Espaço

É Esta a Sensação de Passar um Ano em "Marte"

Jogos de dados, danças e jantares familiares virtuais ajudaram os seis membros do projeto HI-SEAS a lidar com o isolamento nas encostas de um vulcão. Por Nadia Drake

Por Nadia Drake

29 agosto 2016

MAUNA LOA, HAVAI Sheyna Gifford escava um bocado de rocha vulcânica avermelhada, enterra o nariz e respira fundo.

“Wow,” diz. “Não há planeta como o nosso.”

Gifford, física e jornalista, acabou de completar uma missão simulada em Marte que exigia que ela e cinco colegas de equipa vivessem numa redoma de dois andares colocada a 2.500 metros nas encostas de Mauna Loa – a quarta repetição do projeto de Exploração Análoga e Simulação de Exploração Espacial do Havai, ou HI-SEAS.

No domingo, 28 de agosto, foi a primeira vez que a equipa deixou a Marte-em-Terra sem os fatos espaciais desde o agosto passado. Durante 365.5 dias, trabalharam juntos, viveram juntos, cozinharam juntos, acumularam energia e tremeram durante dias de frio incansáveis, juntos. Sem visitas de amigos, sem chamadas para a família, sem poderem contar com alguém para além uns nos outros.

Gifford levanta a mão no vento frio que corre pela montanha e sente a brisa. “Isto sabe bem”, diz ela.

Tem sido um ano longo estando constantemente fechado e voltar ao mundo significa lutar corpo a corpo contra uma investida de jornalistas, mas também lidar com um pântano de sensações mundanas normais que são de alguma forma mais significativas.

Entre eles: ar fresco.

“Cheira à minha memória do oceano. A questão agora é, quão precisa é a minha memória? A memória é muito falível. A única forma de saber se estou certa é ir até lá imediatamente. Vamos.” Diz Gifford. Depois olha sobre as mesas onde os seus companheiros “lavanautas” estão a apreciar as suas primeiras frutas frescas e pelo menos uma pizza no espaço de um ano.

“Eles estão a comer e eu estou a cheirar a terra” diz, sorrindo.

EXPERIÊNCIA SOCIAL

A missão marca a maior quantidade de tempo que uma equipa passou na versão havaiana de Marte na Terra. Anteriores simulações no estudo financiado pela NASA, gerido pela Universidade do Havai em Manoa, duraram entre quatro a oito meses. As próximas missões, preparadas para começar em 2017 e 2018, durarão as duas até oito meses.

De cada vez, os investigadores selecionaram equipas de seis elementos e desafiaram-nos a sobreviver numa redoma sem isolamento, alimentada com energia solar, que vem equipada com todos os luxos (ou falta disso) que se poderão encontrar num habitat interplanetário real.

A equipa desfrutava de comodidades como sanitários de combustão, comidas secas liofilizadas e suprimentos médicos limitados (felizmente não aconteceram ferimentos graves). Também viveram com um atraso de 20 minutos nas comunicações com as pessoas fora da redoma e espaços habitacionais individuais mais pequenos do que os armários em estâncias nas redondezas. O entretenimento incluía rondas inflamadas de Yahtzee e alguma dança de salsa relutante. Membros da equipa recomendaram levar um Kindle e um ukulele para combater o tédio, entre outras coisas. A missão não consegue simular por completo como será estar em Marte – a gravidade da Terra não cooperará com isso para começar.

“Se é o tipo de pessoa que não consegue suspender a descrença – que sabe que existe ar na câmara de vácuo, que esta mais do que feliz por sair por aquela porta – provavelmente não é o tipo de pessoa que quereria estar nesta missão”, afirma Andrzej Stewart, chefe oficial de máquinas da missão. “Tem de abandonar um pouco a descrença para conseguir apreciar totalmente a experiência”.

No entanto, projetos como o HI-SEAS podem ajudar os cientistas a aprender como pequenos grupos trabalham juntos no contexto de uma viagem ao espaço profundo. O que torna uma equipa particular eficaz? Quando e porque é que as coisas desmoronam? Quais são os efeitos psicológicos de estar isolado de família e amigos? Como podem as equipas treinar para tolerar ambientes stressantes?

