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Satélite Com Crosta de Gelo Pode Ter Tudo o Que é Necessário Para Gerar Vida

Uma recente aproximação a Encélado sugere que, se há vida neste satélite de Saturno, haverá, então, alimento suficiente para subsistir.

Por National Geographic

Parece haver algo a fervilhar no coração do satélite gelado, e os cientistas da NASA acreditam que possa ser energia suficiente para potenciar qualquer tipo hipotético de vida extraterrestre.

A sonda espacial Cassini atravessou as plumas de água do satélite de Saturno, Encélado, “descobrindo a essência” do seu conteúdo e descobrindo que estão associados a sais, moléculas orgânicas simples e amoníaco —  as bases fundamentais para a existência de vida.

Na conferência de imprensa realizada na quinta-feira, os cientistas liderados pelo investigador Hunter Waite, do Southwest Research Institute (instituto de investigação do sudoeste), anunciaram que, em outubro de 2015, aquando da aproximação de Cassini, os instrumentos da sonda espacial detetaram também hidrogénio molecular dentro das plumas do satélite.

O gás, produzido provavelmente quando as rochas e a água bem quente se misturaram no oceano interior deste mundo, prova também que Encélado tem, atualmente, fontes hidrotermais — e que estas têm força suficiente para gerar vida.

“Trata-se de um resultado muito empolgante e irrefutável que ajuda a levantar a hipótese de Encélado ser um “mundo oceânico” possivelmente habitável”, afirma o astrobiólogo e explorador da National Geographic Kevin Hand, do Jet Propulsion Laboratory, que não participou no estudo.

Terminar com um voo bem alto

As oscilações orbitais de Encélado mostram que o centro do satélite e a sua crosta de gelo deslizaram ligeiramente um sob o outro, um cenário cuja explicação pode ser dada pelo facto de haver um oceano global de água no estado liquido com, pelo menos, 25 quilómetros de espessura a servir de lubrificante entre as duas partes. E desde que Cassini detetou pela primeira vez as plumas do satélite em 2005, há cada vez mais evidências de que as águas que se encontram por baixo destas podem ser habitáveis.

“Não temos conhecimento da existência de nenhum outro mundo oceânico melhor do que este, à exceção da Terra”, refere Carolyn Porco, a líder da equipa responsável pelas imagens de Cassini. “A compensação extra é o facto de que é simples recolher amostras do seu. Estão a manifestar-se no espaço!

Quando Cassini desceu e entrou mais profundamente nas plumas, a 28 de outubro de 2015, a sonda voou cerca de 50 quilómetros ao longo de Encélado, a uma velocidade relativa superior a 30 500 quilómetros por hora.

Durante esta descida épica, os níveis de gás hidrogénio aumentaram para um valor cem vezes superior aos níveis de base. Waite e a sua equipa determinaram que Encélado não estava simplesmente a expelir o hidrogénio retido durante a formação do satélite: devido ao facto de a gravidade de Encélado ser fraca e o gás hidrogénio ser tão leve, era suposto que as substâncias mais antigas já se tivessem dissipado há muito tempo.

Pelo contrário, os cientistas defendem que o hidrogénio deve ter sido produzido recentemente, provavelmente devido à atividade relacionada com as fontes hidrotermais.

Os modelos geoquímicos da equipa demonstram que os micróbios poderiam consumir dióxido de carbono e hidrogénio das fontes do oceano interior, produzindo metano como produto residual. Outros micróbios poderiam hipoteticamente alimentar-se deste metano, gerando, assim, um ecossistema em Encélado.

Mas o facto de este processo ser possível em Encélado não significa que exista algum tipo de vida a fazer-se valer dele.

"O que se deve retirar desta história sobre a enorme quantidade de hidrogénio é que a energia química para gerar vida está lá à disposição", afirma Hand. "Se se gera efetivamente vida ou não, é outro assunto."

Ainda por cima, “não é apenas a quantidade de energia disponível que importa, mas também o fluxo de abastecimento”, refere Jeffrey Marlow, geobiólogo de Harvard e explorador emergente da National Geographic, que se dedica ao estudo das fontes hidrotermais. “Será o fluxo suficiente para gerar vida?”

Teremos de aguardar alguns anos para conseguir responder a estas questões. Os instrumentos de Cassini não têm sensibilidade suficiente para testar a existência de vida, e, depois de 13 anos repletos de inspiração e fascínio a explorar Saturno, a sonda está praticamente sem combustível e tem os dias contados.

A NASA está a proporcionar uma surpreendente “grand finale”— uma série de 22 órbitas entre Saturno e os seus anéis internos que terminará a 15 de setembro com o último mergulho de Cassini em Saturno.

“Encaro isto como um dos momentos decisivos na nossa exploração ao sistema solar [e] uma parte importante do nosso portefólio de programa espacial da humanidade”, afirma Porco, que integra a missão Cassini desde 1990. “Sinto um enorme orgulho por tudo isto.”

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