Espaço

A Esquecida Nave Espacial Soviética que Conseguia Voar Sozinha

Durante a Guerra Fria, a USSR construiu uma nave espacial parecida para competir com o programa dos Estados Unidos. 

Por Brian Handwerk

12 Abril 2016

O programa do vaivém espacial é agora História, mas os seus nomes irónicos continuam a agitar memórias na aventura dos voos espaciais: Enterprise, Challenger, Buran.

Espera, Buran?Sim, esse nome foi mesmo associado a uma nave espacial, uma sósia Soviética nascida da Guerra Fria. O programa Buran sobreviveu o bastante para consumir dinheiro até que o governo já não tinha nada a perder—mas o veículo espacial mal saiu do chão. Buran (tempestade de neve em russo) apenas fez um voo espacial. Ele orbitou a Terra a 15 de novembro de 1988, completando um voo de 3 horas e meia sem tripulantes. O lançamento bem sucedido não foi suficiente para justificar os muitos anos de esforço, mas não é toda a história de Buran.

VEJA O QUE RESTOU DA NAVE ESPACIAL DA USSR

Cientistas na URSS brincaram com ideias de naves espaciais reutilizáveis durante décadas. Mas o crescimento do programa de vaivém espacial dos Estados Unidos durante o início dos anos 70 acendeu o interesse soviético em produzir uma nave espacial parecida. (O vaivém espacial Columbia lançou o programa de vaivéns dos EUA em órbita em abril de 1981.)

A rivalidade da Guerra Fria—e o medo do armamento do Espaço—fez a União Soviética sentir que tinha de corresponder as conquistas dos Estados Unidos em espécie, diz Cathleen Lewis, curadora dos programas espaciais internacionais do Museu do Ar e do Espaço do Instituto Smithsoniano.

“Havia a especulação Soviética de que o vaivém iria ser utilizado para capturar ou destruir satélites,” diz Lewis, que se especializou em programas espaciais soviéticos e russos. “Isto foi durante a época em que a União Soviética estava realmente a tentar acompanhar a tecnologia militar dos Estados Unidos, por isso queriam um vaivém para si e construíram-no como um concorrente do vaivém dos EUA.”

Esta decisão não foi bem aceite por muitos dentro do programa espacial Soviético.

“Foi duramente criticado na arena de ciências espaciais soviéticas naquele tempo,” diz Lewis. As autoridades espaciais soviéticas lamentaram a drenagem de fundos de Buran a outros empreendimentos mais bem sucedidos. “Este foi o momento em que os seus cientistas espaciais tinham a atenção do mundo devido ao auge de realização soviética ao explorar Vénus.” (Terça-feira é o aniversário do primeiro voo espacial humano, por Yuri Gagarin em 1961.)

Apesar das objeções, o governo soviético comprometeu-se a fornecer amplos recursos ao programa.

No seu pico, Buran envolveu mais de 150.000 engenheiros, cientistas, técnicos e outros funcionários—mesmo que muitos dos trabalhadores da fábrica não soubessem inicialmente o que estavam a produzir. O programa começou por ser secreto, mas rapidamente se descobriu e espalhou. Em 1982, aviões de reconhecimento australianos puseram a circular fotos de navios russos puxando para fora do Oceano um pequeno modelo de nave espacial muito familiar aos olhos americanos.

O vaivém soviético tinha uma impressionante semelhança com o seu homólogo americano por uma boa razão: os seus projetistas haviam adquirido as especificações do modelo americano através de espionagem. Mas apesar dos soviéticos utilizarem toda a informação que pudessem reunir sobre a versão americana, eles não a copiaram cegamente. O design contou com algumas diferenças importantes.

Célebres pilotos de teste soviéticos voaram a nave em voos de treino (na atmosfera da Terra, não no Espaço), mas Buran foi concebida para viajar sem precisar de tripulantes a para a operar. O seu simples voo em órbita foi uma notável conquista—o vaivém voltou do Espaço com uma aterragem parecida com a de um avião controlada inteiramente por um computador.

Outra diferença óbvia entre os vaivéns era o design do motor.

Os três motores do vaivém espacial dos EUA voltaram à Terra com a sonda após cada voo. Buran contou com quatro principais motores que foram alojados num foguete descartável em separado. Baseado num veículo de lançamento, em vez de em motores de alta eficiência, foi destinado a economizar dinheiro, diz Lewis.

Um gigante foguete Energia foi desenhado para ser tão poderoso como qualquer foguete alguma vez construído. Isso deu flexibilidade ao sistema. O vaivém americano conseguia levar para o Espaço apenas o que cabia no compartimento de carga, mas o poderoso foguete soviético conseguia transportar praticamente qualquer coisa para o Espaço com o máximo de 100 toneladas de carga. Essa flexibilidade era atrativa durante uma era em que as mentes da Guerra Fria estavam ocupadas com possibilidades de estações espaciais futuras para o programa \”Star Wars\” do presidente Reagan.

O colapso da economia soviética significou que nenhum dos ambiciosos programas poderia ser testado o foguete poderia ser aperfeiçoado para usos futuros. Em vez disso, o foguete Energia teve o mesmo destino que Buran, desativado após o lançamento de 1988 e nunca voou novamente. O presidente Boris Yeltsin cancelou oficialmente o programa em 1993.

“Foi o que poderia ser,” diz Lewis.“Estas são coisas que nunca iremos saber.”

Alguns serviços de transporte de teste em ruínas, com algumas histórias bastante interessantes, é o que resta do programa, que foi um dia motivo de orgulho. O Buran que fez o único voo em órbita do programa já não existe. Foi destruído em 2002 quando o seu hangar no Cosmódromo de Baikonur entrou em colapso num acidente que matou oito pessoas. Dois navios irmãos usados para fins de teste estão agora em estado de decadência gradual; um no cosmódromo no Cazaquistão e outro na Base Aérea de Zhukovsky, perto de Moscovo.

Um segundo par de vaivéns de teste manteve-se aos olhos do público. Um fez uma volta ao mundo num barco e ainda fez uma aparição nos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000. Agora está no Museu Technik em Speyer, na Alemanha. A estrutura do outro foi oferecida a um restaurante no Gorky Park de Moscovo. Em 2014, fez outra viagem, aterrando numa exibição pública na Moscow's Exhibition of Achievements of National Economy.

Essa viagem deixou Lewis a questionar-se por que a história de Buran é comemorada publicamente mais uma vez e sobre qual será o seu legado. Os russos “não estão com certeza a planear ressuscitar essa tecnologia. Mas mesmo como um ícone do passado, certamente que esta não é a forma ideal de apresentar esta história. Eles tiveram muitas mais atividades espaciais bem sucedidas do que o projeto Buran.”

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