É Possível Vir a Ressuscitar o Mamute-Lanoso. Eis Como.

Agora é possível escrever ADN, o que poderia fazer renascer um herbívoro da Idade do Gelo. Thursday, November 9, 2017

Por Simon Worrall
Trabalhador de um museu verifica o pelo desta réplica de mamute-lanoso.

 

O filme Parque Jurássico imaginava um futuro no qual seria possível trazer os dinossauros de novo ao mundo dos vivos. Agora que um conjunto de cientistas procura ressuscitar o mamute-lanoso, esta ficção pode tornar-se realidade.

Estes herbívoros da Idade do Gelo, cujos familiares vivos mais próximos são os elefantes-asiáticos, viviam em vários continentes setentrionais e tinham um revestimento espesso e peludo que os protegia do frio extremo. Estes animais lanudos extinguiram-se há cerca de 4000 anos, mas a atual revolução na genética — que está a combater o envelhecimento, a erradicar doenças e até a permitir que os pais criem “bebés à medida” — pode reverter a situação.

No seu novo livro, Woolly: The True Story Of The Quest To Revive One Of History’s Most Iconic Extinct SpeciesBen Mezrich vai do laboratório para a estepe siberiana para acompanhar cientistas que exploram a possibilidade de levar o mamute-lanoso de volta às suas terras nativas — e, possivelmente, ecossistemas ameaçados também.

Quando a National Geographic contactou telefonicamente Mezrich, que se encontrava na sua casa em Boston, o autor explicou-nos a razão por que há quem pense que os mamutes-lanosos poderiam ajudar a combater as mudanças climáticas — e as dúvidas éticas por detrás destas tão grandiosas ambições.

A ideia de ressuscitar um mamute-lanoso parece algo retirado de um romance de Michael Crichton. Está mesmo a acontecer? E até que ponto será uma revolução na ciência?

Parece, de facto, uma história de Michael Crichton [risos]. Mas é verdade! As coisas que ele fazia no Parque Jurássico são agora cientificamente possíveis. Atualmente, temos ferramentas genéticas que o permitem, nomeadamente o CRISPR, que constitui uma revolução na ciência da engenharia genética. Permite-nos colocar genes individuais que codificam caraterísticas específicas no genoma de criaturas vivas.

É o que está a acontecer no Projeto Mamute-Lanoso. Dantes éramos capazes de ler ADN. Agora já o podemos escrever. O mundo em que vivemos será um lugar diferente daqui a 30 anos devido ao que está a acontecer nos laboratórios atualmente. As pessoas falam de diferentes tipos de tecnologia, como a Internet, a inteligência artificial ou a robótica. Mas eu acredito que tudo isto será ultrapassado pelo que está a acontecer na biologia. É impossível imaginar as possibilidades que se abrirão assim que seja possível refazer genes, construir os elementos que constituem a vida.

O principal impulsionador do esforço americano para criar um mamute-lanoso é um enorme e barbudo geneticista chamado George Church. Descreva-nos o homem e o projeto que está a encabeçar.

Ele é, definitivamente, alguém que tem tudo que ver com um filme de Hollywood. Tem 2,03 metros de altura e uma barba enorme que é uma espécie de auréola branca que corresponde à imagem que temos de Deus [risos]. Cresceu nos pântanos perto de Tampa, Florida, e foi criado por uma mãe solteira. A partir dos 12 anos, George começou a pensar que era um ser vindo do futuro e que agora estava a viver no passado e tinha como missão construir um mundo à imagem daquele de onde veio.

É como um Einstein dos dias de hoje. Era o mais jovem cientista do Projeto Genoma Humano, durante o qual encontrou formas mais rápidas de sequenciar os genomas humanos e de ler os genes.

Um dente original primitivo de um mamute descoberto ainda ligado ao esqueleto.

O outro polo desta iniciativa é a estepe siberiana. Fale-nos sobre a equipa de pai e filho, Sergei e Nikita Zimov, e sobre a ideia que subjaz ao Parque Pleistoceno.

A grande questão é: porquê fazer um mamute-lanoso? Por acaso, a resposta está na Rússia. As planícies siberianas, ou estepes, são vastas extensões de terra compostas por pergelissolo [que perdeu muitas das suas populações animais]. Dantes não era assim. E o problema é que a tundra é uma bomba-relógio em contagem decrescente. [Retido] dentro do pergelissolo [está] mais carbono do que se queimássemos todas as florestas da Terra três vezes. E à medida que o mundo aquece, aproximamo-nos cada vez mais do momento em que [o pergelissolo derrete] e a bomba-relógio é ativada.

