado um pedaço de banana como recompensa para uma ação correta.

Selecionado por ser “particularmente energético e bem humorado”, o chimpanzé Ham foi lançado no dia 31 de janeiro de 1961 e atingiu uma altitude de 250 quilómetros e 18 G – e puxou a sua alavanca com sucesso quando foi solicitado. No voo de 16 minutos, Ham sentiu durante cerca de seis minutos a ausência de peso.

Muitos dos voos com animais tiveram um final trágico na aterragem; o voo de Ham quase que não foi uma exceção. A sua cápsula começou a inundar quando amarou, mas foi recuperada com sucesso e Ham foi descrito como estando “aparentemente tranquilo” – embora alguns comentadores tivessem posteriormente discordado, insistindo que o sorriso do chimpanzé era na verdade uma careta. A sua imagem apareceu nas capas de revistas, incluindo na Life, e Ham foi tema de vários documentários.

Esquerda: Ham na sua cápsula de suporte de vida. A cápsula – uma alternativa ao fato espacial – foi construída em torno do assento, ou sofá, para oferecer proteção em caso de despressurização.
Direita: Depois de amarar, Ham cumprimenta o capitão do navio de recuperação USS Donner com um “aperto de mão”.

Fotografia de NASA

Um segundo chimpanzé, chamado Enos, entrou em órbita no dia 29 de novembro de 1961, antes do primeiro voo orbital de John Glenn em fevereiro do ano seguinte. Enos também regressou em segurança, mas um problema a bordo acabou por resultar em choques elétricos para o chimpanzé, mesmo quando respondia corretamente às suas tarefas.

Tal como Enos, Ham só teve direito a nome (supostamente um acrónimo de Centro Aeroespacial Médico Holloman, onde foi treinado) quando regressou do espaço. Antes do voo, Ham era simplesmente designado pelo número 65, para tornar anónima a personalidade do animal caso uma missão fracassasse, evitando assim os subsequentes títulos negativos nos jornais.

Ham morreu em 1983 num zoo na Carolina do Norte. Mas a controvérsia surgiu quando se fizeram planos para colocar o corpo do chimpanzé em exposição, pelo que os seus restos mortais – para além do esqueleto, que foi usado para investigação – foram respeitosamente enterrados no International Space Hall of Fame em Alamogordo, no Novo México.

O voo de Ham, apesar de ter sido considerado um sucesso, também suscitou questões sobre a forma como os primatas eram usados no interesse dos progressos espaciais. Esta prática acabou por ser proibida pela NASA em 1997, quando a agência se retirou do projeto de investigação Bion EUA-Rússia, depois da morte de um macaco chamado Multik.

A primatóloga Jane Goodall ficou horrorizada quando viu as imagens do voo de Ham de 1961. Em 2013, Jane disse a Henry Nicholls do The Guardian: “Nunca vi tanto terror no rosto de um chimpanzé”.

Localização atual: O Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian tem várias cápsulas-sofá para primatas na sua coleção. Ham foi sepultado no International Space Hall of Fame, no Novo México.

3. Fato Espacial MR-3 de Alan Shepard
Embora John Glenn se tenha tornado no primeiro americano a orbitar o planeta, Alan Shepard teve a distinção de ser o primeiro americano a entrar no espaço. O fato que usava – projetado pelo fabricante de pneus B.F. Goodrich – foi desenvolvido a partir de um fato de altas altitudes usado pela Marinha dos Estados Unidos e passou por várias iterações de design conforme o Projeto Mercury avançava.

Com um revestimento exterior de nylon de alumínio e um revestimento interior de nylon neopreno, os fatos eram usados principalmente “vazios” – e nunca foram completamente pressurizados durante os voos do Projeto Mercury. Esta característica do fato, que reduzia muito a mobilidade, destinava-se apenas a situações de perda acidental de pressão na cabine, algo que nunca aconteceu; a queixa mais recorrente era a de que os fatos eram quentes.

