As Crianças Também Estão a Sonhar com a Pandemia

Eis o que estes sonhos podem significar – e como os pais podem lidar com a situação.

Wednesday, May 13, 2020,
Por Rebecca Renner
Fotografia de Severin Schweiger / Getty Images


Callie, de seis anos de idade, conseguia ver sujidade por todo o lado. Estava na sala de aula, no chão, no teto, nos seus lápis de cera e nos sapatos. Estava nas mãos das outras crianças e também estava nas mãos da professora. Ela conseguia ver tudo isto através do seu novo superpoder: visão extrema que mostrava todos os detalhes do mundo. Callie estava obviamente a sonhar.

“Ela passou o [sonho] inteiro a dizer às pessoas para não lhe tocarem”, diz Willie Greer, o seu pai e empresário. “Já ninguém queria falar mais com ela. Por isso, uma das suas colegas de turma decidiu persegui-la, e foi quando ela acordou.”

A filha de Greer teve este sonho em abril, quando a pandemia de coronavírus colocou grande parte do mundo em confinamento. Apesar de Greer não ter muita experiência na análise de sonhos, conseguia perceber as razões que levaram a sua filha a ter este tipo de sonho. Toda a sujidade simbolizava a COVID-19. “Ela sonhou com isto por causa de todas as notícias e comunicados que nos dizem para lavarmos as mãos”, diz Greer.

Callie não é a única criança com sonhos relacionados com a pandemia de coronavírus. Milhões de crianças pelo mundo inteiro estão confinadas nas suas casas; algumas delas não veem as suas salas de aula há mais de um mês. Esta perturbação na rotina, em conjunto com os efeitos emocionais da pandemia, pode estar a fazer com que as crianças tenham estes sonhos, tal como acontece com os adultos.

Porque sonham as crianças com o coronavírus
Mais de cinco equipas de investigação estão a recolher dados sobre estes sonhos da pandemia em projetos com participantes adultos desde março. Até agora, descobriram que os sonhos são influenciados pela ansiedade, pela solidão e pela falta de sono. Os sonhos também apresentam uma simbologia que substitui a própria pandemia. O sonho de Callie substituiu o vírus por sujidade, mostrando que estes pontos em comum ocorrem independentemente da nossa idade ou do local onde vivemos.

“O vírus é invisível, e acredito que é por isso que se transformou em tantas coisas diferentes”, diz Dierdre Barrett, professora assistente de psicologia na Universidade de Harvard e autora de O Comité do Sono. Dierdre é uma das investigadoras que recolhe dados sobre os sonhos relacionados com a pandemia e descobriu que os sonhos, que nos ajudam a processar eventos e emoções negativas, tendem a abordar a pandemia de duas formas.

Uma dessas formas aborda diretamente a pandemia, algo que é comum entre os profissionais de saúde que interagem com pessoas infetadas. Mas isto também é comum em crianças cujos pais, irmãos ou alguém que conhecem contraiu o coronavírus. Algumas crianças dizem ter acordado de pesadelos assustadores em que os pais tinham adoecido.

A outra forma de os sonhos abordarem a pandemia faz-se através da substituição do vírus por uma simbologia fantasiosa, como zombies ou um enxame de insetos. (Algumas crianças dizem que sonharam com personagens estranhas do seu passado, como o Poupas da Rua Sésamo.) Os neurocientistas como Dierdre Barrett dizem que quanto mais vívidas são as imagens, maiores são as probabilidade de o nosso cérebro estar a usar o sonho para processar emoções intensas da nossa vida. Como as recordações dos sonhos e as coisas bizarras presentes nos mesmos estão relacionadas com o processamento da linguagem e com a memória de longo prazo, são os adultos que geralmente se lembram melhor dos sonhos – e os sonhos de que nos lembramos melhor também são os mais estranhos.

