Como Manter as Crianças Positivas Durante a Pandemia

E como a positividade pode fazer com que fiquem mais recetivas à aprendizagem.

Thursday, May 7, 2020,
Por Jamie Kiffel-Alcheh
Fotografia de Nick David / Getty Images

Quando a escritora nova-iorquina Nora Zelevansky descobriu que a sua filha de seis anos estava a brincar ao “restaurante de hotel”, ficou surpreendida com os contornos da brincadeira. “A minha filha disse que precisavam todos de ser despedidos e que ela também seria demitida, porque não havia dinheiro suficiente, e que um dos seus animais de peluche estava a guardar a comida toda”, diz Zelevansky. “Normalmente, os seus animais de peluche usam capas para salvar o mundo, ou estão vestidos para festas de aniversário. Os bonecos nunca são demitidos dos seus empregos.”

Maio é o Mês de Sensibilização da Saúde Mental, e os pais estão compreensivelmente preocupados com os impactos da COVID-19 na saúde mental dos seus filhos. São preocupações válidas. As crianças já têm dificuldades suficientes em regular os seus sentimentos, porque o lobo frontal (a parte do cérebro que controla o pensamento racional) desenvolve-se durante a adolescência. Mas os estudos também demonstram que os traumas – como os receios em torno de um evento que pode mudar a vida, como esta pandemia – podem afetar a formação do cérebro, levando a problemas no controlo das emoções em períodos mais tardios da vida.

“Os estudos estão a começar a mostrar que, quando somos mais positivos, aumentamos a interligação entre os nervos cerebrais”, diz Ashok Shimoji-Krishnan, psiquiatra de crianças e adolescentes do consórcio Kaiser Permanente, em Washington. Isto significa que os cérebros das crianças funcionam melhor quando pensam de forma positiva. Portanto, as crianças com um estado de espírito positivo são mais capazes de lidar, por exemplo, com tarefas complicadas de ensino à distância.

O pensamento positivo também aumenta os níveis hormonais de bem-estar, como a serotonina e norepinefrina, que estimulam o cérebro a procurar vibrações positivas. “Quando somos positivos, promovemos mais a positividade ao longo do caminho”, diz Shimoji-Krishnan. Eis algumas ideias de especialistas sobre como manter a positividade dos nossos filhos.

Sinais a ter em atenção
Zelevansky tentou proteger arduamente os seus dois filhos dos detalhes mais assustadores. “Mas eu não fazia ideia do quanto eles estavam a absorver”, diz a escritora. A chave passa por procurar sinais subtis de que os nossos filhos podem estar a cair em pensamentos negativos.

“A ansiedade é diferente nas crianças e nos adultos”, diz a psicóloga do desenvolvimento Cynthia Smith, diretora de estudos de pós-graduação do Departamento de Desenvolvimento Humano e Ciências Familiares do Instituto Politécnico da Virginia, em Blacksburg. “Podemos ver as crianças a agirem de forma mais emotiva e a ficarem mais apegadas, ou a fazerem muitas perguntas.”

Shimoji-Krishnan, que também é o chefe do departamento de saúde mental infantil do consórcio Kaiser Permanente, concorda. “As crianças mais novas podem ser mais fáceis de interpretar, fazem mais birras, mais queixinhas e choramingam. Podem estar mais no limite, questionar um pouco mais e discutir mais também.”

É provável que as crianças mais velhas demonstrem sinais mais subtis. “Podem não interagir tanto com a família, ficam a jogar aos seus videojogos favoritos ou passam tempo com os amigos online”, diz Shimoji-Krishnan.

Porém, todas as crianças parecem ter uma reação em comum. “As crianças que estão a mergulhar na negatividade podem não dormir tanto, ou dormir demasiado. Algumas crianças podem comer muito mais do que o habitual. E podem só querer comer doces ou carboidratos. E também podem não querer comer.”

Como podemos responder
A coisa mais importante que os pais podem fazer também pode ser a mais difícil: manter a positividade. Shimoji-Krishnan diz que, quando estamos com os nossos filhos, é essencial tentar controlar o estado de espírito, porque o nosso humor é contagioso.

“As crianças são influenciadas pelo que veem. É realmente importante que os pais reservem algum tempo para si próprios, para saberem como se sentem. Se os pais não conseguem manter a calma, vão ter dificuldade em acalmar os outros.” Enquanto pai de crianças pequenas, Shimoji-Krishnan reconhece que isto pode ser complicado e sugere que se converse com um parceiro ou com um amigo, ou que se faça uma pausa para processar as coisas antes da interação com crianças.

Depois, basta fazer o que devemos fazer: estarmos disponíveis.