Alan Shepard prepara-se para o lançamento do MR-3 “Freedom 7”; no dia 5 de maio de 1961. Embora o seu voo estivesse programado para durar apenas 15 minutos, Shepard passou mais de oito horas selado dentro do fato na plataforma de lançamento. O seu “acidente” provocou um curto-circuito nas leituras de telemetria médica.

Fotografia de NASA

Cada fato era feito à medida de cada astronauta, e Shepard foi o primeiro a usar um destes fatos no espaço. Devido à curta duração projetada para o seu voo, faltava uma adição ao design do fato; enquanto esperava durante várias horas na plataforma de lançamento devido a um atraso prolongado, Shepard foi forçado a urinar dentro do seu fato de 29 mil dólares.

John Glenn teve a vida mais facilitada: em 1962, o seu fato espacial estava equipado com um recipiente protótipo. E foi necessário, pois Glenn depositou quase 800 mililitros de urina durante o seu voo de cinco horas. Mais tarde, os médicos repararam que esta era uma quantidade consideravelmente maior do que a capacidade média da bexiga humana – gerando uma discussão interessante sobre os efeitos dos voos espaciais na excreção de fluidos.

Localização atual: Armazenado no Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian.

4. Cápsula Liberty Bell 7
Os indicativos da missão Mercury eram uma combinação entre o nome do programa e o tipo de foguetão – daí Mercury-Redstone (MR) e Mercury-Atlas (MA) – seguido pelo número da missão. As cápsulas para uma pessoa eram batizadas pelos astronautas, todas com o sufixo “7”, para fazer referência à equipa Mercury. Alan Shepard chamou a sua cápsula de Freedom 7; a de John Glenn era a Friendship 7, Carpenter tinha a Aurora 7, Wally Schirra tinha a Sigma 7 e Gordon Cooper a Faith 7. Virgil “Gus” Grissom, o segundo astronauta do Projeto Mercury a partir, batizou a cápsula com o nome de Liberty Bell 7. A cápsula tinha uma fenda branca pintada que fazia referência ao portador original do nome. Mas esta piada no design pode ter desafiado o destino.

Com a tarefa de criar uma nave que conseguisse lidar com rigores desconhecidos, tripulada por astronautas sem experiência – numa corrida para colocar um humano no espaço antes dos russos – a NASA trabalhou essencialmente no limite. Por isso, talvez seja compreensível que as coisas possam ter corrido mal. Um dos contratempos iniciais surgiu no dia 21 de julho de 1961, quando Gus Grissom, após um voo perfeito, amarou a cápsula Liberty Bell 7.

Parte da evolução progressiva das cápsulas, que era feita missão a missão, deu à Liberty Bell alguns recursos novos: uma janela maior; e um novo sistema explosivo para a escotilha que tinha sido projetado para facilitar uma fuga apressada dos astronautas – a escotilha era selada com 70 parafusos.

1961: Virgil Grissom ao lado da cápsula Liberty Bell 7 – com a “fenda” pintada de branco.

Fotografia de NASA

Um helicóptero da Marinha dos EUA tenta içar a Liberty Bell 7 da água depois de a sua escotilha ter inesperadamente explodido após amaragem. Na imagem podemos ver a cabeça de Gus Grissom na água, onde o astronauta se esforçava para se manter à superfície – sem ter tido tempo para selar adequadamente o fato.

Fotografia de NASA

Grissom amarou longe do ponto designado no Atlântico e, enquanto esperava pelo resgate de helicóptero e terminava as tarefas pós-voo, ouviu um ruído surdo. A escotilha tinha desaparecido; Grissom conseguia ver o céu e a água a inundar a cápsula, pelo que foi forçado a sair. A tripulação do helicóptero, presumindo que Grissom estava confortável à superfície da água, tentou recuperar a nave que se afundava, mas o motor do helicóptero começou a falhar e foi preciso enviar um segundo helicóptero, deixando Grissom e a Liberty Bell por conta própria. Sem que a equipa de resgate soubesse, o astronauta estava a esforçar-se para flutuar – com um fato inadequado que estava rapidamente a inundar.

