Como Fomentar as Relações Entre Netos e Avós (e Bisavós!)

Para as crianças, a comunicação com os mais velhos é crucial, sobretudo numa época em que se assinala o aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

Tuesday, May 12, 2020,
Por Jamie Kiffel-Alcheh
Fotografia de Jose Luis Pelaez Inc / Getty Images


Para manterem os netos ligados aos avós, que estão isolados devido à pandemia, Lisa Mogolov e o seu marido fazem semanalmente videochamadas de culinária. Uma família escolhe os ingredientes e todos preparam uma refeição nas suas casas, em Boston e em Kansas City. É uma ideia inteligente, enternecedora e... não está a funcionar. “Os nossos filhos ficam muito tímidos e tentam esconder-se”, diz Mogolov. “Normalmente, acabo por ser eu e o David a falar com os pais dele.”

Mesmo antes de a COVID-19 ter colocado toda a gente em confinamento, alguns avós e bisavós já tinham relações distantes com os seus netos. E os contactos que tinham envolviam a oferta de brinquedos em datas especiais, o ocasional espetáculo de piano forçado pelos pais, piadas que ninguém quer ouvir e escolhas de roupa ainda piores. Portanto, pode ser difícil descobrir o que dizer às pessoas que costumam estar mais afastadas, e mais difícil ainda quando esse contacto é feito através de uma câmara. “Acho que pode haver muita pressão para as crianças”, diz Mogolov.

Ainda assim, manter o contacto com os familiares mais velhos traz benefícios para a saúde física e mental de todos, quer estejamos a acompanhar alguém durante uma pandemia, ou apenas a incentivar uma relação mais aproximada com os nossos filhos. Isto é particularmente evidente este ano, quando abordamos o aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, para que as lições e histórias dos nossos veteranos (e dos filhos dos nossos veteranos da Segunda Guerra Mundial) continuem a ser transmitidas antes que sejam esquecidas.

“Eu penso que, neste momento, temos uma população ansiosa e há muita coisa desconhecida no ar”, diz Jenna Hauss, diretora de iniciativas estratégicas e serviços comunitários da ONEgeneration em Reseda, na Califórnia. “Esta é uma oportunidade perfeita para os mais velhos passarem a mensagem de que vai ficar tudo bem.”

Os benefícios
Os estudos dizem que os idosos que participam em programas intergeracionais revelam mais otimismo, cuidam melhor de si e têm taxas mais baixas de mortalidade precoce. E uma relação forte entre avós e netos pode aliviar tendências depressivas, tanto nos adultos como nas crianças, de acordo com uma investigação citada por Thomas Cudjoe, professor assistente de medicina geriátrica e gerontologia da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

Ter uma relação com os avós pode ajudar as crianças a desenvolver qualidades que as tornam melhores cidadãos em geral, incluindo ter mais empatia. “As crianças estão habituadas a pensar no eu, eu, eu”, diz Tina-Anne Praas, da SKIP, uma organização sediada em Ontário que reúne estudantes com pessoas idosas. “Quando os mais novos veem uma pessoa que passou por várias fases da vida, isso afasta-os dos pensamentos mais egoístas. Eles conseguem ter uma perspetiva diferente.”

E a proximidade com os avós também pode ajudar as crianças a desenvolver a comunicação e até capacidades cognitivas, sobretudo quando conseguem aprender e comparar as suas experiências com as de um avô ou avó. E isso não acarreta a pressão de conversar com os pais. “Para os mais novos, trata-se de compreender, ser capaz de comparar e aprender – e sentir algum conforto”, diz Jenna Hauss.

Jenna acrescenta que já observou isto em primeira mão através do programa Sages and Seekers da ONEgeneration, que liga alunos do ensino secundário a pessoas idosas. Jenna diz que os alunos estavam genuinamente preocupados com a vida para além da escola, depois de ouvirem atenciosamente os idosos a partilharem as experiências que tiveram na mesma fase da sua vida, há mais de 50 anos.

As boas relações com os avós também podem ajudar a moldar o caminho de vida de uma criança. “As minhas interações com os meus avós inspiraram-me a seguir medicina”, diz Cudjoe. “Eles inspiraram o meu trabalho sobre a importância vital das relações sociais.”