“Isto é sobre a coesão e performance de uma equipa, então como mantemos uma equipa coesa? Como selecionamos e treinamos uma equipa para que possam ser resilientes?”, diz o investigador principal do HI-SEAS, Kim Binsted, a primeira pessoa a saudar a equipa enquanto eles abriram a escotilha e saíram para a realidade não simulada.

“O que descobrimos foi que não existe uma solução mágica para evitar conflitos: tem a ver com a forma como lidamos com isso e como respondemos a isso. Não apenas como indivíduos, mas enquanto grupo”.

Isso também é verdade na vida, denota o capitão da equipa, Carmel Johnston, um cientista do solo treinado. “Mas como lidamos com isso numa redoma ou em espaços limitados é muito diferente se podermos simplesmente afastar-nos”, diz. “Queremos aprender tudo o que pode correr mal antes de correr mal no espaço e prevenir que aconteça”.

UMA SIMULAÇÃO DENTRO DE UMA SIMULAÇÃO

Pelo menos dois membros experienciaram duas mortes nas suas famílias enquanto estavam na simulação. Outros faltaram a casamentos e nascimentos. As férias vieram e foram, celebradas através de mensagens de texto, email ou mensagens de vídeo gravadas.

Esta equipa, no entanto, teve a vantagem de testar um novo componente de realidade virtual. Pela primeira vez, os investigadores ativaram um ambiente de realidade virtual no habitat que permitiria aos membros da equipa não só construir as suas próprias realidades e experienciar 30 ambientes de realidade virtual diferentes e mensagens recebidas de casa.

Algumas dessas mensagens, disse a investigadora Peggy Wu, assumiram a forma de elementos familiares a apreciar um jantar de Ação de Graças – uma cena registada em que, com a ajuda de amigos distantes, a equipa poderia imergir. O objetivo, diz Wu, é ver se a realidade virtual poderá ser usada para ajudar a facilitar a conexão e aliviar o stress que resulta do isolamento em missões no espaço profundo.

Apesar de estar ainda a começar a esmiuçar os dados de um ano inteiro, relatórios da primeira metade da simulação parecem promissores. Tristan Bassingthwaighte, um dos elementos da equipa de certeza que desfrutou ao criar o seu ambiente de realidade virtual, que assumiu a forma de uma casa na árvore elaborada.

“Peguei num dos maiores modelos de casa que estava disponível, coloquei-o lá em cima e simplesmente dei asas à imaginação”, diz Bassingthwaighte, um estudante da pós-graduação de arquitetura. “Fiz um salão gigante cheio de arte natural e uma cascata com um tigre a guardá-la. Pus uns quantos sapos lá, um refúgio para homens com um bar e uma mesa de bilhar, um monte de banheiras numa varanda, a parte de trás da casa com um monte de cascatas e um barco pirata – qualquer coisa que possa fazer por diversão … demorei cerca de três semanas”.

À parte da realidade virtual, tempo pessoal ou no espaço estavam reduzidos ao mínimo. Escapar à redoma significava aventurar-se no exterior com um fato espacial completo e lutar com quilómetros de seixos vulcânicos afiados e fragmentados. Escolher cuidadosamente o caminho através daquela confusão de rochas é no mínimo delicado, mas com um fato especial completo vestido, poderia ser desastroso. Mesmo assim, para Bassingthwaighte, uma dessas excursões foi o único tempo que teve sozinho – vagueou com o rádio desligado, cantando AC/DC e Martin Sexton aos gritos durante algumas horas.

“Foi provavelmente a altura que mais estive sozinho em todo o ano”, diz ele. “Precisas de descontrair e ter tempo para ti. As pessoas são criaturas sociais, mas não a toda a hora”.

Não existem dúvidas que as exigências físicas do voo especial são imensas. Viver em Marte, com a sua atmosfera irrespirável, falta de água líquida à superfície e solo tóxico, irão desafiar o mais duro dos astronautas. Mas as exigências psicológicas de viagens no espaço profundo são igualmente imensas. Dias de folga são raros, e existe a constante e inquestionável pressão de ser embaixador da humanidade no cosmos.

"Representamos a população da Terra, diz Gifford. “Vocês não poderiam vir até aqui, por isso nós viemos por vocês”.

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