Grissom foi resgatado, mas a Liberty Bell afundou-se no oceano, onde ficaria até 1999, ano em que uma expedição a recuperou de uma profundidade gelada de 4870 metros. (O Titanic, a título de comparação, está a cerca de 3840 metros.)

A cápsula Liberty Bell 7 foi recuperada em 1999 de uma profundidade de 4870 metros – consideravelmente mais do que a profundidade onde jaz o Titanic. Dentro da cápsula havia alguns artefactos, incluindo a faca de emergência de Grissom, sete moedas comemorativas e um bote salva-vidas de emergência por utilizar que ainda funcionava.

Fotografia de NASA / ALAMY

Resgatada do fundo do mar, a Liberty Bell 7 foi restaurada e está agora em exibição na Cosmosphere em Hutchinson, no Kansas.

Fotografia de COSMOSPHERE; HUTCHINSON, KANSAS.

Grissom, abalado com a falha na escotilha e os problemas que enfrentou dentro de água, ficou envolvido numa controvérsia – havia especulações de que o astronauta tinha acidentalmente ou deliberadamente explodido a escotilha em pânico. Grissom refutou ambas as acusações, insistindo que o estágio final exigia mais de dois quilos de pressão no êmbolo que, de acordo com o livro We Seven, “estava tão longe que eu teria de o tentar alcançar de propósito para lhe bater. Eu não fiz isso”.

Numa missão posterior, Wally Schirra explodiu a sua escotilha manualmente depois de amarar em segurança; os cortes e hematomas resultantes da força necessária para acionar o explosivo pareciam provar que Grissom não tinha acionado a sua escotilha, já que ele não apresentava ferimentos semelhantes. Pode ter sido, ou não, uma tentativa deliberada para justificar as ações do seu amigo, mas parece ter resultado.

Apesar dos contratempos técnicos, os programas Mercury e Gemini não tiveram fatalidades humanas pós-lançamento; e mais tarde, o próprio programa Apollo não perdeu astronautas no espaço, mas em terra as coisas foram diferentes. Com uma ironia trágica, seria uma escotilha supostamente demasiado grande na Apollo 1 que, em 1967, impediu Grissom, Ed White e Roger Chaffee de escaparem de um incêndio elétrico durante um teste na plataforma de lançamento; os três tripulantes morreram.

Localização atual: A cápsula Liberty Bell 7 foi recuperada e está em exibição na Cosmosphere em Hutchinson, no Kansas. 

5. Dispositivo de Treino Celeste
“Você diz-me quando e onde é que quer que aquilo aterre, e eu calculo o processo inverso e digo quando lançar.” Foram as palavras de Katherine Johnson, a brilhante matemática responsável pelos cálculos necessários para garantir que as viagens do Projeto Mercury até ao desconhecido eram um pouco menos desconhecidas – pelo menos numericamente. (Descubra mais sobre o “elemento secreto” Katherine Johnson.)

Disparar uma cápsula de metal em arco para o espaço a partir de uma Terra em rotação apresentava muitos desafios, sobretudo quando se queria trazer os astronautas de regresso a casa – isto sem descurar inadvertidamente quaisquer falhas no processo ou arriscar uma amaragem num mar agitado a centenas de quilómetros de distância de qualquer navio de resgate. Era uma coisa complexa: Imagine disparar uma bola de ténis com um canhão para o céu e tentar prever uma janela aberta por onde a bola iria cair numa cidade a 300 quilómetros de distância. E a maior parte deste processo era inédita: Katherine Johnson disse mais tarde, “escrevemos o nosso próprio manual... porque não existiam textos sobre o espaço.”

Katherine Johnson trabalha com a sua régua de cálculo e com o “Dispositivo de Treino Celeste” (à esquerda) que a ajudou nos seus cálculos.