Fazer acontecer
Começar – com ou sem ecrã – pode ser a parte mais difícil. “Se não se conhecerem bem uns aos outros, as perguntas de sim ou não podem ser letais”, diz Donna Butts, diretora executiva da Generations United, uma organização sem fins lucrativos de Washington DC que trabalha com programas intergeracionais e questões de políticas públicas. Mesmo antes das ordens de confinamento, os diretores de programas como os de Donna perceberam que reunir as pessoas numa sala e esperar que a magia acontecesse não era suficiente. “A atividade é o que une gerações. Eles criam laços mais rapidamente em torno de um projeto, algo que possam criar ou resolver e fazer juntos”, diz Donna. Eis algumas ideias para começar.

Faça uma caminhada. Fazer uma videochamada enquanto passeia é a escolha ideal para uma criança que não consegue ficar parada ou que tem vergonha da câmara. “As pessoas podem fazer passeios ou caminhadas e [conversar por videochamada] ao mesmo tempo”, diz Donna. “Eles descrevem o que estão a ver, o que estão a sentir; a tecnologia pode ajudar nisso.”

Partilhe conhecimentos. Donna conhece um avô que é jardineiro e que enviou materiais e instruções para o seu neto antes de falar com ele. Assim, avô e neto podem plantar juntos enquanto falam à distância. (E não é só a relação que floresce, o jardim também.) “Os avós também podem ensinar uma receita de família aos netos”, sugere Donna. Se enviarem a receita antes de fazerem a chamada, podem recolher os ingredientes e preparar questões com antecedência: Qual a importância da receita para a família? Como é que a avó aprendeu a fazer aquela receita? Quanto é que custavam os ingredientes antigamente?

Plante as sementes. Fazer uma árvore genealógica é uma ótima oportunidade para aprender história e ficar a conhecer melhor os avós. Faça o máximo de ramos possível e deixe pontos de interrogação para os avós ajudarem a preencher os espaços em branco. Os seus filhos podem sentir que estão a fazer trabalho de detetive enquanto fazem perguntas sobre os bisavós, tias, tios e primos. E podem descobrir que o seu talento artístico veio do bisavô Max, o pintor, ou que as suas capacidades desportivas vieram do primo Ray. E se os seus filhos tiverem uma tendência para o teatro, podem vestir-se de maneira a recriar uma fotografia antiga de família. Praas sugere enviar essa fotografia aos avós juntamente com uma nota engraçada.

Partilhe mexericos. Partilhar histórias “infames” de família é outro bom ponto de partida para uma conversa. Comece por pedir aos seus pais ou sogros que o ajudem a contar a história daquele jantar, quando uma criança de seis anos partiu a sua primeira pata de caranguejo e a atirou acidentalmente ao pai. Se a história o envolver, os seus filhos são capazes de ficar mais interessados. (Prepare-se para algumas gargalhadas à sua custa!) Pense noutras perguntas divertidas que as crianças podem fazer, como o momento mais embaraçoso do avô.

Retribua. Ambos os lados podem sentir satisfação através de projetos voluntários caseiros. As avós podem ajudar a resolver problemas com bainhas complicadas enquanto costuram máscaras para doar, e podem fazer máscaras mesmo sem uma máquina de costura. As crianças mais pequenas podem dobrar máscaras. Quando os voluntários da ONEgeneration entregam refeições a idosos, incluem desenhos feitos por crianças do pré-escolar. Os seus filhos podem seguir o exemplo e enviar as suas obras-primas.

Fale na língua deles. Ensinar um idioma é algo que muitos avós podem fazer, sobretudo se a família tiver uma cultura rica em imigrantes. E podem descobrir mais do que apenas idiomas falados. Donna lembra-se da história de um dos seus funcionários. “O avô era surdo, por isso, toda a família sabia língua gestual”, diz Donna. “Agora o avô ensina língua gestual ao neto uma vez por semana através de videochamada. E isso é algo que vai ficar com ele para o resto da sua vida.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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