As Festas de Fim de Ano Letivo Foram Canceladas. Eis Como as Crianças Podem Lidar com a Situação.

As disrupções e os momentos de stress podem ser difíceis para as crianças, mas a capacidade de lidar com estas situações é importante para a vida. Descubra o que os especialistas dizem.

Wednesday, May 20, 2020,
Por Michelle Z. Donahue
Fotografia de portishead1 / Getty Images

Crescendo com um irmão um pouco mais velho, a filha de cinco anos de Merrie Maldonado sabia que o fim dos seus dias pré-escolares seriam marcados por celebrações divertidas – uma cerimónia com uma festa que envolvia melancias.

Portanto, quando a sua escola encerrou, como aconteceu para muitos dos jovens em março e abril deste ano, ela teve de lidar com a desilusão. A sua reação foi chorar, inventar canções sobre a ausência dos seus amigos, e acordar a meio da noite com receio de que a mãe – assistente de saúde que continua a trabalhar – fosse vítima do novo coronavírus que alterou grande parte do seu futuro imediato.

“Ela tinha muitas expectativas”, diz Merrie. “Estes tipos de perdas, de não poder acabar a escola, não são assim tão importantes em geral. Mas, para ela, eram tudo.”

Mas Merrie diz que os desafios emocionais deste cenário social, criados pelos encerramentos devido ao coronavírus, geram outro tipo de situações para muitas famílias: como ajudar as crianças a ultrapassar as adversidades?

“Eu quero que a minha filha tenha as ferramentas necessárias para lidar com os assuntos realmente difíceis, mas também quero que aprenda a estar confortável com as emoções negativas e a dar voz a esses sentimentos.”

Merrie está a referir-se à resiliência – a forma como nos adaptamos positivamente a uma circunstância desafiadora. E com a pandemia a provocar tantos cancelamentos de eventos e até de férias, os pais estão a ter dificuldades em orientar os seus filhos nestas desilusões – enquanto lidam com as suas próprias emoções negativas. (Descubra como manter as crianças positivas durante a pandemia.)

“Este é um tipo de evento fora do vulgar que se está a desenvolver muito depressa, mas onde demoramos a ter noção da sua gravidade”, diz Ann Masten, especialista em resiliência familiar da Universidade do Minnesota. “Mas a vida está cheia de surpresas, e as crianças precisam de estar preparadas para lidar com o inesperado.”

Testes de stress
Desde a década de 1970, quando os trabalhos de investigação sobre resiliência se começaram a desenvolver, que os estudos revelam sucessivamente que a incapacidade em lidar com situações de stress tóxico pode ter consequências. “Sabemos que os traumas e o stress tóxico – stress que pode atingir níveis intoleráveis – podem provocar danos a longo prazo na nossa saúde, tanto físicos como mentais”, diz Masten.

O stress persistente e os eventos traumáticos podem originar níveis elevados de cortisol, e podem resultar no aumento de peso, problemas de memória, ansiedade e perturbações no sono. A ansiedade persistente também pode afetar o sistema imunitário e reduzir as funções executivas de uma pessoa, afetando os níveis de concentração, a memória e o autocontrolo. Xiaoyan Zhang, da Universidade de Syracuse, estuda a forma como as experiências adversas na infância afetam a saúde e o bem-estar, e diz que as crianças que têm dificuldades em lidar com emoções negativas correm maiores riscos de depressão e de comportamentos hostis na idade adulta – fatores associados a um risco aumentado de doenças cardiovasculares e outras.

Apesar disso, Zhang diz que uma criança que consiga superar os desafios sociais e emocionais tem maior probabilidade de terminar os estudos superiores, ter melhor saúde física e mental e conseguir um emprego mais bem remunerado.

Ainda não se sabe exatamente quais são os motivos pelos quais algumas pessoas conseguem lidar com circunstâncias difíceis, enquanto que outras se vão abaixo. É quase impossível separar os efeitos do stress a longo prazo de outras influências na vida de uma criança, embora Masten diga que há vários fatores que se destacam na ajuda que se pode dar às crianças, de forma a desenvolverem resiliência. Por exemplo, uma família solidária, relações saudáveis com outras pessoas e a capacidade de reconhecer e resolver problemas perante as emoções negativas.

Mas, independentemente da situação individual de cada criança, Masten diz que é necessário passar por dificuldades para que as crianças aprendam a lidar com elas.

“Nós até podemos ser modelos exemplares a lidar com o stress, mas as crianças precisam de ter alguma experiência com o fracasso, precisam de cair para aprender a recuperar”, diz Masten. “As crianças precisam de aprender que conseguem fazer as coisas por elas próprias. Elas não precisam de enfrentar grandes dificuldades, mas precisam de alguma experiência para gerir as adversidades.”

Lidar com as desilusões
Lidar com frustrações continuadas – como o cancelamento das celebrações no fim do ano letivo – pode provocar um stress enorme nas crianças. Se a isto juntarmos a tensão de um pai desempregado, o medo de um membro da família poder adoecer e a separação dos amigos, as emoções podem ser devastadoras.