Fotografia de CENTRO ESPACIAL DE LANGLEY, NASA

Para descortinar as complexidades de velocidade contra gravidade, incluindo compensações de ascensão e descida de regresso à Terra, foram utilizados computadores mecânicos para processar os números – mas foi um computador humano que garantiu que os cálculos cruciais estavam corretos. Para além das réguas de cálculo e da geometria antiquada, uma das ferramentas-chave foi o agora icónico “dispositivo de treino celeste” – um globo dentro de um globo – que foi usado para auxiliar Katherine nos seus cálculos para as missões orbitais mais complexas. As análises de Katherine partiram supostamente da insistência de John Glenn, que acreditou nos seus resultados numéricos: “Se ela disser que os números estão corretos, então estou pronto para partir.”

John Glenn observa o “globo dentro do globo” do Dispositivo de Treino Celeste.

Fotografia de NASA

Katherine Johnson, que superou os estereótipos tanto de raça como de género para merecer o seu lugar na história dos voos espaciais, também iria fornecer as coordenadas para levar a Apollo à lua e regressar – garantindo que todos os componentes estavam alinhados – e trabalhou no programa do vaivém espacial. Katherine Johnson faleceu em fevereiro de 2020.

Localização atual: desconhecida

6. Câmara Hasselblad 500C Modificada
No início da década de 1960, as primeiras imagens da Terra captadas por humanos foram um poderoso aliado publicitário numa dispendiosa corrida ao espaço: a recompensa para um enorme investimento pago pelos contribuintes e para o interesse público. Mas, embora todas as cápsulas estivessem equipadas com uma câmara de vídeo automática, “a fotografia não tinha muita prioridade nos dois primeiros voos suborbitais dos americanos, porque era essencial que os astronautas se concentrassem em operar a nave” – de acordo com as palavras de Albert J. Derr em Photography Equipment and Techniques: A Survey of NASA Developments.

No dia 12 de abril de 1961, o soviético Yuri Gagarin fez um voo histórico, também sem câmara fotográfica, ultrapassando os americanos em menos de um mês. Mas seria John Glenn o primeiro a levar uma máquina portátil, no dia 20 de fevereiro de 1962, capaz de fotografar a Terra.

A câmara de Glenn era uma Minolta Ansco Autoset 35mm que tinha comprado numa drogaria na Flórida. A máquina foi modificada com um gatilho tipo pistola, avanço de filme, um filtro especial para fotografia experimental espectrográfica UV e uma ocular grande para poder ser usada com um capacete. Glenn gostou da câmara porque tinha uma configuração de exposição automática – tornando-a fácil de usar com luvas. E também levou uma Leica 1g aprovada pela NASA, com a qual também captou imagens a cores da Terra.

Esquerda: Uma de duas câmaras que John Glenn levou a bordo da cápsula Friendship 7, uma Minolta Hi-Matic altamente modificada (rebatizada com o nome de Ansco Autoset) com gatilho para o obturador, transporte de filme e adaptada para fotografia espectrográfica UV.
Direita: A imagem que Glenn reivindicou como sendo a primeira fotografia da Terra captada sobre o norte de África com uma máquina portátil; 20 de fevereiro de 1962.

Fotografia de NASA / JOHN GLENN

As fotografias de Glenn eram atmosféricas o suficiente para aguçar o apetite do público, mas só quando o entusiasta de fotografia Wally Schirra começou os preparativos para o Mercury 8 é que a NASA iniciou uma parceria com a câmara que iria captar algumas das imagens mais icónicas de sempre. A câmara era uma Hasselblad 500C altamente modificada, um modelo quadrado de fabrico sueco com 6x6cm que estava acoplado a uma lente Zeiss. Para evitar que os acabamentos prateados e a luz se refletissem na janela da nave, a câmara foi pintada de preto fosco. Na lateral da máquina foi montado um novo visor paralelo, e foi adicionado um cartucho de filme que armazenava 100 fotografias (ao contrário das habituais 12) para evitar qualquer falha durante órbita.

