Está Preocupado com os Efeitos do Coronavírus na Escolaridade dos Seus Filhos? A Natureza Pode Ajudar.

Uma relação com a natureza tem benefícios cognitivos e emocionais nas crianças. Eis o que acontece quando andam ao ar livre.

Tuesday, May 26, 2020,
Por Michelle Z. Donahue
Fotografia de boonchai wedmakawand / Getty Images


Os pais das crianças que frequentam a Schlitz Audubon Nature Preschool em Milwaukee, nos EUA, gostam de partilhar as mudanças que observam nos seus filhos. Depois de terem passado várias horas por dia ao ar livre – a explorar e a aprender a observar silenciosamente a vida selvagem – as crianças tímidas ficaram mais ousadas e a hesitação deu gradualmente lugar à confiança.

Os professores também repararam nas diferenças – as crianças sentavam-se em silêncio quando necessário, ficavam mais atentas e conseguiam controlar melhor os seus comportamentos.

“Eu falava com professores de outras escolas que diziam: ‘Conheço crianças que vieram dessa escola’”, diz Patti Bailie, fundadora e antiga diretora da escola que agora é professora assistente de educação infantil na Universidade do Maine. “E essas crianças faziam mais perguntas, estavam mais dispostas a experimentar coisas novas e preocupavam-se mais com as outras crianças.”

A relação das crianças com a natureza é há muito tempo considerada benéfica para o corpo e para a mente. O tempo passado ao ar livre tem sido associado a uma melhoria nos processos cognitivos, incluindo memória de trabalho, raciocínio, flexibilidade nas tarefas e resolução de problemas – a forma como aprendemos em vez de o que aprendemos. Bailie acrescenta que as experiências com a natureza estão positivamente ligadas ao desenvolvimento inicial do cérebro e que oferecem oportunidades para melhorar as capacidades motoras, para além de estimularem substâncias químicas que melhoram a comunicação neurónio-neurónio e ajudarem a produzir novas células no cérebro.

“Já existem provas suficientes que mostram uma ligação entre a aprendizagem ao ar livre e o desempenho académico”, diz Sarah Milligen-Toffler, diretora executiva da Children & Nature Network. “Sabemos agora que a natureza afeta de maneiras muito específicas a nossa capacidade de aprender e interagir.”

Eis o que alguns especialistas dizem sobre a forma como as atividades ao ar livre, ou baseadas na natureza, podem aumentar as capacidades mentais dos seus filhos.

Movimento + sujidade = mentes mais fortes
Um dos princípios centrais da teoria da “aprendizagem baseada no cérebro” é o de que o movimento pode fortalecer a capacidade do cérebro em termos de aprendizagem, retenção e recordação do que se aprende. Esta abordagem teve início em meados dos anos 1990, depois de estudos terem demonstrado que muitas das vias neurais no cerebelo, uma área altamente complexa do cérebro envolvida na coordenação dos movimentos motores, também estão envolvidas nos processos de aprendizagem.

As investigações posteriores revelaram que as atividades que envolvem movimentos transversais laterais, ou que abrangem os braços e as pernas, ajudam especificamente os dois lados do cérebro a estabelecerem uma ligação e a comunicarem entre si. Isto significa que coisas como escavar à procura de um tesouro, ou agachar-se para ver melhor um inseto, podem estar diretamente relacionadas com uma melhoria nas capacidades de escrita e leitura.

Ou seja, até certo ponto, a sujidade com a qual as crianças interagem pode ser uma coisa boa – ao ar livre no quintal, nos parques infantis ou noutros espaços naturais.

A palavra-chave é “desestruturado”. Para além de terem brinquedos no quintal, as crianças devem ter ferramentas, como pás ou colheres, e ter acesso a paus ou arbustos para interagirem. Leve as crianças até um rio nas proximidades para elas poderem revirar pedras e procurar anfíbios ou invertebrados, ou para trilhos de caminhada com muitos troncos e rochas para poderem saltar e navegar pelo percurso.

“Para as crianças, o que é convidativo é não estarem sob o domínio dos adultos”, diz Nooshin Razani, pediatra e diretora fundadora do Center for Nature and Health do Hospital Infantil Benioff Oakland da Universidade da Califórnia, São Francisco. “Não pode ser uma coisa muito arrumada, nem demasiado estéril. Um relvado por si só não é muito divertido. São necessárias pequenas coisas com as quais as crianças possam brincar e por onde se possam movimentar. Assim, ficam com uma paisagem repleta de oportunidades que estimulam a criatividade.”

