Espaço

Como é que as Mulheres Lidam com Ter o Período … no Espaço?

Por Erika Engelhaupt

22 abril 2016

Os tampões da Sally Ride podem ser os mais falados do mundo. Mas antes de Ride ser a primeira mulher Americana no espaço, os cientistas consideraram os tampões dela, pesaram-nos, e um profissional da NASA cheirou-os — melhor desodorizar ou não? — para se certificar que não iriam ter um cheiro muito forte numa cápsula do espaço. Os engenheiros consideraram exatamente quantos ela iria precisar durante uma semana no espaço. (Será 100 o número certo?, perguntaram-lhe. Não, disse Ride, esse não é o número certo.)

Os engenheiros estavam a tentar ser atenciosos; reportaram ter empacotado tampões com cordas para que não flutuassem. Imagino os tampões de Sally Ride a flutuar como salsichas na nave espacial, e pergunto-me se os astronautas alguma vez chegaram junto a eles, embaraçados, a tentar flutuar para longe rapidamente.

Tudo isto para dizer que a menstruação claramente fez a NASA contorcer-se. Antes das mulheres irem para o espaço, existiam não só as preocupações típicas de que as mulheres iriam ficar chorosas ou incapazes de trabalhar durante o período, mas também que o ciclo menstrual poderia de alguma forma ser interrompido no espaço. Será que o sangue saía sem a gravidade para o tirar do ventre? Talvez tudo se reunisse lá dentro, ou mesmo fluísse para trás através das trompas de falópio no abdómen — a condição assustadora chamada de menstruação retrógrada.

No final, alguém simplesmente teve de experimentar e ver o que acontecia. E o que aconteceu foi... nada de especial. O útero é muito bom em expulsar o que precisa apesar da gravidade, pelos vistos (afinal de contas, estar deitada não parece importar muito). Porém, lidar com tampões do espaço é um bocadinho incómodo e as cólicas no espaço não são, provavelmente, muito mais agradáveis do que as cólicas na Terra. Portanto, os cientistas agora têm levantado uma possibilidade para mulheres astronautas que apenas começou a ocorrer à maioria das mulheres — talvez nós não precisemos de ter o período de todo.

Nós temos a tecnologia. Um contracetivo combinado oral, ou a pílula, usada continuamente (sem parar durante uma semana para ter o período) é normalmente a melhor forma e mais segura para as astronautas que preferem não menstruar durante as missões, diz Varsha Jain, uma ginecologista e professora no King’s College London. Ela e a sua colega Virginia Wotring, que como chefe de farmacologia foi questionada para sugerir o melhor contracetivo, publicaram um estudo sobre a menstruação no espaço na terça-feira no jornal Microgravity. Os implantes contracetivos e o DIU também são opções, mas a pílula já tem um bom histórico no espaço.

De facto, as astronautas não só tentaram o método de tomar a pílula sem interrupções (muito menos fanfarrão do que os tampões de Sally Ride), como muitas mulheres na Terra estão a optar por parar o período também. As pesquisas sugerem que cerca de um terço das mulheres sentem necessidade de ter o período porque lhes parece natural assegurar que não estão grávidas, diz Jain, mas o sangramento que ocorre durante a semana sem pílula não é necessário ou particularmente natural. As mulheres que tomam a pílula continuamente não constroem um revestimento uterino que precise de ser derramado. E ter o fluxo não garante necessariamente que não esteja grávida.

“É completamente seguro suprimir o ciclo menstrual”, diz Jain. Claro, a pílula traz alguns riscos — coágulos nas pernas e pulmões são a principal preocupação. Mas Jain diz que os estudos não encontraram nenhuma diferença entre os riscos para a saúde de tomar a pílula continuamente comparado com tomá-la três semanas de cada vez.

Para viagens espaciais de longa duração, existem benefícios adicionais por pular o fluxo. “Os sistemas de eliminação de resíduos a bordo do lado dos EUA da Estação Espacial Internacional que recuperam a água de urina não foram planeados para lidar com o sangue menstrual”, escrevem Jain e Wotring. Uma mulher que passe três anos no espaço, digamos ir a Marte e voltar, iria precisar de cerca de 1100 pílulas, que adiciona algum peso à missão, mas é bastante menos complicado do que levar tampões.

Tal como acontece com muitos aspetos da fisionomia feminina, ainda há muito que não sabemos. Poderia um DIU ser deslocado durante o lançamento? Iria um implante sob a pele funcionar numa roupa espacial? Não há razão para pensar nisso, mas nunca ninguém tentou.

Talvez se não tivéssemos tão reticentes em discutir o ciclo menstrual, aprenderíamos muito mais.

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