A Hasselblad 500C de Wally Schirra depois de ter sido modificada. A câmara também foi usada por Gordon Cooper na missão final do Projeto Mercury. A máquina foi leiloada em 2014 por 213 mil libras.

Fotografia de RR AUCTION / KEITH HAVILAND

O astronauta Wally Schirra testa a Hasselblad modificada antes do seu voo Mercury-Atlas 8 em 1962.

Fotografia de NASA

Finalmente revestida com fita de velcro para se poder prender à nave e despojada de quaisquer peso extra, a Hasselblad estava pronta para partir. As imagens captadas por Wally Schirra seriam expansivas, nítidas e gloriosamente coloridas. E iriam garantir a presença de uma Hasselblad modificada nas missões Gemini e nas famosas missões Apollo à lua, onde Neil Armstrong iria usar uma versão ainda mais desenvolvida e icónica da câmara – e notavelmente quadrada.

Localização atual: As câmaras de Glenn estão no Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian; a Hasselblad usada nas missões Mercury foi vendida a um colecionador particular britânico em 2014.

7. 1961 Chevrolet Corvette
Com as suas linhas da era espacial, acústica ousada e desempenho a condizer, não é difícil perceber o apelo que este icónico carro desportivo da Chevrolet tinha para os pilotos de foguetões. Mas este Corvette não se tornou no símbolo do programa de astronautas por acaso. Tudo começou com o entusiasmo do astronauta Alan Shepard pelo carro e com uma oportunidade publicitária vislumbrada por um concessionário da Flórida – e o Corvette acabou por ser o carro eleito pelos primeiros astronautas.

Um Chevrolet Corvette de 1961 semelhante aos primeiros carros “alugados” pelos astronautas no lucrativo acordo com Jim Rathmann.

Fotografia de ALAMY

Alan Shephard, que já conduzia um Corvette, foi presenteado pelo presidente da General Motors com um modelo customizado após o primeiro voo da Mercury em 1961. Foram “oferecidos” carros semelhantes a todos os astronautas pelo concessionário de Jim Rathmann na Flórida, por um “aluguer” atrevido de um dólar anual, dado que os patrocínios eram proibidos pelos termos nos contratos dos astronautas. A maioria dos astronautas do Projeto Mercury 7 optou por um Corvette; John Glenn foi alvo de muitas provocações porque optou por um carro familiar mais sóbrio. As partidas e amolgadelas que envolveram o Corvette tornar-se-iam famosas, com muitas pessoas a especularem que um ou mais astronautas iriam desaparecer da história ao volante.

Conforme o programa espacial progredia, o mesmo acontecia com o Corvette, evoluindo do modelo dos anos 1950 para encarnar o muscle car dos anos 1970 – e a omnipresença dos carros a um dólar por ano estendeu-se aos programas Gemini e Apollo. Esta publicidade associada era muitas vezes uma deceção para a NASA, que temia que o entusiasmo dos seus astronautas pelo carro implicasse um patrocínio da marca.

Atualmente, restam poucos carros de astronautas, muito menos na estrada; os que restam incluem um Stingray de 1967 de Neil Armstrong e dois modelos com pintura personalizada da tripulação da Apollo 12, ambos em exibição no Museu Corvette no Kentucky. Alan Shepard – que detém a distinção de ser o primeiro americano no espaço e o único astronauta da Mercury que também caminhou na Lua na missão Apollo 14 – chegou a ter pelo menos 10 modelos Corvette. Entre eles, um modelo de 1968 que participou em muitas exposições foi colocado recentemente à venda em “estado irregular”. O motor do carro foi substituído pelo revendedor depois de o astronauta ter alegadamente explodido o original. O preço para possuir uma declaração de estilo autenticamente desgastada por uma era repleta de adrenalina: cerca de 125 mil dólares.

Localização atual: Grande parte dos carros que ainda existem estão em coleções privadas; o Museu Corvette no Kentucky tem dois carros de astronautas da Apollo em exibição.

A série “Os Eleitos” está disponível a partir de 9 de outubro exclusivamente no Disney+.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk.

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