“O antídoto mais importante para um stress avassalador nas crianças é o apoio da família”, diz Masten. “Para os pais, é importante lembrar que as crianças podem conseguir lidar surpreendentemente bem com as desilusões, isto se os pais continuarem a falar com elas e conseguirem manter as experiências positivas. A segurança emocional é crucial.”

E apesar de não parecer, Zhang realça que mesmo as crianças mais novas, que ainda não conseguem verbalizar completamente os seus pensamentos, conseguem comunicar o que estão a sentir – portanto, uma orientação paciente dos pais é particularmente importante.

“Os pais geralmente não acreditam que as crianças mais pequenas conseguem compreender o que os adultos lhes dizem”, diz Zhang. (Parte da sua investigação envolveu trabalhar com crianças num laboratório pré-escolar cujo primeiro idioma não era o inglês.) “Mesmo que eu tentasse nomear os sentimentos das crianças em inglês e estivesse errada, as crianças acenavam com a cabeça a dizer que não, ou acenavam afirmativamente quando eu estava correta.”

Merrie diz que esta é uma estratégia que ela utiliza com a sua filha, quando ela está inconsolável e ansiosa – permitindo que a filha reconheça os seus receios e preocupações sem garantias falsas de que vai ficar tudo bem.

“Na nossa cultura, temos muita dificuldade em lidar com a sensação de perda, seja uma morte ou uma desilusão – temos o desejo de proteger os nossos filhos e de tentar consertar as coisas, ou evitarmos falar sobre isso”, diz Merrie. “Para mim, o mais importante tem sido ser honesta a um nível adequado à idade. Reconhecer o quão má pode ser uma determinada situação, e que não há problema em ter estes sentimentos difíceis, e dar-lhes uma voz.”

Zhang sugere que, em momentos de maior tensão ou de dificuldades, os pais devem estar particularmente atentos à forma como eles próprios lidam com esse stress, porque as crianças mais pequenas podem imitar de imediato a sua resposta. Apesar de poder ser tentador reagir aos nossos filhos sem paciência ou desconsiderar as suas lágrimas persistentes, devemos dar um passo para trás e dar-lhes atenção e conforto. “Se os ignorarmos, eles podem seguir o nosso exemplo”, diz Zhang. E isso pode fazer com que seja ainda mais difícil para uma criança expressar os seus sentimentos.

Sensação de controlo
Qual é o melhor momento para ajudarmos os nossos filhos a lidarem com as situações difíceis devido à COVID-19? Sempre que possível, todos os momentos são bons, aconselha Zhang. “Aproveite todas as oportunidades possíveis para incentivar o seu filho a falar sobre o que sente”, escreveu Zhang recentemente num manual sobre o desenvolvimento de resiliência emocional.

Os pais também podem equipar as crianças com ferramentas que as ajudem a lidar com um momento subitamente difícil: podem usar livros, fotografias e a televisão para encontrar palavras que expressem um sentimento ou uma emoção; respirar profundamente; pedir um abraço; encontrar um lugar tranquilo para relaxar.

Para as crianças mais velhas e para os adolescentes, que estão habituados a uma maior autonomia emocional, os pais podem incentivá-los a ter uma perspetiva “mais afastada” da situação e conversar com eles sobre os seus desejos, objetivos e o que é possível fazer de momento. Isto ajuda a reequacionar a forma como eles estão a encarar as atuais situações de stress, diz Zhang.

Ajudar as crianças a perceber que ainda existem coisas boas a acontecer – e até coisas simples – pode dar alguma esperança às crianças que sofrem com as desilusões. Por exemplo, Merrie coloca tudo num calendário: passear pela vizinhança, brincar com o cão, cozinhar com os pais. E plantar tornou-se numa atividade favorita – observar as plantas a crescer ajuda a filha a sentir que as coisas estão a melhorar cada vez mais, em vez de estarem a piorar.

Ajudar os outros também fez com que as crianças de Merrie desviassem as suas atenções do que sentiam internamente e ajudou-as a reconhecer que podem fazer pequenas coisas por outras pessoas que também estão a passar por dificuldades. Recentemente, escreveram cartas a um novo recruta da Força Aérea e juntaram dinheiro para apoiar o seu restaurante local favorito que foi afetado pela crise de coronavírus.

E em relação à desilusão devido ao cancelamento da festa pré-escolar? As emoções ainda estão lá, mas a filha de Merrie parece estar a aprender com as lições que a mãe lhe tem tentado incutir. Depois de se acalmar de uma crise de choro por não poder estar com os seus amigos, a mãe perguntou à filha de cinco anos se ela queria ajudar a fazer o jantar. A menina fez uma pausa, concordou, e certificou-se de que a mãe sabia o que lhe estava a passar pela cabeça: “Sim, mas continuo a sentir falta dos meus amigos.”

“Foi um momento incrível”, diz Merrie. “É muito incómodo viver com estas emoções negativas – mas é assim que continuamos a viver, porque temos de continuar a viver.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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