Sergei e o filho, Nikita, têm vindo a desenvolver uma experiência desde os anos 80 no âmbito da qual cercaram uma área da tundra e reintroduziram animais da era do Pleistoceno, como renas, bisontes e cavalos-da-Iacútia. Também levaram um tanque russo para emular um mamute. O que descobriram foi que, só com a introdução destes animais, é possível baixar a temperatura do pergelissolo em 9° C. Isto acontece porque os grandes herbívoros estimulam o crescimento das ervas das estepes, que, por sua vez, têm um elevado efeito de albedo. Estas ervas de cor clara refletem a luz do sol de volta para a atmosfera, como um espelho, e reduzem o calor absorvido pela Terra, o que faz com que as temperaturas baixem e o derretimento do pergelissolo seja menor.

Fiquei surpreendido por haver mamutes-lanosos suficientes no pergelissolo da Sibéria para sustentar o comércio de marfim. Fale-nos sobre isto e sobre os iacutos, o povo indígena.

Estão a aparecer mamutes-lanosos constantemente. Os dentes [usados para decoração] custam cerca de 250 000 dólares cada. Há, por isso, um forte comércio de marfim de mamutes, sobretudo na China, o que é legal, porque não se trata de uma espécie em perigo. Trata-se de uma espécie extinta. Ir buscá-los é perigoso. [Os iacutos] atravessam água gelada de barco para irem a pequenas ilhas onde há mais carcaças e dentes para desenterrar. Mas, se encontrarem um, sustentam uma aldeia de iacutos durante um ano.

Esboce-nos um guia para leigos dos desafios científicos que a criação de um mamute-lanoso envolve — e quando poderá acontecer.

A ciência é realmente espetacular. Primeiro, é preciso sequenciar um mamute pré-histórico. As carcaças geladas são retiradas do gelo — tira-se uma amostra e o genoma é sequenciado. Depois de obtida a sequência, fica-se a conhecer o genoma do mamute, pelo que se podem escolher as caraterísticas que são importantes para fazer um mamute. Noventa e nove por cento do genoma do mamute é semelhante ao [do] elefante-asiático, pelo que o laboratório de Church acredita que, se um mamute-lanoso acasalasse com um elefante-asiático, poderia nascer um bebé.

Ao contrário do Parque Jurássico, não se trata da clonagem de um mamute-lanoso. O material dentro das carcaças está a degradar-se há 3000 a 12 000 anos devido à radiação e a condições impróprias. Trata-se, isso sim, de sintetizar os genes, introduzi-los no embrião de um elefante-asiático e colocar o embrião de volta no elefante-asiático. O elefante-asiático dará então à luz um mamute-lanoso. O laboratório de Church está também a trabalhar num útero sintético. O objetivo é ter o primeiro bebé daqui a dois anos.

Mamute desenhado dentro de uma tenda.

A ideia de criar novas formas de vida em laboratórios pode, para certas pessoas, parecer ciência Frankenstein ou uma tentativa de assumir o papel de Deus. E as questões éticas... e biológicas?

É uma ótima pergunta. É preciso pensar muito bem nestas coisas antes de as concretizar porque a ciência pode ultrapassar a ética. Neste caso, eu acredito — e penso que a maioria dos ambientalistas concordam comigo — que trazer de volta uma espécie extinta, como o mamute, é menos assumir o papel de Deus do que corrigir algo que fizemos. E os cientistas assumem o papel de Deus todos os dias. Quando se tenta curar o cancro ou eliminar a malária, está-se a tomar decisões muito importantes sobre a vida.

O mais assustador é que não existe um verdadeiro órgão de supervisão. Há laboratórios no mundo inteiro a fazer coisas destas. A maioria dos cientistas acha que é preciso que exista alguma supervisão, seja no seio da própria comunidade seja de base governamental. É difícil porque há muito países envolvidos.

Um dos dados chocantes que aparece no final do livro diz respeito a uma equipa de cientistas russos e coreanos que encontrou um mamute congelado que ainda tinha sangue nas veias. É mesmo verdade — e qual é a diferença entre o plano desta equipa e o americano?

A empresa coreana Sooam Biotech foi fundada por um cientista que caiu em desgraça por ter afirmado erroneamente que tinha clonado células humanas. Este cientista reinventou-se e criou uma empresa que faz clonagem de cães. E está também a tentar trazer o mamute-lanoso de volta. O objetivo da equipa é obter uma porção de material de mamute em condições suficientemente boas para ser clonado. Outros cientistas acreditam que se trata de algo impossível. Mas, pretensamente, uma equipa russa com que estão a trabalhar encontrou um mamute-lanoso semissubmerso no gelo que tinha congelado num ápice e que estava em tão boas condições, que quando foi retirado do gelo, havia sangue líquido.

Se é verdade ou não, é difícil de verificar. O material foi escondido num cofre secreto de uma universidade russa. Se este material existir, se este mamute estiver em tão boas condições, que até tem sangue líquido, talvez seja possível cloná-lo e construir um mamute. Church e a sua equipa não acreditam que tal seja possível.

Mas quem sabe?

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