“Para as crianças mais pequenas, brincar com elas significa muito, porque neste momento estão a perder a socialização das salas de aula”, diz Smith, que também é a chefe do Laboratório de Emoções Infantis do Instituto Politécnico da Virginia. “Devemos tentar dedicar algum tempo para estarmos com as crianças e deixá-las assumir a liderança. Perguntar o que querem fazer dá-lhes uma sensação de controlo, sobretudo quando tudo parece um pouco fora de controlo.”

As crianças, quando brincam, costumam representar o que estão a sentir ou a pensar. “E assim podemos comentar que reparámos que, naquela brincadeira, alguém estava fechado em casa. E perguntar no que estão a pensar”, diz Shimoji-Krishnan. “Esta pode ser uma oportunidade para as crianças comentarem de uma forma realmente neutra e sem pressão para responder.”

Se os nossos filhos não tiverem muito para dizer, não faz mal. “Devemos deixá-los falar ao seu ritmo”, acrescenta Shimoji-Krishnan. E isto é ainda mais importante para os adolescentes. “Se ultrapassarmos os seus limites, eles fecham-se.” Em vez disso, temos de descobrir o que precisam. “Podemos dizer que estamos contentes por eles quererem falar connosco. Ou podemos perguntar se querem que fiquemos a ouvir, ou se podemos fazer sugestões. Desta forma, ficamos a saber até onde podemos ir.”

Manter uma rotina, mesmo que com alguma liberdade, também pode fazer uma diferença enorme. “As crianças podem estar a fazer mais birras porque não têm as suas rotinas”, diz Smith. “Estão a sentir falta dos professores, dos amigos e da escola.”

Shimoji-Krishnan enfatiza que se devem estabelecer horários – mas que não podem ser demasiado exigentes. “Apenas algo que diga às crianças que isso pode ser útil, como tempo para ver televisão e tempo para outras atividades. E fazer pausas onde as crianças podem estar à vontade.”

Fomentar a alegria
Uma forma de manter as crianças positivas é ajudá-las a sentir gratidão. “Esta é uma das melhores formas de mudar a sua mentalidade”, diz Fimi Haddadian, cofundadora e psicóloga da escola Bluejack Kids, um centro de aprendizagem emocional para alunos do ensino básico, em Glendale, na Califórnia. De facto, vários estudos revelam que sentir gratidão também pode melhorar a saúde cardíaca, fazer com que as pessoas se sintam mais felizes e até melhorar o sono.

Haddadian recomenda que, antes de dormir, as crianças nomeiem três coisas pelas quais sentiram gratidão nesse dia. Os adolescentes até podem ter um “diário de gratidão”.

Ajudar os outros é uma forma simples de reverter a negatividade. De acordo com um estudo de 2017 da revista BMC Public Health, o voluntariado está diretamente relacionado com melhorias na saúde mental e com a diminuição de depressão. “Todos os dias, às duas da tarde, a minha filha de 12 anos faz uma atividade de arte virtual com os seus primos de 5 e 6 anos”, diz Haddadian. “Ela sente que está a ajudar as crianças, e os primos estão sempre ansiosos pela atividade.” Os pais também podem considerar atividades onde os seus filhos escrevem cartas ou fazem desenhos para idosos que estão em lares, ou para crianças que estão hospitalizadas, e também podem fazer máscaras para doar, ou limpar um armário com coisas que já não precisem para dar a organizações sociais. (O que deve saber sobre máscaras e ventiladores DIY.)

Os pais também podem incentivar as crianças a substituírem os pensamentos negativos por pensamentos positivos. “Peça às crianças para escreverem o pensamento negativo num balão”, diz Haddadian. “Depois, rebentam o balão e substituem esse pensamento por outro mais saudável.” Portanto, se o primeiro pensamento era “os meus amigos vão esquecer-se de mim”, a substituição positiva pode ser “vou ligar aos meus amigos agora e voltamos a estar juntos quando for seguro”. Neste processo, as crianças estão literalmente a afastar os pensamentos negativos e a reforçar os positivos.

As crianças também podem dar um nome à sua voz negativa interior. “É uma forma de tomarem consciência disso”, diz Haddadian. “Digamos que a minha voz negativa interior se chama Bertha. E assim, digo: ‘Oh, cá está a Bertha outra vez a dizer-me para ter medo.’” Uma criança pode responder: “Bertha, eu sou forte. Eu consigo ultrapassar isto.”

E em momentos de pânico real, os pais podem ajudar as crianças com um simples exercício de respiração. Isto pode acalmá-las e abrir espaço para pensamentos positivos. “Finja que está a cheirar flores, e depois que está a soprar velas de aniversário”, diz Haddadian.

Zelevansky começou a fazer meditações guiadas com os seus filhos à noite e diz que isso tem ajudado, e diz que também conversa regularmente com as crianças. “A verdade é que todos nós temos bons e maus momentos durante isto tudo. Portanto, o que podemos fazer é continuar a abraçar os nossos filhos. E tento dizer-lhes várias vezes por dia que eles estão em segurança.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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