Apenas Mulheres e Crianças Vivem Nesta Cidade Devastada Pela Guerra

A guerra civil na Colômbia ceifou as vidas de todos os homens de La Puria, uma aldeia indígena que se debate, ainda hoje, com as consequências do conflito. Tuesday, April 17, 2018

Por Rachel Brown
Fotografias Por Iván Valencia
Carregando um machete e um cesto de comida, uma mulher da tribo Emberá Katio lança um olhar penetrante ao fotógrafo. Os aldeões de La Puria vivem segundo as técnicas tradicionais de subsistência: caçam e praticam uma agricultura de pequena-escala.

No noroeste montanhoso da Colômbia, a três horas de caminhada desde a cidade mais próxima, por caminhos assombrados por guerrilhas, situa-se a aldeia de La Puria. Abriga cerca de 100 pessoas do povo indígena Emberá Katio. Na sua língua nativa, ẽberá pode significar ser humano, pessoa indígena ou homem. Mas ali não existem homens.

A guerra civil na Colômbia, que se arrastou por décadas, esvaziou La Puria dos seus homens. Alguns foram recrutados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) ou pelo Exército de Libertação Nacional (ELN), os dois maiores grupos guerrilheiros de esquerda. Outros foram vítimas do conflito, à medida que as guerrilhas e os paramilitares de direita intensificavam a violência das respetivas táticas de ataque, incluindo raptos, colocação de minas terrestres e tráfico de drogas.

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Hoje, mulheres, crianças e jovens mães adolescentes são as únicas pessoas que habitam a aldeia de La Puria, diz Iván Valencia, um fotojornalista colombiano, que passou meses a documentar a localidade em 2017. 

Os caminhos da floresta tropical, onde, em tempos, os homens se aventuravam para caçar e recolher alimentos, são, hoje, percorridos por mulheres, brandindo machetes, com os bebés presos às costas. A chefe atual é uma mulher de 26 anos, mãe de quatro crianças. As gargalhadas de crianças a brincar ressoam nas casas que as próprias mães ergueram. Muitas destas crianças são filhos e filhas de mães adolescentes, que foram violadas por soldados de um grupo dissidente de uma guerrilha local.

Ainda hoje, as crianças de La Puria carregam as marcas da guerra. No ano passado, durante uma atividade artística, com fins terapêuticos, na escola da aldeia, quase todas as crianças usaram os lápis de cera e o papel colorido para desenhar pessoas armadas.

Uma Linguagem de Paz

Pela primeira vez, desde os anos 60, o conflito chegou ao fim. Embora, em 2016, o resultado de um referendo civil tenha rejeitado, por uma curta margem, o acordo de paz alcançado pelos líderes das FARC e o governo colombiano, um acordo revisto foi ratificado meses mais tarde. E, muito embora o caminho para a verdadeira paz seja ainda incerto, o cessar-fogo mantém-se.  

Até mesmo depois da guerra, “eles continuam numa situação de total abandono pelas entidades estatais,” afirma Valencia, referindo-se aos habitantes de La Puria. Sem qualquer apoio do governo em matéria de saúde e de obras públicas, a subnutrição e as condições insalubres apenas acentuam os desafios com os quais se debatem, diariamente, numa Colômbia rural e pós-conflito. “Apercebo-me de que as consequências da guerra ainda se mantêm.”

Mas uma pequena luz ainda brilha. Valencia lembra-se de ficar impressionado com o espírito vivaço das gentes de La Puria: “Depois de ter andado tanto tempo na selva, lembro-me de chegar a um lugar salpicado de cor — muitos dos indígenas usavam cores fortes — no meio de tanta sombra e tristeza.”

Para os indígenas Emberá Katio e para o fotógrafo espanhol, a linguagem visual era a única que partilhavam.

“Nós comunicávamos através da máquina fotográfica,” diz Valencia. “Ali, no seu mundo, somos simples estranhos. Temos de saber respeitar o outro, usando o seu próprio vocabulário.”

Siga o trabalho de Iván Valencia no Instagram.

Maria, uma mãe adolescente, passeia com o filho, cujo pai desapareceu.
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