Capacidade de concentração e memória, graças à natureza
A natureza oferece muitas oportunidades para uma observação mais cuidadosa – e promover essa capacidade ajuda as crianças a concentrarem-se e a aprender sobre o mundo que as rodeia. Por exemplo, uma lupa ou um microscópio; mesmo os mais baratos, podem revelar detalhes surpreendentes. Faça uma “micro-caminhada” no seu quintal, num parque local ou até mesmo num terreno baldio e registe as plantas e animais que encontra ao longo de um percurso de 15 metros.

Faça perguntas: O que está na terra?  Quais são as diferenças entre folhas de árvores diferentes? Quais são os pássaros ou insetos na janela, na varanda, no quintal ou no parque?

Estes tipos de atividades acompanhadas de perguntas despertam o interesse e a curiosidade – e não exigem viagens a lugares longínquos. De facto, um estudo feito em Barcelona, que analisou imagens cerebrais de ressonância magnética de crianças, descobriu que o simples acesso a espaços verdes na rua – ou até mesmo a possibilidade de se verem árvores e o céu através de uma janela – estava associado ao aumento de matéria cinzenta e branca em áreas do cérebro ligadas à memória, concentração e cognição.

“Existe uma forte ligação entre concentração e aprendizagem”, diz Bailie. “A ideia é a de que, quando as crianças exploram o mundo natural, fazem-no com muito interesse e atenção. E as coisas que chamam a nossa atenção estão ligadas à memória.”

Milligen-Toffler reconhece que nem sempre é fácil estar em contacto com a natureza, mas refere que literalmente tudo a que uma família tem acesso pode ser benéfico. Vive na cidade? Ver o céu e as árvores, explorar o que há na rua, ou identificar espécies locais são coisas benéficas. E até os livros, programas de televisão ou aplicações para telemóvel podem ajudar.

“Muitas vezes pensamos em ‘natureza’ como uma coisa em grande escala – e é verdade que sentimos isso nas montanhas ou no oceano. Mas sabemos que olhar para imagens da natureza ajuda o cérebro.”

Fortalecimento dos laços familiares
Razani, que é muito conhecida pelas suas “prescrições de parques”, diz que há uma coisa sobre o tempo que se passa ao ar livre que costuma passar despercebida: o papel que desempenha na construção e promoção de relações saudáveis.

No trabalho clínico que faz na área da Baía de São Francisco, Razani integra nas suas intervenções terapêuticas os passeios nos parques, para ajudar famílias que enfrentam problemas como pobreza, depressão e outros.

Na sua investigação, Razani observou que os ambientes ao ar livre podem ajudar as pessoas a criar laços sociais benéficos. Estas observações são suportadas por outras investigações: um estudo de 2018 descobriu que, enquanto se fazem pequenos passeios, falar com as crianças resulta numa melhor capacidade de conversação, de resposta e de comunicação entre pais e filhos.

Alguns dos trabalhos atuais de Razani exploram a utilização da natureza enquanto terapia. Nos seus ensaios clínicos, esta pediatra estuda a forma como o ambiente ao ar livre e a natureza podem ser usados para tratar depressão e ansiedade, não só em crianças, como ao nível familiar.

“Se queremos levar a natureza a sério em termos de intervenções na saúde, precisamos de diretrizes sobre as quantidades, com que frequência, e para quem a natureza pode ser útil. Mas sabemos que uma simples relação forte com os pais pode oferecer vários benefícios no desenvolvimento do cérebro infantil.”

Razani lembra-se de uma menina de 13 anos que, juntamente com a sua mãe, foram das primeiras participantes no programa de prescrição de parques. Na altura, viviam ambas num abrigo familiar e a menina sofria de ansiedade e tinha problemas em conseguir manter um peso saudável. Mas depois de terem começado a fazer passeios ao ar livre, mãe e filha conseguiram lidar melhor com as suas próprias necessidades emocionais, e a ansiedade e os problemas de peso da menina melhoraram.

“A natureza oferece uma paisagem para a construção destas relações dentro de uma família”, diz Razani. “As famílias precisam de saber que têm o direito de reservar um pouco de tempo todos os dias para estarem em união – e que isso traz benefícios reais para a saúde.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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