As crianças, por outro lado, dizem que têm mais pesadelos em geral – sobretudo pesadelos que afetam o sono – mesmo antes da pandemia. “Mas a maioria dos seus sonhos [relacionados com a pandemia] não são pesadelos”, diz Barrett, acrescentando que os sonhos pandémicos “revelam muito mais ansiedade do que acontece normalmente. São apenas sonhos de ansiedade.” Isto pode explicar porque é que os sonhos pandémicos das crianças são mais vívidos ou mais fáceis de recordar, porque as emoções fortes da pandemia tornam as suas imagens mais intensas.

O que os pais podem fazer
Para ajudar as crianças que não conseguem dormir por causa dos sonhos pandémicos, os pais devem continuar a fazer o que sempre fizeram: garantir que vai ficar tudo bem e que as crianças estão em segurança. Mas há outras coisas que também podem ajudar.

Para começar, uma das formas de minimizar os sonhos pandémicos é ajudar as crianças a dormir. Um sono irrequieto – sobretudo o tipo de sono que nos acorda a meio da noite – faz com que seja mais fácil lembrarmo-nos dos sonhos. Para melhorar a qualidade do sono das crianças, devemos manter os hábitos de exercício, seja dentro ou fora de casa. Devemos garantir que as crianças apanham luz solar suficiente para manterem o seu ritmo circadiano – os sinais que dizem aos nossos cérebros que está na hora de dormir ou de acordar. Criar hábitos de tranquilidade na hora de dormir – como tomar banho, fazer uma rotina de alongamentos ou ler uma história – pode ajudar a acalmar a cabeça da criança para dormir (como acontece com os adultos).

Os pais também podem tentar limitar a exposição das crianças a coisas que as podem perturbar, como demasiadas notícias na televisão. Por exemplo, Greer afasta a atenção de Callie da televisão ao ler histórias em conjunto com a filha. Ele espera que este momento pessoal substitua os seus pensamentos assustadores sobre a pandemia por imagens mais positivas.

Greer e a sua esposa também têm ensinado algumas técnicas de relaxamento a Callie, para que ela consiga lidar sozinha com os seus sentimentos de ansiedade. “Antes de irmos para a cama, a minha esposa e eu fazemos alguns exercícios respiratórios com ela”, diz Greer. Esta família pratica outras técnicas de mindfulness, como expressar gratidão – algo que os estudos demonstram que aumenta a felicidade e a sensação de bem-estar. “Enquanto respiramos profundamente, dizemos coisas positivas uns aos outros, dizemos que estamos em segurança, ou qualquer coisa pela qual estamos gratos nesse dia”, diz Greer. Este ritual melhorou a qualidade de sono de toda a família.

Outra forma de ajudar as crianças a lidar com os sonhos pandémicos é fazer uma “caixa de sonhos”. Muitas crianças, sobretudo as crianças com menos de sete anos, podem não ter as capacidades linguísticas para articularem completamente os seus medos. Mas a arte pode ajudá-las a visualizar uma maneira de ultrapassar as coisas que as assustam.

Para fazer uma caixa de sonhos, peça às crianças para decorarem uma caixa de lenços de papel com marcadores, cola e pequenos enfeites (bolas de lã, botões, lantejoulas, etc.). Escreva “Caixa de Sonhos” na frente e deixe a cola secar.

Quando a caixa estiver pronta, peça ao seu filho para desenhar uma figura numa folha de papel e para a colocar na caixa antes de dormir. A imagem pode ser algo com que as crianças se preocupam ou algo assustador que aparece nos seus sonhos. Isto ajuda o seu filho a visualizar uma forma de ultrapassar os receios e a ter “sonhos controlados”, ou sonhos que nos ajudam a controlar os nossos medos, em vez de deixar que os sonhos nos controlem.

“As pessoas que conseguem dominar os seus sonhos acordam com uma sensação de alívio”, diz Dierdre Barrett, “como se o medo tivesse sido ultrapassado”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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